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As 10 propostas que Marina apresenta agora a Dilma e Serra

foto: Nacho Doce

Dilma, Serra ou nenhum? Marina ainda não disse, mas deixou ideias. Faltam três semanas para os eleitores voltarem às urnas.
Dilma Rousseff e José Serra já voltaram à campanha para a segunda volta das presidenciais brasileiras. A batalha agora é pelos 19 por cento de votos que Marina Silva teve, e portanto na re-inauguração dos tempos de antena ambos se declararam "pela vida" em relação ao aborto, visto que Marina é contra a legalização (embora defenda um referendo).
Mas a ex-candidata continua a não indicar quem prefere na segunda volta. A força pela qual concorreu, o Partido Verde (PV), decide dia 17: Dilma, Serra ou neutralidade. E até lá, Marina deixa dez propostas aos candidatos, com a defesa do meio ambiente como um dos temas centrais.
O documento, a que chamou Agenda por Um Brasil Justo e Sustentável (ver em baixo), foi apresentado sexta-feira à tarde em São Paulo.
A aceitação destas propostas por parte de Dilma ou Serra será base para discutir, mas não será o único factor de decisão, sublinhou Marina.
Além do partido, deverão ser ouvidos o Movimento Marina Silva e sectores da sociedade, e a escolha da ex-candidata pode eventualmente ser diferente da do PV. "O que está previsto é que todos têm o direito de manifestar sua opinião", disse ela.
Antes da primeira volta, circulou que o líder do PV, José Luiz Penna, apoiaria Serra. Na noite da eleição, Marina insistiu sempre na ideia de "um processo" de debate. E depois da votação, a imprensa brasileira tem especulado incessantemente sobre negociações entre o PV e as campanhas de Dilma e Serra.
Na apresentação das propostas, Marina apareceu ao lado do presidente do PV, e ambos negaram negociações em curso. O senso comum é que o apoio a Marina é muito mais amplo que o apoio ao PV, e que ela teria a ganhar em manter-se neutra, visto que de outra forma desiludirá sempre uma parte dos que acreditaram nela.
A três semanas da votação, a atmosfera é a de um país bastante dividido entre os lulistas fiéis e os que nem podem ver Dilma. Só numa coisa toda a gente parece estar de acordo: nem Serra nem Dilma são candidatos entusiasmantes.

Assustadora, ela?

Marina foi entusiasmante num aspectro talvez inédito: desde os evangelistas à finança de São Paulo, passando por artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Mas há quem ache o fenómeno Marina "assustador". É o caso do escritor Bernardo Carvalho, carioca de nascimento mas paulistano de adopção. Na primeira volta estava em viagem pela Europa e agora, acabado de aterrar no Brasil, sente-se inquieto com a força dos valores religiosos na campanha.
"Quando a Marina saiu do governo do Lula, a política de ambiente virou um desastre", diz ao PÚBLICO. "Eu quero a Marina como ministra do Ambiente, mas não a quero como Presidente. Ela é uma candidata assustadora. Por trás dessa aparência do bem, tem uma coisa hiperconservadora em relação ao casamento gay, ao aborto, ao ensino do criacionismo."
Quanto ao casamento gay, Marina disse que deveria ser matéria de referendo, e quanto ao criacionismo disse que devia ser ensinado na escola, a par do evolucionismo. Enquanto praticante evangélica, a sua posição em matérias sociais tende a ser conservadora, com a ressalva de que são posições pessoais, e defende plebiscitos.
Homossexual assumido, Bernardo Carvalho discorda de forma radical destas posições de Marina, mas também não se revê nas piruetas de Serra e Dilma para mostrar como são "pela vida". "Eles são hipócritas quanto ao aborto, a única autêntica aí é Marina."
Carvalho acha que os dois governos de Lula foram "de longe os melhores que o Brasil já teve", e que estes três candidatos da primeira volta até "são sensacionais se virmos a história do Brasil, gente como Collor de Melo". Mas Dilma não o convence e em Serra não votaria. Portanto, vota nulo. "Para mim tanto faz. Nenhum vai ser muito mau." Ou seja, suficientemente mau para afectar o Brasil.

As dez ideias

1. Liberdade de imprensa e transparência das informações sobre execução orçamental.

2. Reforma eleitoral com adopção do voto distrital misto (metade maioritário, metade proporcional) e financiamento público de campanhas.

3. Sete por cento do PIB para educação, procurando universalizar o acesso à pré-escola e à creche; eliminação do analfabetismo; valorização dos professores; criação do Sistema Nacional de Educação.

4. Subsídio à educação de jovens em situação de risco; valorização salarial de policiais; reforma do modelo policial.

5. Uma agência reguladora para a Política Nacional de Mudanças Climáticas; publicação de estimativas de gases com efeito de estufa; transformar em lei as metas de redução de gases-estufas; aumento das energias renováveis; fim de leilões para termoeléctricas movidas a diesel ou carvão mineral; supressão do imposto sobre veículos eléctricos e híbridos; moratória sobre novas centrais nucleares; criação do Sistema Nacional de Prevenção e Alerta sobre Desastres Naturais; universalização da banda larga.

6. Dez por cento do orçamento federal para saúde; Programa Saúde da Família para 80 por cento da população; aumento para 75 por cento dos domicílios com acesso à rede de esgotos e pelo menos 50 por cento com tratamento do esgoto.

7. Desmatamento zero de vegetação nativa primária e secundária; veto a alteração do Código Florestal que reduza áreas de reserva legal; Plano Nacional para Agricultura Sustentável.

8. Limitar gastos governamentais; proposta de reforma tributária em seis meses de governo; revisão da tributação de acordo com impacto sobre o meio ambiente.

9. Política externa orientada pela promoção da paz, liberdade, democracia e respeito dos direitos humanos.

10. Conclusão da demarcação e homologação das terras indígenas e criação de fundo para apoiar indígenas; implementação do Sistema Nacional de Cultura; combate à discriminação racial, sexual e religiosa.

publicado em O Público

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