Shows de Chico Buarque em Portugal ameaçados por razões económicas


O Nuno Pacheco tem más notícias:
Os cinco concertos de Chico Buarque anunciados para Portugal estão ameaçados por razões económicas. A sobrevalorização do real face ao euro obrigou os representantes do cantor brasileiro a procurar eventuais patrocínios junto de empresas portuguesas, para viabilizar os concertos, mas esses contactos, iniciados há cerca de três meses, não deram qualquer resultado. A notícia foi confirmada pelo junto do assessor de imprensa do artista, Mário Canivello, que adiantou que “se até ao início de Maio” não houver qualquer evolução, os concertos em Portugal serão cancelados. Portugal seria o único destino internacional da tournée do espectáculo onde o cantor tem vindo a apresentar o seu mais recente disco, “Chico”, lançado em 2011. O espectáculo, que já foi visto no Brasil por cerca de 200 mil pessoas, em seis cidades, terá ainda mais quatro apresentações: Recife, Fortaleza, Natal e Brasília. Este último seria em Agosto, pouco antes dos cinco concertos em Portugal, planeados para a primeira quinzena de Setembro nos coliseus de Lisboa e Porto. Mas se estes acabarem por ser cancelados, o concerto de Brasília será antecipado para Junho e fechará definitivamente a tournée.
Chico Buarque de Hollanda, um dos maiores compositores da história da música brasileira, apresentou-se pela última vez em Portugal em 2006, no casino de Espinho e nos coliseus de Lisboa e Porto. Um total de nove concertos com lotações esgotadas onde, após 13 anos de ausência dos palco portugueses, apresentou o disco “Carioca”.

Um dó se Portugal ficar privado da oportunidade de ver esse show, sobretudo porque Chico não é de andar muito pelos palcos!...

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Sugestão de leitura: "Dorival Caymmi: o mar e o tempo" de Stella Caymmi


Resultado de dez anos de minuciosa pesquisa, fica a biografia de Dorival Caymmi (publicada em 2001, via Editora 34) por Stella Caymmi: quase 700 páginas, com cerca de 300 imagens, que atravessam a trajectória completa de um brasileiro exemplar, «homem simples e sensível», que dedicou sua toda a sua vida a duas artes maiores, a música e a felicidade.

08:32 | Posted in , , , | Read More »

Entrevista a António Zambujo: «Minha aproximação com o Brasil é cada vez maior»

O cantor português António Zambujo, 37 anos, lança o disco "Quinto": "O que eu faço, eventualmente, será um cool fado. Sempre foi essa linha que me influenciou enquanto cantor. Depois do Chet Baker, veio o João Gilberto, o Caetano Veloso"

António Zambujo: "70% dos portugueses ainda estão com a gravata apertada"
O cantor António Zambujo chega ao disco "Quinto", a ser lançado em abril, em Portugal, não apenas com a guitarra de renovador do fado - na mesma intensidade, notabiliza-se como um aproximador dessa tradição com o repertório da música popular brasileira. Nascido em Beja, no Alentejo, em 1975, Zambujo imprime um cool fado desde o álbum "Outro sentido", o início de sua transição musical. Influenciado por Chet Baker e João Gilberto, ele faz uma arriscada e até há pouco improvável ponte entre a Bossa Nova e um gênero historicamente marcado por suas cantoras viscerais, como Amália Rodrigues.
Nesta entrevista a Terra Magazine, António Zambujo recompõe sua trajetória profissional - estudou clarinete a partir dos 8 anos - e relata seus diálogos com músicos brasileiros, de Rodrigo Maranhão a Ivan Lins, de Moreno Veloso a Marcelo Camelo. Com este último já engatilhou uma parceria e pretende desenvolver um projeto de disco, que reunirá ainda Miguel Araújo Jorge.
- Apaixonei-me pela música brasileira a primeira vez que ouvi o João Gilberto. Quando ouvi João Gilberto, tive vontade de conhecer toda a origem, até um pouco antes da Bossa Nova, os movimentos que a sucederam, a música que vinha lá atrás, com Orlando Silva, Pixinguinha, Cartola, Adoniran Barbosa - Zambujo relata.
Admirador de Vinicius de Moraes, ele já gravou "Apelo", "Quanto tu passas por mim" e "Poema dos olhos da amada". E aprecia imenso uma mensagem do poeta aos portugueses, gravada no disco "Amália/Vinicius", no qual o visitante confessa sua "impressão de tristeza em ver esse povo tão formalizado". "Eu tenho a impressão de que o povo português precisava se desengravatar", declarou o bardo. Quarenta anos depois, Zambujo vibra com esse conselho:
- Eu adoro isso! Eu adoro ele dizer isso! Ele disse em 1969. Nós estamos em 2012 e, não digo todos, mas 70% dos portugueses ainda estão com a gravata apertada!
No começo de sua carreira em Lisboa, o fadista integrou por quatro anos o elenco do musical "Amália", interpretando o papel de Francisco Cruz, o primeiro marido da cantora. Pertencente a uma geração que procura modernizar o fado, António Zambujo reconhece a grandeza da artista:
- A Amália funcionava um pouco como eucalipto. Ela estava lá enquanto tudo à volta secava. Acho que não é propositado. Acho que isso, de fato, aconteceu, mas só aconteceu porque Amália tinha uma dimensão fora do comum. Nem sei se existe alguma coisa que se possa comparar no mundo. Porque ela tinha uma qualidade artística. Ela cantava e escrevia os poemas, fazias músicas, fazia tudo.
Provocado sobre os impactos da internet na indústria fonográfica, principalmente após o alastramento do download de músicas, Zambujo defende o conceito de álbum e acredita que ele não será alterado, na essência, pelas novidades tecnológicas.
- Ah, eu acho que nunca vai acabar. Nesse aspecto, é como eu te digo: como ouvinte, gosto de ouvir o disco, não gosto de uma música como nas tais coletâneas. E, como músico, gosto de imaginar um disco como um todo. Não gosto de imaginar faixa a faixa. Uma disco é um conjunto de músicas. Faz sentido naquela ordem, existe uma razão para isso - expõe.
A entrevista ocorreu no apartamento do fadista no Chiado, em Lisboa, a poucos metros da praça Luis de Camões, no final de janeiro. Risonho e provocador, ele não se esquiva de criticar os "ortodoxos" do fado. "A ideia que eu tenho é que talvez tivessem pensado que a minha ideia era desvirtuar o que já tinha sido feito há 50, 60 anos atrás em Portugal".

[ENTREVISTA]

Terra Magazine - Nos seus últimos discos, você tem dialogado com a música brasileira, trazendo-a, incorporando-a à tradição do fado...
António Zambujo - Mais ou menos as duas coisas. Para lá e para cá.

Como surgiu essa ideia de aproximar as duas tradições?
Sempre fui muito influenciado pela música brasileira. Aliás, se vocês forem ver os meus discos e os meus filmes, tem muitas coisas. O documentário do Vinicius, um monte de DVDs do Chico (Buarque), concertos do (Gilberto) Gil... Apaixonei-me pela música brasileira a primeira vez que ouvi o João Gilberto. Quando ouvi João Gilberto, tive vontade de conhecer toda a origem, até um pouco antes da Bossa Nova, os movimentos que a sucederam, a música que vinha lá atrás, com Orlando Silva, Pixinguinha, Cartola, Adoniran Barbosa. Uma série de compositores que eu tive curiosidade de conhecer. A partir daí, fui descobrindo. E tem muitos discos de músicos atuais, que fizeram uma série de discos retrospectivos, com novas orquestrações. Me lembro de um disco que eu gostei imenso, de Zé Renato, com orquestrações do Wagner Tiso, que se chamava "Memorial". Tocaram muitas músicas antigas...

Zé Renato se vinculou também ao repertório de Cartola.
Sim, e tinha Cândido das Neves, do princípio do choro, Pixinguinha... A partir daí fui me interessando. E descobri uma coisa. O português, hoje em dia, se nós ouvirmos um disco brasileiro, percebe-se que existe uma diferença maior entre as línguas. Ou seja, para cantar uma coisa de um compositor com que tenho compartilhado coisas, ultimamente - o Ivan Lins, o Rodrigo Maranhão, o Marcelo Camelo, o Pedro Luis - algumas letras que eles me mandam têm que ser feitas algumas retificações, para que seja possível serem cantadas em português de Portugal.

Como assim?
Vocês dizem: "Me leve". Nós dizemos: "Leve-me". Alguns acertos gramaticais, que no vosso caso ficam corretos, mas em Portugal ficam um pouco estranho, pois não temos o hábito de dizer. Em algumas frases fará sentido, mas em geral não dizemos. São pequenas alterações que precisam ser feitas. Mas, as músicas dessa altura (de décadas atrás), serem cantadas no português do Brasil ou português de Portugal, ficam exatamente iguais. Utilizam um português mais arcaico, mais obsoleto, que não se diz mais nem lá nem cá, mas que fazem sentido na música. Daí eu comecei a ter vontade de recriar algumas dessas coisas.

Você se aproximou muito de Vinicius de Moraes. Ele tem algo em comum com a cultura portuguesa, que é uma alma lírica mais aguçada. O Brasil teve um movimento modernista que praticamente reprimiu o lirismo.
Mas tem outros artistas que, ao menos, tentam aproximar-se dessa forma de escrita. O Vinicius é assumidamente influenciado pelo Fernando Pessoa, por Camões, ou seja, fica mais fácil. Há uma música que eu toquei no último disco, o "Apelo". Se calhar, ele conseguiu fazer um fado tradicional, porque depois tirei a música original do Baden Powell daquela letra e colocamos na estrutura de um fado tradicional. Musicamos e encaixa à perfeição. Portanto, ele conseguiu fazer coisas inacreditáveis, com quase tudo que fez. Era inevitável para mim aproximar-me do Vinicius. Aproximar-me da música brasileira e não me aproximar de Vinicius seria impossível.

Sua relação com a Bossa Nova é bastante destacada quando avaliam seus discos...
O João Gilberto... Nem é preciso explicar mais. Eu tento seguir uma estética musical que vem desde o tempo do Chet Baker, desde aqueles cantores...

Do cool.
O cool jazz. A Bossa Nova acaba sendo um cool choro... O que eu faço, eventualmente, será um cool fado. Sempre foi essa linha que me influenciou enquanto cantor. Depois do Chet Baker, veio o João Gilberto, o Caetano Veloso, mais tarde comecei a me interessar mais por jazz e pela música anglo-saxônica. A época dos crooners, o Frank Sinatra, o Tony Benett, Bing Crosby, Nat King Cole. Tudo isso acaba por influenciar muito a música que eu faço, mas interesso-me muito mais pela música cantada em português no Brasil e na África. Sou apaixonado pelas mornas de Cabo Verde.

Em Portugal, como seus discos foram recebidos? Porque você faz um fado muito diferente do que é feito. Houve resistência?
No princípio houve um pouco. Eu acho que houve uma certa resistência porque os ortodoxos do fado devem ter julgado... Não sei o que eles pensaram. Porque eu fiz o meu primeiro disco com fados tradicionais. Ou seja, ainda sem essas influências. Foi um disco bem aceito aqui no mercado interno, mas é um disco que nem sequer foi vendido para fora de Portugal. Internamente, foi muito bem aceito. As críticas foram muito boas e a expectativa para o segundo disco era alta. Só que na altura eu conheci o Chet Baker e conheci o João Gilberto, e o disco já nasceu completamente diferente do que as pessoas esperavam. Foi um choque porque foi um corte radical. O primeiro disco saiu em 2002 e o segundo disco em 2004, já completamente diferente. A ideia que eu tenho é que talvez tivessem pensado que a minha ideia era desvirtuar o que já tinha sido feito há 50, 60 anos atrás em Portugal. E no Brasil acontece muito isso. Vocês falam que são um país muito moderno, mas eu sei o que às vezes acontece quando alguém quer fazer alguma coisa diferente.

João Gilberto mesmo. Até hoje é atacado.
Como acontece com Caetano Veloso, com os últimos discos. Caetano fez o "Cê"... É por isso que o admiro. Caetano sabe que as pessoas gostam de ver um show voz e violão, aquelas coisas, mas eu acho que o artista tem que se autodesafiar de vez em quando, tem que fazer coisas novas.

Em Lisboa, o circuito do fado é purista?
Existe um circuito do fado ortodoxo e existe um circuito do fado, como poderíamos chamar?, pós-modernista. Não sei se será a palavra certa, mas vanguardista sim. Nesse circuito existe uma cantora muito interessante, que se chama Cristina Branco. Não sei se vocês conhecem...

Já se apresentou no Teatro Castro Alves, em Salvador, anos atrás. Fez um show excelente.
Ela faz umas coisas diferentes, com outras influências. Tem muita influência do Brasil, mas também da música do centro da Europa.

E da Amália Rodrigues, no início, não?
Um pouco também. A própria Amália, nos anos 70... Veja o ridículo do país que nós vivíamos na altura, durante a ditadura. Veio um compositor francês para fazer músicas para Amália e que foi determinante para a carreira dela, Alain Oulmain. Influenciou. O fado, inicialmente, é escrito por poetas populares. Não é nada de erudito. É feito por poetas populares que falam da realidade exclusiva de Lisboa, falam da realidade dos bairros típicos, dos personagens como a mulher que vendia o peixe, o ardina que vendia jornais na rua, o cauteleiro que vendia cautela (bilhete de loteria). Era isso. Então, Amália aparece cantando poetas eruditos.

Alexandre O'Neill...
Camões, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Melo, a vossa Cecília Meireles...

E fez um disco com Vinicius.
Com Vinicius. Nessa altura, foi um escândalo em Portugal, porque diziam que cantar Camões, Fernando Pessoa e outros poetas eruditos, era um atentado à cultura de um País.

Um atentado a essa tradição literária ou ao fado?
À tradição literária. Para os poetas eruditos, o fado era considerado uma música inferior, onde era impensável e impossível pôr esses poetas eruditos numa música tão reles.

E foi também o caso de Vinicius de Moraes, que, aos olhos de muitos, se apequenou porque foi para a música popular.
Exato. Quando ele começou, era considerado um poeta erudito de grande potencial, e depois não. A história do Vinicius está no documentário. Ele recebe influência erudita do pai e popular da mãe. Então, ele sempre andou ali meio no limbo. Optou pelo que gostaria de fazer. Aqui em Portugal é assim também. E é cíclico. Sempre que alguém tenta mexer em alguma coisa que está bem aceita, há sempre reação.



Do seu primeiro disco para o último, seu modo de cantar muda bastante.
Completamente. O primeiro disco ("O mesmo fado"), salvo algumas exceções, é aquela vontade de fazer o primeiro disco, não interessa o que vai cantar. Quero ter um registro. Tem medo de morrer e não ficar nada registrado! Então, tem que fazer um disco. Foi mais ou menos assim que aconteceu. Eu estava junto de alguns poetas populares, que escreveram poemas, os músicos com quem tocava foram para o estúdio. Ou seja, foi um disco pouco criterioso. Um disco não é nada mais que isso. É um registro do momento. Aquilo era o meu momento. Em 2004 já era um momento completamente diferente. E agora o último disco, que vai sair em abril. É o registro deste momento. Daqui a um ano ou dois, quando fizer o próximo disco, se calhar já será diferente. Nunca se sabe.

Sai um disco seu agora em abril?
Sim.

Você pode adiantar o repertório?
Os autores, eu normalmente gosto de ter alguma estabilidade no processo criativo. Desde o "Outro sentido", quando comecei a ter uma ligação maior com o Brasil e outros países lusófonos, comecei a conhecer pessoas que me interessavam. No caso do Brasil, o Pedro Luís, o Rodrigo Maranhão, o Marcelo Camelo, o Zé Renato, o Ivan Lins, o Moreno Veloso, a Roberta Sá, a Vanessa da Matta...

Marcelo Camelo outro dia disse que tinha vontade de morar aqui em Lisboa.
(ri) Nesta casa, quem morou antes de eu vir para cá foi o irmão dele, o Thiago (Camelo). Recebeu uma bolsa para escrever um romance em Lisboa. Morou aqui durante quatro ou cinco meses.

Qual foi seu percurso? Você saiu com quantos anos de sua cidade?
Eu saí muito tarde. Morei no Alentejo, em Beja concretamente, desde que nasci até o ano 2000. Vim para Lisboa com 25 anos. Beja tem conservatório, fiz o conservatório lá, fiz os estudos lá e quando vim para Lisboa já estava preparado para entrar no mercado. Vim para Lisboa porque recebi um convite para participar do elenco de uma peça de teatro, que foi preparada sobre a vida de Amália Rodrigues. Convidaram para uma audição. Eu vim, cantei, depois me convidaram para ficar. Tive que permanecer definitivamente em Lisboa. Fui para o teatro, fui conhecendo a realidade dessas casas de fado, as pessoas do meio fadista, essas coisas assim. Fui me dando conhecer, porque ninguém tinha ouvido falar de mim. Pouco tempo depois surgiu o convite para preparar o tal primeiro disco, que foi gravado durante 2001 e foi lançado em 2002. Foi assim. A peça durou até 2004.

Quantos anos em cartaz?
Quatro anos.

E você, permanentemente nela?
Eu não estive durante... Eles fizeram uma pequena digressão pelo centro da Europa, França, Bélgica, Luxemburgo, Suíça, para apresentar à comunidade portuguesa desses países. Nessa altura eu não fui porque coincidiu com o lançamento do meu disco cá. Foi uma peça de teatro que bateu todos os recordes, com o maior número de apresentações, mais de mil apresentações...

Com que frequência?
De terça a domingo, num teatro com 700 lugares. O Teatro Politeama.

No Brasil se fala muito de um reflorescimento do fado, de um momento bom, que rejuvenesceu e tem novos artistas como você. Quando você começou, como andava o fado? Vivia um momento bom?
Estava a começar esse movimento. Já existiam alguns indícios de que alguma coisa iria acontecer. Lisboa foi a capital europeia da cultura em 1994. E já foi dada uma grande relevância ao fado, já com novos intérpretes. Foi quando apareceu Mísia, Camené, Mafalda Arnaulth... Foram os primeiros que começaram a surgir dessa geração. Camené é um pouco mais velho, mas em 1994 começou também a aparecer com mais destaque. Em 2000, aparece a Marisa. Aí muda tudo. Eu acho que ela não gravou em 2000, mas começou a aparecer em 2000 e as pessoas começaram a perceber que era uma coisa diferente, que seria uma coisa com muito peso na história do fado. A Marisa começou a aparecer a conta-gotas. E começaram a aparecer pessoas interessantes. A Ana Moura, uma cantora que eu gosto muito, a Cristina Branco também... Eu, apesar de ter um primeiro disco, a essa altura, não considero que tenha alguma relevância. As coisas começam a ter importância a partir do momento que começam a ser conquistado dos tais puristas e ortodoxos. Só aí que o resto do público começa a querer prestar atenção à música que nós fazíamos. Para além desses todos, começa a aparecer uma série de gente, uns a agradar os tais ortodoxos, outros a agradar aos vanguardistas.

"Seu momento" acontece a partir de "Outro sentido"?
Acho que a afirmação é sim. Apesar de o anterior, "Por meu cante", já começava a ter algumas coisas interessantes. "Outro sentido" foi o que definiu mais, foi o que marcou mais o meu momento de fazer concertos em teatros grandes, de fazer turnês internacionais, essas coisas todas.

E sua presença se aprofunda aí?
Nessa altura. Por uma série de fatores que ajudaram bastante. Por exemplo, eu estava a tocar numa casa de fados, Sr. Vinho, onde começavam a surgir algumas pessoas que vinham do Brasil passar férias em Portugal e que no Brasil já tinham ouvido falar no Zambujo, queriam conhecer. Entre muitas dessas pessoas, apareceu a jornalista Marília Gabriela, que estava cá a apresentar uma peça de teatro e me ouviu lá no Sr. Vinho. Resolveu comprar alguns dos meus discos na Fnac e ofereceu a Caetano Veloso. E o Caetano Veloso escreveu uma crônica, num blog (Obra em Progresso), que foi vista logo por muita gente. O produtor que nos representa lá no Brasil, João Mario Linhares, veio cá com Roberta Sá apresentar o disco dela. Foram lá ao Sr. Vinho, ouviram meu disco também. Ele quis logo editar esse disco no Brasil, quis que eu fosse apresentar o disco. Nosso primeiro concerto foi no espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico. Em 2008. A essa altura, já tinha saído isso do Caetano, depois chegamos ao Brasil e fomos convidados a participar do programa do Jô. Depois, a seguir, fui dar um beijo na boca da Hebe Camargo... (risos)

Um selinho...
Depois eu fui a Marília Gabriela, onde fizemos uma coisa muito interessante, onde eu conheci a Vanessa da Matta, que estava a participar desse programa. Tudo aconteceu nessa altura. Quando eu chego ao Rio de Janeiro, apesar de nunca ter tocado lá, percebi que já havia muita gente que me conhecia. No meu concerto no Rio de Janeiro, estavam assistindo João Bosco, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Roberta Sá participou, tocou Yamandu Costa conosco, o Trio Madeira Brasil... Ou seja, foi uma coisa assim que nem nós esperávamos que pudesse acontecer. A partir daí as coisas começaram a surgir. Depois tocamos em São Paulo, no Bourbon Street, um espaço de jazz. Sempre duas vezes por ano tiramos uma temporada para ir ao Brasil.

Nesse disco que você lançará em abril, qual vai ser a linha? Você vai se aprofundar no que já vem fazendo?
Um pouco. Vão participar todos os autores que gravamos no "Guia", mas não vamos gravar Vinicius desta vez. O objetivo foi fazer mais temas originais. Então, dos brasileiros, tem uma do Rodrigo Maranhão, tem uma do Marcio Faraco, um compositor brasileiro que está morando na França...

Marcelo Camelo?
Não. Trocamos algumas músicas, mas isso ficou para outro projeto que nós temos.

Você pode falar mais um pouco sobre esse projeto ou é embrionário?
Isso foi mais ou menos falado. A ideia era criar a base de um projeto com três vozes e três violões. Seria eu, Marcelo e um músico português que também participa deste disco, é autor, Miguel Araújo Jorge. A ideia era fazer um projeto com temas originais nossos para apresentar num formato diferente daquele que eu tenho, que o Miguel tem... Miguel está numa fase de transição, tem uma banda de pop/rock. Seria um concerto acústico com os três. Isso é interessante. Em função de nossas disponibilidades, nós vamos preparando com calma. Já temos o suficiente para gravar um disco, é só arranjar um tempinho para entrar no estúdio.

Essas trocas aconteceram como? Pela internet? Como você conheceu o Camelo?
Eu já era fã dele. O disco dele "Sou" foi muito importante na altura que nós gravamos o "Outro sentido", o "Guia". O "Sou" era um disco que eu tinha muito na cabeça, que eu adorava. E adoro. Depois, quando eu estava no Brasil, soube que o Marcelo Camelo me conhecia, já tinha ouvido minha música. E ele foi ouvir o primeiro concerto em São Paulo, no Bourbon. Conversamos, trocamos ideias. Nos encontramos no Rio de Janeiro e agora aqui em Lisboa. A ideia é aprofundar essa relação, já que existe uma admiração mútua. É colocá-la em concerto e ao vivo.

Como você pesquisa a música brasileira? Quais são os caminhos?
Olha, eu compro muito disco e, cada vez que vou ao Brasil... Vocês tem uma coisa que é muito interessante. Quando eu termino um concerto no Rio de Janeiro ou em São Paulo, mais no Rio, quando eu vou voltar para o hotel já não tenho espaço para guardar tanto disco! Porque os músicos que vão ao concerto me oferecem os discos! (risos) Aí eu conheci coisas muito interessantes. Por exemplo, agora eu participei do disco de um músico brasileiro, André Mehmari. Foi assim que nos conhecemos. Ele foi a um concerto meu, deu-me um disco dele com Hamilton de Holanda. Depois ele disse que gostaria que eu cantasse no disco dele, é uma música também que eu toco com Hamilton de Holanda. Wagner Tiso, eu também conheci no final de um show. Jaques Morelenbaum, José Miguel Wisnik... E sempre acontece isso: "Aqui o meu disco...". E tem pessoas amigas, o Moreno, o Marcelo, uma série de músicos que vez em quando me mandam um link: "Você vai gostar disso".

 
O fadista António Zambujo acredita que o conceito de "álbum" não vai acabar: "Gosto de imaginar um disco como um todo. Não gosto de imaginar faixa a faixa. Uma disco é um conjunto de músicas. Faz sentido naquela ordem, existe uma razão para isso".

Você falou de seus álbuns, dos conceitos dos seus álbuns, mas no Brasil existe uma discussão sobre a desconstrução desssa ideia, com a possibilidade de você baixar as músicas pela internet. Isso lhe afeta?
Eu, ultimamente, é só o que faço. Eu baixo, comprando, como é óbvio, principalmente no iTunes. Comecei a comprar. Já é difícil comprar aqui em Portugal. As lojas já não se oferecem como uma alternativa, porque se tu quiseres um disco de uma coisa diferente é difícil de comprar. Só existe a Fnac, é verdade. É a única loja com relevância. Mas, se você vai à Fnac e voltar seis meses depois, a seção de discos é cada vez mais pequena, mais pequena.

E acabou aquela tradição de o vendedor conhecer o produto, indicar...
Estás a falar daquela lojinha de bairro, pequena e tal? Não há mesmo. Na Fnac eles sabem do que nós falamos. Se você for à Fnac falar de uma cantora que você pensa que eles nunca ouviram falar, uma cantora que cantou num festival de World Music na Suécia... É impossível encontrar. A única hipótese é o iTunes. É o que tenho feito.

Mas essa situação afeta o modo de você conceber seu trabalho?
Não.

Você continua acreditando no formato do álbum?
Mesmo no iTunes o disco está lá todo pra vender. Normalmente é raro você comprar uma música individual. O disco tem um conceito estético. É claro que destaca-se uma música ou outra, mas o disco destaca-se pelo seu todo. É como você comprar um quadro e só comprar um canto do quadro. Ou como se você comprasse um filme e só tivesse um extra. Um disco são as músicas todas. Pelo menos eu acho. As pessoas de quem eu gosto e compro os discos, os discos contam uma história, faz sentido a faixa 3 estar no número 3, porque vem depois da 2, antes da 4. Faz sentido ali. Existe uma sequência lógica. Se comprares a música individual, a música pode ser muito boa, mas não terá tanto força...

Ela sai de um conceito?
Eu acho que sim.

Gilberto Gil tem uma posição bem diferente dessa sua e de outros músicos. Ele acha que os garotos, na hora da audição, não estão mais ligados na ordem do disco ou no conceito do álbum, eles vão ouvindo numa sequência que não é mais a do autor. Esse modelo de álbum...
Ah, eu acho que nunca vai acabar. Nesse aspecto, é como eu te digo: como ouvinte, gosto de ouvir o disco, não gosto de uma música como nas tais coletâneas. E, como músico, gosto de imaginar um disco como um todo. Não gosto de imaginar faixa a faixa. Uma disco é um conjunto de músicas. Faz sentido naquela ordem, existe uma razão para isso. Não sei. Também pode ser por uma ignorância minha. Não estou muito a par do que as outras pessoas fazem, por que elas fazem... Temos ali uma ouvinte de música e podemos perguntar: Raquel, você compra um disco e ouves o disco todo, ou não te importa ouvir faixa a faixa? ("No iTunes?", pergunta Raquel). Sim. ("Posso comprar só aquelas que gosto", responde). (risos) Sou eu que estou errado! (risos) Eu gosto assim, não gosto de imaginar faixa a faixa.

Para o criador, é muito difícil aceitar que a concepção da obra, enfeixada num disco, não é mais vista como tal?
Quer dizer, nós temos que nos adaptar. Se as exigências do mercado forem essas, tem que existir um período de adaptação e, nessa altura, tem que se pensar de outra forma. Não sei. Não me imagino a fazer isso. Sinceramente. Mas, eventualmente, num futuro próximo, as coisas mudam muito. Como a música. A minha música há dez anos atrás era completamente diferente da que faço hoje. Não faço idéia.

António, aquela música "Em quatro Luas" é uma composição sua...
É.

No novo disco, vai ter composição sua?
Umas três inéditas. Poemas do João Monge, Maria do Rosário Pedreira...

E letras, você nunca fez?
Nunca fiz. Talvez por ter parceiros tão bons, nunca senti necessidade de me esforçar para tentar fazer o que quer que seja. O que fazem pra mim é sempre muito bom. É difícil eu fazer melhor que eles.

É uma tradição do fado? De que os poetas e os grandes intérpretes não são a mesma pessoa?
Em algumas canções, tem sim. Mas, em regra geral, quem canta não escreve. E vice-versa. Eu gosto de fazer música.

Como você vê a evolução das relações culturais entre Brasil e Portugal? A impressão que a gente tem, no Brasil, é que o jornalismo e as pessoas de uma maneira geral não acompanham a cultura portuguesa com muita frequência.
É natural, eu acho natural.

Por quê?
Vocês tem tanta coisa pra se preocupar lá! (risos) Tem tanta música, tem tantos músicos... O Brasil tem tudo, a maior parte da música de lá é de boa qualidade. E é natural que o mercado esteja mais virado pra dentro e seja difícil conseguir entrar lá.

Mas não é estranho que a língua portuguesa não integre tanto o mundo lusófono?
Eu estranho um pouco...

Talvez não seja o seu caso, ultimamente.
Sim, no meu caso tem existido uma aproximação e é cada vez maior. Em 2012 temos o ano de Portugal no Brasil. Já estão preparados eventos, as coisas ainda estão muito vagas, não sei o que vai acontecer, mas sei que vai acontecer qualquer coisa já. O que tem que se fazer para que isso resulte em aproximação pela língua e pela cultura é nos tocarmos lá e os de lá tocarem cá.

Mas, da parte de Portugal, há mais interesse pelo Brasil.
(Sinaliza, indicando que não é bem assim).

Mais ou menos?
Mais ou menos. Quem é que vem a Portugal e enche salas? À exceção daquela horrível, aquela música "assim você me pega"...

"Ai se eu te pego!".
Vai fazer concerto aqui, está em primeiro lugar nas vendas. É uma loucura! Porque Cristiano Ronaldo dançou aí num jogo de futebol... Mas, tirando essas exceções, em Portugal, seguro de casa cheia é Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gilberto Gil.

E Maria Bethânia.
Bethânia também. Gal (Costa), Simone... Mas são os consagrados. Por exemplo, o Marcelo Camelo, que é um músico incrível, sei que muita gente adora, tocou aqui em Lisboa para uma sala de 200 pessoas. Ou seja, ainda são nichos no mercado. São coisas muito pequenas. É um número de público muito reduzido que vai aos concertos. Tirando os consagrados... É incomparavelmente mais caro do que lá (no Brasil).

E é uma aproximação mais da cultura de massa, das telenovelas?
É muito isso, as músicas que passam na novela, alguns artistas que atingem uma notoriedade por algum motivo. Por exemplo, a Maria Gadú fez esse disco com Caetano e já vai fazer show em algumas salas com dimensão. Ela vendeu bastante cá. Vanessa da Matta tem bastante público em Portugal desde aquele dueto com Ben Harper...

Chato aquilo, né? (risos)
São pequenas exceções. No geral, se você vai fazer o circuito no Bairro Alto, em algumas salas, tem músicos brasileiros a tocar. Certeza absoluta.

Mesmo o fado, em suas diferentes ramificações, tem diferentes tipos de público. O fado tradicional tem penetração entre o público jovem?
Agora já vai tendo, sabe? Imagina, no caso da Marisa, da Cristina Branco... O disco de Marisa de maior sucesso aqui em Portugal é o disco que ela fez com Jaques Morelenbaum, o "Transparente", que é um disco incrível. Nessa altura ela fez um concerto cá. Um grande concerto. Um concerto de fado para 40 mil pessoas, junto à Torre de Belém, nos jardins dali. Eu acho que a partir dali... Apesar de não ser tradicional, as pessoas ouvem e dizem: "Isso é interessante, como será o tradicional?". E sentem vontade de ouvir. Camené é um fadista tradicional, tem um imenso público, já enche o Coliseu. Carminho é uma fadista tradicional e já enche o Coliseu. Ela tem um timbre assim rouco...

Ela canta com muita paixão, né?
O Ricardo Ribeiro, já ouviste? Fisicamente, e com a voz, é muito parecido com... Como se chama aquele cantor brasileiro? Enorme...

Tim Maia?
Tim Maia! (risos) Tem um vozeirão incrível.


E as cantoras de fado? Quais as que você ouve e que estão próximas de seu trabalho?
Próximas não estão, mas eu gosto muito dos projetos da Cristina Branco, da Ana Moura, da Carminho e, depois, gosto muito do Camané e do Ricardo Ribeiro. São os cinco que eu gosto mais de ouvir. E que eu acho que têm os projetos mais interessantes.

Numa tasca em Alfama, tinha a Carminho e outras cantoras de fado, super-desimpedidas, cantando ali... É "Fado da Bela", uma casa de dois anos. Uma coisa improvisada. Carminho parecia como qualquer outra cantora que estava ali. Não tem uma rigidez. Ainda há muita liberdade desse universo do fado, não?
Começou a ser criado esse universo paralelo das casas, alternativo, para escutar fado. Porque antigamente tudo era resumido às casas de fado. E, hoje em dia, as casas de fado não têm qualidade artística. Como posso explicar isso, de maneira que os puristas do fado não... (risos) Quem canta nas casas de fado são fadistas já velhos, que veem aquilo como um trabalho - e uma arte não pode nunca ser pensada como um trabalho, aí começa errado - e depois as casas de fado querem manter...

Um folclore?
Um folclore, que é de uma decadência horrível. Mas querem manter um glamour que existia nos anos sessenta. Esse glamour, hoje, parece decadente. Já não faz sentido você ficar num restaurante fino a ouvir fados com um empregado de gravata. É tudo muito caro. Tu pagas muito caro. Se queres ir a uma casa de fado, aqui no Bairro Alto, regra geral, pois há sempre exceções à regra... Se eu sair de minha casa agora para ir a uma casa de fado, não saio de lá satisfeito. Ouves má música, músicos maus e com pouca vontade de tocar. Ouves fadistas maus e com pouca vontade de cantar. Tens um mau serviço de restaurante. E, no final, paga cento e tais euros por cada refeição. Ou seja, é tudo muito caro e o serviço não é bom. Há exceções! Há casas de fado muito boas, com bom elenco que se renova. Por exemplo, o Clube do Fado, em Alfama, uma casa em que pagas caro, mas que tem qualidade. "Sr. Vinho" também... Agora já não tem mais tanta qualidade, porque não estou lá a cantar! (risos) São casas que fazem questão de ter uma certa qualidade artística e também como restaurante, com uma boa cozinha.

Essa geração que renovou o fado nasceu desse outro movimento, de fado vadio?
Na verdade, quando eu vim para Lisboa, o sítio que eu ia mais vezes era uma casa desse gênero: o Bacalhau de Molho. Era assim. Os fadistas mais novos, da minha idade, que já cantavam em casas de fado tradicionais, quando terminavam de cantar nessas casas tradicionais, iam lá e lá então eles se divertiam, bebiam, conversavam... Aprendia-se muito da história dos fados tradicionais. Foi nesse ambiente que comecei a tocar no violão os fados, porque via como é que eles tocavam. E havia disponibilidade deles para ensinar.

Você vê isso como uma geração? É algo fechado? Você se integra a uma geração?
Eu acho que é um trabalho individual que, no fim, todos sairão a ganhar com isso. Mas não existe, acho eu, um trabalho de equipe, pensado...

Um movimento?
Não existe um movimento, uma Tropicália. Não existe nada disso. O que existe, sim, é uma série de pessoas que, com muita qualidade musical, cada um vai criando o seu público... Se calhar, quando o público ouve a mim, vai se interessar por Camené, Ricardo Ribeiro, Ana Moura, Carminho... E vice-versa. Os públicos vão se cruzando. É claro que há coisas pontuais que vão surgindo. Nas festas de Lisboa, vou cantar com Ana Moura ou com Carminho, vamos fazer concertos juntos e com Milton Nascimento, no final de junho. As festas de Lisboa são no mês de junho. Vamos fazer o concerto do encerramento.

Tem a ver com o São João, como no Brasil?
Em Lisboa é Santo Antonio. O dia de Santo Antônio é 13 de junho. São Pedro é 27. Mas tem, tem a ver com os santos de Portugal... Vai ter muitas festividade, concertos no Castelo São Jorge, shows no Museu do Fado, arraiais para as pessoas dançarem em vários sitios, principalmente nos bairros típicos.

A Amália, durante muito tempo, ajudou a afirmar o fado mundialmente. Mas, durante décadas, ela não projetou uma sombra sobre os novos fadistas?
Confesso que não sei. Mas a ideia que eu tenho, coincidência ou não, a Amália funcionava um pouco como eucalipto. Ela estava lá enquanto tudo à volta secava. Acho que não é propositado. Acho que isso, de fato, aconteceu, mas só aconteceu porque Amália tinha uma dimensão fora do comum. Nem sei se existe alguma coisa que se possa comparar no mundo. Porque ela tinha uma qualidade artística. Ela cantava e escrevia os poemas, fazias músicas, fazia tudo. Não fazia tudo em todos os discos. Mais pro fim da vida, até fez um disco só com os poemas dela.

Ela era aberta aos outros fadistas? Fazia saraus...
Era mais com poetas. Há um disco gravado dela com Vinicius. Com David Mourão-Ferreira, Ary dos Santos... Tenho esse disco aí.

Vinicius gravou nele o "Poema dos olhos da amada", que você regravou.
Nesse disco ele gravou uma música feita para Amália, "Saudades do Brasil em Portugal".

Linda música. Vinicius diz numa das gravações que o português precisava tirar a gravata...
Eu adoro isso! Eu adoro ele dizer isso! Ele disse em 1969. Nós estamos em 2012 e, não digo todos, mas 70% dos portugueses ainda estão com a gravata apertada! (risos)

Em Portugal, só se fala em crise econômica. Nas TVs, nas ruas, nos jornais... Você acompanha essas questões políticas?
Claro que, como cidadão, me interesso. O que sei é através dos jornais e do que vejo na televisão, nas notícias. O que está a acontecer, hoje em dia, é claro que a culpa é de quem gere. Mas, neste momento, não há nada a fazer, não adianta culpar quem lá está, porque as medidas são inevitáveis. Portugal tem aquela coisa: desde o 25 de abril, apesar de existirem outros partidos, parece que o poder é bola de ping-pong: quatro anos no PSD, quatro anos no PS, quatro anos no PSD... É assim o tempo todo. Eu acho que as coisas precisam ter tempo para amadurecer. O que esse governo está a fazer, qualquer governo que lá estivesse, fosse o PS, a esquerda, a extrema esquerda, a extrema direita, teria que tomar essas medidas. São erros do passado. Erros graves.
Foi um deslumbramento grande quando Portugal entrou para a União Europeia e começou a receber aqueles subsídios todos. Achavam que recebiam esses subsídios e não precisavam trabalhar para produzir. Mas o dinheiro acaba. É o que está a acontecer agora. Há o endividamento das famílias, há uma série de fatores. Estava aqui a ver a greve dos transportes públicos... Não é esta a solução. Em vez de as pessoas estarem sempre a responsabilizar o poder, nós é que temos que assumir nossa responsabilidade individual. Os fadistas trabalham individualmente, mas, no fim, acaba sendo igual para todos, porque todos tentam durar em termos de qualidade. Isso faz com que o público se interesse mais. Cada um tem que assumir a sua responsabilidade e tentar produzir um pouco mais, tentar fazer um pouco mais, tentar fazer com que o País enriqueça. É esta a solução.

Literariamente, do que você se nutre para seu trabalho? Lê poesia, romance?
Eu leio muita coisa. Sei lá. O último livro que eu li foi o "Milagrário Pessoal", de José Eduardo Agualusa. Leio muita coisa, não tenho assim autores de eleição. Gosto muito de ler poesia, não só poetas de língua portuguesa, mas também Pablo Neruda, coisas assim.

Você chegou primeiro ao Vinicius da poesia ou da música?
Logo na altura em que conheci o Vinicius, alguém me ofereceu, ou eu comprei, já não lembro, um livro de crônicas dele, "Para viver um grande amor". Esse foi o primeiro contato mais intenso com Vinicius. A música, eu já conhecia. Já conhecia o João Gilberto, o "Chega de Saudade", aquelas coisas todas. Como escritor, foi esse livro. Depois, o Chico Buarque, gostei muito de "Budapeste". Enfim, literatura é o que vai surgindo, vou lendo. Em Portugal, há uma voga de autores novos: Pedro Paixão, que eu gosto imenso, Gonçalo M. Tavares, valter hugo mãe, Pedro Mexia, Maria do Rosário Pedreira, que escreve também poemas para eu cantar, o Agualusa, o Mia Couto... É um pouco por aí.

Para finalizar, uma informação a mais: qual o nome do disco novo?
Quinto.

Por causa do Quinto Império?
Não, não! (risos) É "Quinto" só. Por uma série de coisas. Tocamos em quinteto, é o meu quinto disco e... Como eu sou António, não sei como funciona lá, mas na escola nós todos temos uma numeração. Eu, por ser Antonio, estava sempre ali no número cinco (risos). Quintilhas é uma forma poética que não é usual, mas, por coincidência, a maior parte dos poetas me mandaram quintilhas. Foi assim pensado e decidiu-se ficar como "Quinto". Também por uma falta de paciência para imaginar nomes para o disco!

O resultado ficou bacana?
Sim, acho que está muito interessante. É um disco com muitos temas originais.

Os fadistas novos estão com essa preocupação de lançar novos compositores?
Sim. Agora sim. De algum tempo pra cá não tanto. Mas, nos últimos três anos, tem acontecido isso. Inclusive os autores têm se aproximado dos fadistas para fazer. O José Luis Peixoto, o valter hugo mãe, o Pedro Paixão... Sei lá, tanta gente. Existe esse interesse em colaborar com a música. O Agualusa escreveu para o meu disco, o "Guia", e escreveu para este. Há uma série de escritores com essa vontade.

* com Claudio Leal e Rodrigo Sombra, em Lisboa
publicado no Terra Magazine (1ª parte e 2ª parte) em 01.03.2012

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Sugestão de TV | "Choro é Samba!"

TV Brasil - 13.12.2011

Quarta-feira de Cinzas: para desabrandar do ritmo frenético da Avenida, proponho puxar uma cadeira, sentar na mesa do botequim e continuar no samba, mas com mais calma. Ficar no choro – porque choro é samba! –, na inspiração de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Pixinguinha, alguns dos grandes representantes desse género, criado no Brasil há mais de 130 anos. Ao contrário do que o nome sugere, o choro é alegre. Mais do que ritmo, é musica popular, instrumental, sofisticada e, acima de tudo, abusada de improvisos.
No vídeo, as honras da casa ficam por conta do francês de nascimento e carioca por convicção, Nicolas Krassik, e de Amélia Rabello, que carrega um sobrenome que é sinónimo de craques da música brasileira. Os dois cantam (e como!) e falam sobre o tema, no programa Samba na Garoa da TV Brasil. Delicioso!

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No Rio e em Salvador, o Carnaval não esquece centenário de Jorge Amado

Feito Jorge Ser Amado - Moraes Moreira

Este ano, a decoração do Carnaval no Pelourinho vai homenagear os 100 anos do escritor baiano Jorge Amado (que se celebra a 10 de Agosto), com particular realce para o seu primeiro romance, O país do Carnaval. Cerca de 200 peças, criadas pelo artista plástico Euro Pires, já começaram a colorir as ruas, palcos, praças e largos do mais antigo Centro Histórico do Brasil.
De acordo com o artista, a decoração foi elaborada procurando mostrar o lirismo criativo dos habitantes do País do Carnaval, através de personagens como mascarados, pierrots e travestidos. «Além de uma homenagem a Jorge Amado, essa decoração vem homenagear também aqueles importantes personagens que fazem a quadra e que são os foliões» explicou Euro Pires. «Buscaremos também traduzir essa alegria do povo baiano, principalmente durante o carnaval, em cores e formas».
Este ano, não haverão tapumes a encobrir a fachada da Casa Jorge Amado, localizada no Largo do Pelourinho, junto da qual foi montado o palco principal destinado a abrigar os grandes shows temáticos que se realizarão diariamente. A iniciativa faz parte da programação do Carnaval do Pelourinho, realizado pelo Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura (SecultBa) e do Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI).

Desfile da Imperatriz Leopoldinense leva Jorge Amado à Sapucaí

A escola de samba Imperatriz Leopoldinense, do Grupo Especial do Rio de Janeiro, pede passagem e mergulha no universo do escritor baiano Jorge Amado. Personagens como Gabriela, Perpétua e Dona Flor vão sair das páginas dos livros e ganhar vida na Marquês de Sapucaí, no Centro. A agremiação promete contar a vida de Jorge Amado em 82 minutos de desfile.
Do Pelourinho à lavagem do Bonfim. A verde e branca de Ramos vai levar para a Avenida alguns traços da Bahia, que o autor tanto cita em suas obras, no enredo "Jorge, Amado Jorge", do carnavalesco Max Lopes. Com oito títulos, o último conquistado em 2001 com o enredo "Cana-caiana, cana roxa, cana fita, cana preta, amarela, pernambuco… Quero vê descê o suco na pancada do ganzá!", a Imperatriz vai apostar em alegorias luxuosas e fantasias coloridas para chegar ao lugar mais alto do pódio.
Pelo terceiro ano seguido na verde e branca, o carnavalesco Max Lopes disse que o foco do desfile será a vida de Jorge Amado, desde a sua infância até a chegada dele ao Rio de Janeiro. Sem perder o luxo, uma de suas marcas no carnaval carioca, o carnavalesco afirmou que fará um desfile colorido, com enfoque na religiosidade e festas populares da Bahia.
“Há várias coisinhas que vão acontecer, essa parte do luxo realmente vai ter, mas o principal de tudo é o colorido que é exacerbado. Eu extrapolei um pouco na minha condição de mago das cores e venho com um desfile muito colorido, a alegria da comunidade, e o samba, que é muito carnavalizado e forte. Eu acho que são os requisitos principais”, disse o carnavalesco.
Terceira escola a desfilar no domingo (19), com previsão de entrada na Sapucaí entre 23h10 e 23h44, a Imperatriz vai levar sete carros alegóricos, 30 alas e 3,5 mil componentes para a Avenida. Sinônimo de beleza, glamour e classe do carnaval carioca, a rainha Luiza Brunet virá de baiana à frente da bateria comandada pelo mestre Márcio (Noca). A musa completará neste ano 17 anos de reinado na verde e branco.

O primeiro setor fará uma alusão aos orixás. foto de Rodrigo Vianna (Cf. galeria de imagens do barracão da escola AQUI)

Símbolo da escola virá no abre-alas

A coroa, símbolo da agremiação, virá prateada no abre-alas da escola, que vai falar sobre a religiosidade. De acordo com Max Lopes, o primeiro setor fará uma alusão aos orixás. A alegoria será acoplada e vai trazer uma grande escultura de Iemanjá, a rainha do mar, puxando a coroa de Oxalá, que, segundo o carnavalesco, é considerado o pai da Bahia.
“A gente começa o nosso desfile com a coroa de Oxalá, que é o símbolo da escola, no mar de Iemanjá. Então, já começamos com o branco total. Teremos ainda a parte religiosa de Jorge Amado, aonde ele foi eleito um dos Obás de Xangô. Então a gente faz uma homenagem a Obá, que ele era de Xangô, e à Mãe Menininha do Gantois”, explicou Max Lopes.
Uma das alegorias que prometem chamar a atenção é a que vai representar a lavagem do Bonfim. De acordo com o carnavalesco, o carro vai trazer uma réplica da igreja baiana e suas famosas escadarias. De alfazema e vassouras na mãos, componentes vão representar a tradicional festa. Max explicou que, desde pequeno, Jorge Amado participava da lavagem. A escola dará também destaque ao mercado da Bahia, que o escritor tanto citou em suas obras. “Ele se referia às frutas, às flores, ao que se vendia no mercado. E as baianas mexendo seus acarajés, suas comidas”, lembrou o carnavalesco. Em suma, o enredo vai servir para a escola vai levar para a Avenida vários ícones da Bahia, que o autor tanto cita em suas obras

Mistura de carnavais

O enredo também fará referência ao carnaval baiano e outros eventos populares no estado. A literatura estará representada em uma das alegorias. Segundo o carnavalesco Max Lopes, o carro vai trazer uma grande cama com as esculturas de Dona Flor e seus dois maridos, em menção à obra, e no alto, será possível ver a famosa cena de Gabriela subindo num telhado.
O papel de Gabriela ficará sob a responsabilidade da atriz Desirée Oliveira.
“A Desirré é perfeita para reviver memorável cena de Sônia Braga subindo de vestido em um telhado. Eu tento reunir neste carro as principais obras de Jorge Amada. Quincas Berro d’água, Capitães da Areia, Dona Flor, Gabriela, Tieta, entre outros, sem deixar de fora suas histórias infantis. Muita pouca gente sabe que Jorge Amado escreveu também sobre criança. Tenho certeza que vai emocionar”, contou Max Lopes.
Para encerrar o desfile, nada melhor do que um dos maiores símbolos baianos, o Pelourinho. A alegoria vai trazer as ladeiras e casarões num clima de comemoração. “Na Bahia tudo acaba em festa. Como um carnaval que fala da Bahia tudo acaba em festa. Então, grupos como o Ilê Aiyê, Oludum e Filhos de Gandhi, estarão na parte final desse desfile”, adiantou Max Lopes.
Max Lopes não quis dar detalhes sobre as fantasias do casal de mestre-sala e porta-bandeira Phelipe Lemos e Rafaela Teodoro. O samba-enredo "Jorge, Amado Jorge", de autoria de Jeferson Lima, Ribamar, Alexandre D'Mendes, Cristovão Luiz e Tuninho Professor, será mais uma vez interpretado por Dominguinhos do Estácio.


«Briguei pela boa causa, a do homem e a da grandeza, a do pão e a da liberdade, bati-me contra os preconceitos, ousei as práticas condenadas, percorri os caminhos proibidos, fui o oposto, o vice-versa, o não, me consumi, chorei e ri, sofri, amei, me diverti.»
Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)

Sinopse

Ave Bahia! Bahia sagrada!
1912. A lua prateada banha o céu de axé...
Eis a coroa de Oxalá, o Senhor da Bahia!
Venha nos proteger, meu Senhor do Bonfim!
Vem do mar a esperança... Litoral de magia... Iemanjá! Oferendas à rainha do mar!
“Ela é sereia, é a mãe-d’água, a dona do mar, Iemanjá”
Velas bailam ao som do vento baiano. Veleiros, canoinhas e jangadas, deixem-se levar.
“...cerca o peixe, bate o remo, puxa corda, colhe a rede
Canoeiro puxa rede do mar...”
Jorge, Amado Jorge... Eis aqui sua história, vida e memória!
Vai, criança baiana; descubra os segredos dessa terra.
Jorge conheceu fazendas, ruas, vielas,
Becos e guetos, tipos e jeitos.
- Quem quer flores? Frutas? – grita o vendedor.
- Olha o acarajé! – oferece a velha baiana.
Águas de Oxalá! Venha ver a Lavagem do Bonfim!
As letras lhe chegam num sopro. Um vento de liberdade em defesa do povo.

Ah... O Rio de Janeiro... Nova casa do rapaz escritor.
Graduado na vida e na universidade.
Na política, com o “coração vermelho”, se engajou.
É a vida na capital. Amigos, papos e mulheres...
Ah... As mulheres... Vida perfumada e sensual...
Bares e cabarés... Eis a malandragem, o primeiro livro: o “país do carnaval”.
Primeiros romances. Romances da guerreira e apimentada Bahia, sua eterna paixão.
O ciclo do cacau, grande inspiração.
Viver nas areias da história e sonhar em ser capitão.
Um ideal. O valor do homem. O reconhecimento da valente alma do povo.
Vivência e personagens se confundem. Verdadeiros baianos traduzidos nos folhetins.
Onde está a liberdade?
Essa é a “Bahia de todos os santos”, de toda gente! Gente brasileira.
Doce amor, doce flor. Amiga, companheira, parceira de letras e caminhadas
Que o segue fielmente pelo “sem fim” do mundo.
Retornar a sua origem... Os passos rumo à alvorada da literatura.
Rumo à consagração: premiado e Amado. De farda e fardão.
Busca no tempero de Gabriela os sabores da vida. O aroma da crônica do interior.
A brisa que balança as madeixas da morena embala palavras ao encontro de Dona Flor.
Tieta do “chão dos prazeres”, do agreste. Tereza Batista, “fonte de mel”.
Mulheres e “milagres” do Nordeste.
Jogue a rede, pescador! Traga do mar de memórias as palavras inspiradoras.
Hoje o capitão é Jorge Amado. Capitão de sua navegação. “Navegação de Cabotagem”.
Misticismo e miscigenação, a alma desse chão.
Que Exu nos permita caminhar! “Se for de paz, pode entrar.”
Okê Arô Oxossi! Salve todos os Orixás! Joga búzios, canta a reza!
Kaô kabesilê! Kaô meu pai Xangô! Jorge é obá no Ilê Axé Opô Afonjá!
Ora iê iê Oxum! Mãe de Mãe Menininha do Gantois, amiga na fé, axé!
É festa na ladeira do Pelô! É festa na Bahia! Fervilha a mestiça terra de Jorge!
A Magia dos Filhos de Ghandi... É energia do sangue nordestino...
Tocam atabaques e alabês. O Pelourinho estremece! Vem descendo o Ilê Aiyê!
É o tambor! É a força do ritmo! É o som do Olodum!
Venham, amigos queridos! Amada família do escritor, venha conosco cantar!
100 anos do nascimento de Jorge Amado... Comemora a Imperatriz Leopoldinense!
De alma e coração, vamos todos brindar ao mestre das letras!
Sentadas sob a sombra da copa de uma grande árvore, suas palavras vão para sempre descansar...
Jorge, Amado Jorge...
Muito obrigado!
Hoje, a ti canto e me declaro:
sou mais um gresilense apaixonado!

Carnavalesco: Max Lopes
Direção de Carnaval: Wagner Araújo
Texto e desenvolvimento: Max Lopes e Gabriel Haddad

Samba-enredo "Jorge, Amado Jorge"
 
Sou Imperatriz! Sou emoção!
Meu coração quer festejar!
Ao mestre escritor, um canto de amor
Jorge Amado, saravá!

Ave, Bahia sagrada!
Abençoada por Oxalá!
O mar, beijando a esperança,
Descansa nos braços de Iemanjá.
Menino Amado...
Destino bordado de inspiração.
Iluminado...
Vestiu palavras de fascinação.

Olha o acarajé! Quem vai querer?
Temperado no axé e dendê
Quem tem fé vai a pé... Vai, sim!
Abrir caminhos na lavagem do Bonfim

O vento soprou
As letras em liberdade.
Joga a rede, pescador!
O povo tem sede de felicidade.
A brisa a embalar
Histórias que falam de amor.
Memórias sob o lume do luar.
O doce perfume da flor.
Ê Bahia! Ê Bahia!
Dos santos, encantos, magia.
Kaô kabesilê! Ora iê iê Oxum!
Tem festa no Pelô.
Na ladeira, capoeira mata um.

# Para OUVIR AQUI

08:36 | Posted in , , , , , | Read More »

Eta, que vai ser bonito!...: "casal da Mangueira vai entrar no meio da bateria"


Este ano, a bateria da Mangueira promete surpreender novamente. Depois de levantar a Sapucaí no desfile de 2011 com uma superparadinha, os ritmistas da verde e rosa querem mais: eles vão parar de tocar durante uma passada inteira do samba-enredo. Mas a grande surpresa vem depois. O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Raphael e Marcella, vai entrar no meio da bateria, comandada pelo segundo ano por Mestre Aílton.
A ideia da direção da escola é transformar a Marquês de Sapucaí em um grande bloco de carnaval: tudo para homenagear os 50 anos de fundação do Cacique de Ramos, enredo da verde e rosa para 2012.
Para nada sair errado no dia do desfile, a fantasia da porta-bandeira Marcella foi feita com bastante antecedência. Tudo para a ser testada diversas vezes.

via Roda de Samba

18:49 | Posted in , , | Read More »

Da série: 'Hoje tem show!' | Show colectivo da Virada 2012


... Para quem perdeu e não assistiu: ainda vai em tempo de entrar Janeiro dançando ao som de Michel Teló, Fernando e Sorocaba, Daniel, Chitãozinho e Xororó, Cesar Menotti e Fabiano, Jorge e Mateus, Zezé di Camargo e Luciano, Revelação, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Zeca e Sombrinha, Asa de Águia, Claudia Leitte, Margareth Menezes, Tuca Fernandes, Preta Gil e Naldo, Wanessa, Capital Inicial, NX Zero e J Quest. Com a devida vénia à TV Globo, bem entendido!

21:53 | Posted in , , , , , | Read More »

Da série: 'Hoje tem show!' | Ivete Sangalo, Caetano Veloso & Gilberto Gil


Para ver na íntegra: o especial Ivete, Gil & Caetano, exibido nesta sexta-feira, 23 de Dezembro, pela Rede Globo. Com direcção de núcleo de Roberto Talma e roteiro de Rafael Dragaud, os três cantaram músicas que falavam do corpo, da alma, do amor e das dores da separação do universo feminino que inspirou Gil, Caetano, Chico Buarque e Herbert Vianna. Entre uma música e outra, cada um foi aproveitando para revelar curiosidades sobre a composição das canções.

21:29 | Posted in , , , , , | Read More »

Chico Buarque ao vivo, depois de cinco anos sem subir ao palco

Durante gravação do disco "Chico" (2011)
Longe dos palcos desde 2006, Chico Buarque anunciou nesta quinta-feira (13) sua primeira turnê desde então. A excursão, que começa em novembro, terá como ponto de partida o álbum "Chico", lançado em julho deste ano. O anúncio coloca um ponto final na dúvida que o cantor havia deixado sobre uma nova turnê, quando disse que pretendia se desligar da música por um tempo.
Com duração de aproximadamente 90 minutos, o repertório será construído ao redor das dez canções que compõem o disco novo. No total, serão 28 músicas ao vivo de todas as fases de sua carreira, do início dos anos 60 até hoje.
Capitaneado pelo maestro, arranjador e violonista Luiz Claudio Ramos, a banda que seguirá Chico na turnê é a mesma dos últimos dois shows: João Rebouças (piano), Bia Paes Leme (teclados e vocais), Wilson das Neves (bateria), Chico Batera (percussão), Jorge Helder (contrabaixo) e Marcelo Bernardes (flauta e sopros).
O cenário será composto, em momentos diferentes do show, por três grandes reproduções sobre tecido: um desenho de Oscar Niemeyer ("A Mulher Nua") e duas pinturas de Cândido Portinari ("O Bloco Carnavalesco" e "O Circo"), além de uma escultura móvel de uma Fita de Möbius, objeto topológico utilizado em estudos matemáticos. Os figurinos são inspirados nas cores de "O Circo" e a iluminação foi projetada para interagir com a cenografia e os músicos.
Embora tenha lançado mais de 40 discos em 45 anos, Chico Buarque é presença rara nos palcos brasileiros. Este será o sexto espetáculo apresentado por ele nos últimos 36 anos. Os anteriores foram "Chico e Bethânia" (1975), "Francisco" (1988), "Paratodos" (1994), "As Cidades" (1999) e "Carioca" (2006).
Em entrevista à revista Rolling Stone Brasil de Outubro, Chico falou sobre a expectativa a respeito de suas músicas ser sempre alta. "Eu não posso me deixar levar por isso. E não adianta você querer matar um leão por dia, porque as pessoas sempre vão dizer que o leão antigo era melhor e mais forte do que o de hoje [risos]. Mas não é isso que vai me estimular". "Existe uma pressão interna, sim, uma necessidade e um prazer grande em fazer uma música. Essa possibilidade de alternância é saudável, porque ninguém está esperando um disco novo meu daqui a um ano: nem eu, nem ninguém", arrebatou, acrescentando que, provavelmente, seu próximo lançamento será um livro.
Até o momento, cinco cidades estão confirmadas no roteiro:
- Belo Horizonte: de 5 a 8 de novembro, no Palácio das Artes;
- Porto Alegre: de 28 e 29 de novembro, no Teatro Sesi;
- Curitiba: de 15 a 18 de dezembro, no Teatro Guaíra;
- Rio de Janeiro: de 5 a 29 de janeiro de 2012, no Vivo Rio;
- São Paulo: de 1 a 25 de março de 2012, no HSBC Brasil.
Alinhamento que está no repertório da turnê de Chico:
"O velho Francisco"
"De volta ao samba"
"Desalento"
"Injuriado"
"Querido Diário"
"Rubato"
"Choro Bandido"
"Essa Pequena"
"Tipo um Baião"
"Se Eu Soubesse"
"Sem Você 2"
"Bastidores"
"Todo o Sentimento"
"O Meu Amor"
"Teresinha"
"Ana de Amsterdam"
"Anos Dourados"
"Sob Medida"
"Nina"
"Valsa Brasileira"
"Geni e o zepelim"
"Sou Eu"
"Tereza da Praia"
"A Violeira"
"Baioque"
"Cálice"
"Sinhá"
# Para ouvir Chico (2011) faixa a faixa: AQUI


"Levei um tempo para que a música me aceitasse de volta", diz Chico Buarque sobre disco novo

O cantor e compositor Chico Buarque deu detalhes, em um vídeo divulgado para a imprensa nesta quinta-feira (14), sobre seu retorno ao universo da música e falou sobre todo o processo de composição e gravação de "Chico", seu primeiro álbum de estúdio em cinco anos.
O ponto de partida para o novo trabalho nasceu da colaboração com Ivan Lins em uma faixa, que mais tarde resultaria na canção "Sou Eu". "Ainda levei um tempo para que a música me aceitasse de volta", contou. "Aí foi dando aquela vontade de compor de novo e comecei a tocar um pouco de piano e buscar no violão mais alguma coisa. Levou, talvez, um ano pra eu escrever a primeira música dessa nova leva", contou.
Chico brincou sobre o fato do disco quase ter sido lançado com apenas nove músicas. "Li uma crítica sobre o álbum do Radiohead e vi que tem oito músicas! Então está até sobrando", disse, referindo-se a "The King of Limbs". 
No vídeo, o compositor afirmou que demorou meses para concluir cada canção."Estava fazendo, compondo, recompondo, desfazendo e descompondo até chegar à forma musical definitiva", disse. "A letra veio em seguida, quase junto". Dessa vez, o repertório foi ensaiada à exaustão na casa do maestro Luiz Claudio Ramos antes de ser registrado de vez. "Ali havia uma cobrança menor. Estávamos ocupando a sala da casa do Luiz e tínhamos o nosso horário, a gente podia ficar mais à vontade para trabalhar. Isso foi muito importante", lembrou.
O músico considera que "Chico" seja um "disco de autor", assim como todos os demais de sua carreira. "As pessoas compram meu álbum e vão ao meu show sem esperar uma grande performance ou um grande cantor. Sou um compositor que canta".
O álbum também foi responsável pela realização de um antigo sonho de Chico Buarque, o de tocar violão na gravação de suas próprias músicas. "Se eu tivesse a mesma habilidade com as mãos que eu tenho com os pés eu seria o Paco de Lucía. O violão é sujeito a trastejos e erros", falou. "Tenho impressão de que eu canto melhor quando me acompanhando. Me sinto um pouco canastrão em cantar depois que tudo foi gravado, parece que estou dublando".
Apesar de não se considerar um bom músico, Chico está satisfeito com o resultado do álbum, especialmente em relação às letras das canções. "A parte literária eu conheço mais. Eu entendo e posso discutir com qualquer um. Com a música é mais difícil, mas com a letra eu não perco pra ninguém. Pra mim, no momento, é o melhor [disco da carreira]. Mas sempre é o melhor", brinca.
Todo o processo de composição, ensaios e gravações de "Chico" esgotaram o cantor e compositor, que não sabe se vai apresentar as novas canções em uma turnê. "Pretendo me desligar de música por um tempinho, porque foi muito intenso. Não sei o que vai acontecer com o disco ou se vou fazer show". [14/07/2011]
 
Antes de lançar álbum, Chico Buarque deixa em dúvida se fará shows com as novas músicas
 
 Chico Buarque anunciou o lançamento de "Chico", seu novo álbum com dez canções inéditas e pelo qual seus admiradores tiveram que esperar por cinco anos. "Chico" será lançado em 20 de julho e chegará às lojas dois dias depois, explicou o próprio músico em um vídeo divulgado no site que promove a venda do disco.
No vídeo de 44 minutos disponibilizado nesta sexta-feira no portal criado para promover o álbum - uma alternativa para não ter que conceder entrevista coletiva -, Chico admitiu que após os anos que dedicou a seu último livro, "Leite Derramado" (2009), precisou de um tempo "para que a música" o aceitasse outra vez. "Aí foi dando aquela vontade de compor de novo e comecei a tocar um pouco de piano e buscar no violão mais alguma coisa. Levou, talvez, um ano pra eu escrever a primeira música dessa nova leva", relatou.
O compositor afirmou que decidiu lançar um disco com nove músicas após ter descoberto que "The King of Limbs" (2011), do Radiohead, tinha apenas oito faixas, mas terminou incluindo a décima, "Querido diário", depois de colocar no papel uma ideia que tinha na cabeça há muito tempo.
"Tinha em mente que este ia ser o disco mais econômico em termos de orquestração. O fato de a gente ter ensaiado bastante, com dois violões, piano e baixo, fez as músicas ganharem corpo. Fui vendo que já estava quase tudo ali, não tinha o que acrescentar", explicou o compositor.
Os cerca de 30 minutos de canções do disco começam por "Querido Diário", na qual um personagem solitário reflete sobre o caos urbano e a religiosidade antes de descobrir o amor.
Em seguida, sucedem-se nove sambas, blues, toadas e baiões, alguns compostos em parceria com letristas famosos como Ivan Lins e João Bosco e alguns cantados ao lado de nomes como Thais Gulin, namorada do cantor, e Wilson das Neves.
Antes mesmo do lançamento do disco, Chico deixou em dúvida se fará shows com as novas músicas. "Pretendo me desligar de música por um tempinho, porque foi muito intenso. Não sei o que vai acontecer com o disco ou se vou fazer show", afirmou.
A promoção do novo disco de Chico Buarque, a cargo da gravadora Biscoito Fino, teve início em 20 de junho, quando começaram a ser divulgados diariamente vídeos das gravações, depoimentos e alguns trechos das músicas no site no qual o álbum pode ser adquirido antecipadamente.
A estratégia permitiu até agora a venda 6.500 cópias do disco, um número expressivo na atual conjuntura da indústria fonográfica, na qual impera a distribuição digital, tanto legal como ilegal. [15/07/2011]

publicado no Portal UOL 

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Sugestão de palco: Gilberto Gil, hoje à noite no 'CCB Fora de Si'

 Durante o show integrado nas Festas Juninas da Bahia, este ano, no palco montado no Terreiro de Jesus

O xote, o maxixe e o baião, ritmos do nordeste brasileiro, são recuperados hoje pelo cantor Gilberto Gil num concerto no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no âmbito do evento CCB Fora de Si.
O músico e ex-ministro da Cultura do Brasil regressa a Lisboa com o espetáculo "Fé na Festa", que adota o nome do álbum que editou em 2010 inspirado nos ritmos nordestinos e nas Festas Joaninas.
Com mais de meia centena de álbuns editados e oito prémios Grammy, Gilberto Gil junta-se ao cartaz do "CCB Fora de Si", que tem estado a decorrer nos espaços do Centro Cultural de Belém em julho e agosto.

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Parabéns, Ney Matogrosso!


via TV IG - 29/07/2011

Ney Matogrosso está fazendo hoje (uns inacreditáveis) 70 anos. A festa vai fazer-se nesta sexta-feira, na sua cobertura no Leblon.



O cantor Ney Matogrosso completa 70 anos no dia 01 de Agosto de 2011

Em entrevista exclusiva a TV iG, o artista relembra momentos marcantes da infância e da adolescência, quando morou na Bahia e no Mato Grosso. Ney fala da sua relação com a natureza e diz acreditar que os recentes desastres naturais que o mundo tem sofrido são consequências do desrespeito do homem.
Ney revela que sempre se colocou nos palcos cantando como ator e na época dos "Secos e Molhados", usava uma máscara para se esconder por trás de um personagem, com medo de perder a privacidade.
Sobre liberdade de expressão, ele afirma ter sido um dos primeiros artistas a defender publicamente o direito de existir.
O cantor fala também da época da ditadura militar e revela que já sofreu preconceito. Durante dois anos, seu nome foi proibido de ser publicado no Jornal do Brasil. Sobre a Aids, ele diz que não se surpreenderia se descobrisse, hoje, que o vírus foi manipulado, já que na opinião dele, o ser humano é capaz de tudo.
O cantor fala ainda sobre seus cuidados com a saúde e diz que é preciso ter zelo para chegar bem aos 70 anos.


Os dez discos essenciais da carreira de Ney Matogrosso

Nesta segunda-feira, Ney Matogrosso completa 70 anos (veja entrevista exclusiva em que o cantor fala sobre sua trajetória). Destes, 38 se passaram diante do público brasileiro. Revelado em 1973, como vocalista dos Secos & Molhados, ele passou como um furacão pela música brasileira: uma voz como nenhuma outra no país, e uma presença cênica como nenhuma outra no mundo. Além, é claro, de uma sexualidade que transpira por sua música, e uma recusa de se encaixar em qualquer rótulo - nestes 70 anos, ele já gravou desde o rock de Cazuza ao erudito de Villa-Lobos. Veja abaixo os dez discos essenciais da carreira do cantor:

Secos & Molhados (1973)
O disco que tornou Ney Matogrosso um astro, praticamente do dia para a noite. A voz única, a forte sexualidade, a presença de palco marcante. Acompanhados, é claro, das espetaculares composições de João Ricardo ("Sangue Latino", "O Vira") e Gerson Conrad ("A Rosa da Hiroshima", feita a partir de um poema de Vinícius de Moraes). Radicalmente ousado e original, e mesmo assim um dos maiores sucessos de público daquele ano.

Água do Céu / Pássaro (1975)
Após o fim dos Secos & Molhados, Ney lançou um compacto e logo depois este seu primeiro disco solo. É o trabalho mais experimental de sua carreira, bem diferente do som mais pop que ele abraçou em seus discos imediatamente posteriores. Destaque para as belas "Corsário" (João Bosco e Aldir Blanc), "Bodas" (Milton Nascimento e Ruy Guerra) e "América do Sul" (Paulo Machado).

Pecado (1977)
Uma boa amostra da versatilidade de Ney Matogrosso. Aqui, ele grava de tudo: do rock nacional de Raul Seixas ("Metamorfose Ambulante") e Rita Lee ("Com a Boca no Mundo") à MPB de Caetano Veloso ("Tigresa") e Milton Nascimento ("San Vicente"), passando por clássicos do cancioneiro brasileiro ("Desafinado", de Tom Jobim, e "Da Cor do Pecado", de Bororó).

Ney Matogrosso (1981)
Neste disco, Ney mostra o seu lado mais debochado. Diante de quem o criticava por ser homossexual, ele respondia gravando "Homem com H" ("Porque eu sou é homem, e como sou"). O repertório ainda inclui Chico Buarque ("Deixa a Menina"), Rita Lee e Roberto de Carvalho ("Amor Objeto") e Eduardo Dusek ("Folia no Matagal"). É um dos discos mais vendidos da carreira do cantor.

Pois É (1983)
Em 1983, o rock tomava conta das paradas no Brasil, com grupos como Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso. Ney, que sempre havia incluído o gênero em seu caldeirão musical, resolveu entrar na onda. Este disco traz a sua famosa versão para "Pro Dia Nascer Feliz", de Frejat e Cazuza. No seu disco seguinte, "Destino de Aventureiro" (1984), ele voltaria a gravar uma música da dupla, "Por Que a Gente É Assim".

Pescador de Pérolas (1986)
Uma das maiores guinadas da carreira de Ney. Depois de alguns anos flertando com o rock e o pop, ele reuniu-se a músicos como o pianista Artur Moreira Lima, o saxofonista Paulo Moura e o violonista Rafael Rabello para gravar clássicos da música brasileira ("Tristeza do Jeca") e latina ("Dos Cruces"). É uma prova que ele não precisa de plumas e paetês para ser um dos maiores intérpretes do país.

Um Brasileiro (1996)
No meio da infinidade de discos dedicados à obra de Chico Buarque, "Um Brasileiro" se destaca por dois fatores: em primeiro, a voz única de Ney Matogrosso; em segundo, a escolha do repertório. Ao mesmo tempo em que resgata músicas menos conhecidas de Chico ("Até o Fim", "Corrente"), o cantor imprime sua personalidade a composições mais manjadas como "Roda Viva" e "Partido Alto".

O Cair da Tarde (1997)
Um dos trabalhos mais sofisticados do cantor, "O Cair da Tarde" reúne obras de Antonio Carlos Jobim e Heitor Villa-Lobos, com participação do grupo mineiro Uakti. Algumas das interpretações mais intensas da carreira de Ney estão neste disco, como "Melodia Sentimental" (de Villa-Lobos) e "Modinha" (de Jobim). Dois anos depois, ele mudaria novamente de rumo ao gravar música mais pop em "Olhos de Farol".

Vagabundo (2004)
Em uma iniciativa ousada, Ney decidiu gravar um disco junto com a banda Pedro Luís e a Parede. O resultado é um de seus trabalhos mais vigorosos, que dois anos depois ainda rendeu um bom álbum ao vivo. Entre os pontos altos do variado estão duas composições de Itamar Assumpção ("Transpiração" e "Finalmente"), um dos autores mais gravados pelo cantor e que havia morrido no ano anterior.

Beijo Bandido (2009)
Depois das guitarras do disco "Inclassificáveis" (2008), Ney deu mais uma prova de sua versatilidade e lançou um de seus trabalhos mais delicados e intimistas, "Beijo Bandido". O título é tirado de um trecho da letra de "Invento", do gaúcho Vitor Rammil. O repertório mistura compositores como Roberto e Erasmo ("À Distância"), Herbert Vianna ("Nada por Mim"), Cazuza ("Mulher Sem Razão") e Vinícius ("Medo de Amar").

publicado no IG

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15 mil pessoas viram ao vivo Chico Buarque a cantar na Internet

por Isabel Coutinho
Quinze mil pessoas assistiram à apresentação que Chico Buarque acabou de fazer na Internet do seu novo disco "Chico". A apresentação em directo a partir do site Chico: Bastidores durou trinta minutos e foi feita a partir da casa do compositor e cantor no Rio de Janeiro.
Na imagem, antes das oito da noite em Portugal aparecia um relógio a marcar o tempo de espera. Ao lado, num chat ao vivo os internautas iam mandando mensagens. Pouco depois Chico apareceu, sentado numa cadeira e com o violão nas mãos agradeceu aos produtores, ao João Bosco e aos internautas que ao longo deste mês compraram o disco na pré-venda no site Chico: Bastidores e ganharam uma senha para assistir ao que se passou na gravação do disco. "Já estou começando a ficar esperto nisto, mas se vocês não me perguntarem coisas eu não vou saber o que falar", disse. "É legal isso das músicas terem ido pingando através da Internet" e isso "favorece o entendimento das canções".
Nessa altura, a imagem estava boa mas o som estava aos soluços. Chamou depois João Bosco ("João, vamos trabalhar!") e como o som continuava a dar problemas Bruno Natal, um dos responsáveis pelo site e realizador e produtor do documentário sobre as gravações, explicou que iam sair do ar para que fosse possível resolver o problema do som. Foi necessário desligar o chat e isso fez com que os problemas de som ficassem resolvidos. "Já entrei ou preciso de entrar de novo?", perguntava baralhado João Bosco. E começaram a assobiar os dois. Os músicos cantaram ao vivo "Sinhá", que faz parte do disco e que foi feita em parceria pelos dois, e conversaram sobre diversos assuntos.
Falaram de futebol, de amigos da praia (do cantor Mário Sérgio), das pesquisas que fizeram na Internet nomeadamente para a letra desta canção. Chico explicou a João Bosco o que é um "meme" ("os caras pegam uma frase sua e aplicam isso a um filminho") e outras coisas da Internet como os comentários que as pessoas fazem. "Eu sei que não sou amado há muito tempo, desde o começo. Há gente que entra nesse site, paga, só para detestar, 'Ah deixa eu detestar mais um bocadinho'. Mas o que é que eu estava dizendo mesmo?", diz Chico. Quase no final a produção pediu ao cantor que repetisse aquilo que tinha dito no início para aqueles que não tinham conseguido apanhar por causa dos problemas de som. “Vão pensar... O velho está com problemas, repetindo as falas todas (risos)", brincou o músico.
A determinada altura avisaram o músico que as quinze mil pessoas que estavam a assistir à transmissão ao vivo estavam a enviar mensagens a pedir "bis". Foi então que Chico optou por cantar mais uma canção, "Nina", e explicou que a sua amiga portuguesa, a cineasta Teresa Villaverde lhe tinha pedido uma canção para o seu próximo filme, "Cisne", a estrear em Setembro, e ele deu-lhe mesmo com medo de ficar com menos uma inédita do seu disco. Mas como o filme atrasou, a canção será lançada no disco como inédita.

(...)

NOTA do Conexão: se perdeu na hora, vá até lá agora. Chico e a Biscoito Fino têm um entendimento generoso da liberdade no ciberespaço e o registo em vídeo do momento está online: acessível a todos. O endereço segue em baixo.

# Site oficial: AQUI.

22:43 | Posted in , , , , , , | Read More »

Instituto Tom Jobim lança acervo de Chico Buarque on-line

por Marco Aurélio Canônico
Chico criança, Chico cabeludo, Chico de bigode. Em Lisboa, em Buenos Aires, em Roma. Com Tom, com Caetano, com Milton, com Vinicius. Em família, entre amigos, em manuscritos e, como se espera, em canções, todas as que gravou.
Enquanto aguardam o novo disco de Chico Buarque - cuja pré-venda começa na segunda-feira -, seus fãs ganham amplo acesso ao passado do cantor e compositor com o lançamento de seu acervo digital no site do Instituto Antonio Carlos Jobim (www.jobim.org).
A obra digitalizada do artista será lançada oficialmente na rede nesta sexta-feira, e seus números dão uma dimensão do volume acessível: são 1.044 imagens, 7.916 letras e partituras e 26.152 textos, entre cadernos, documentos pessoais, reportagens de imprensa, roteiros para cinema e teatro, correspondências.
O filé, no entanto, são as gravações de áudio e vídeo, que somam cerca de 600 arquivos e incluem toda a discografia de Chico, com cada uma de suas canções --algo que nem mesmo o site oficial do artista disponibiliza.


Paulo Jobim, presidente do instituto que leva o nome de seu pai, diz que o cantor foi consultado sobre a digitalização de seu acervo, que custou R$ 200 mil e foi bancada pela Vale com uso da Lei Rouanet.
O acervo de Chico é o terceiro que o instituto coloca na internet, depois dos de Tom Jobim e Dorival Caymmi. O mesmo projeto está em andamento com a obra de Gilberto Gil e começará em breve com a de Milton Nascimento.
Além do lançamento do acervo on-line, acontece amanhã a abertura de uma exposição com parte do material no Espaço Tom Jobim (r. Jardim Botânico, 1.008, Rio). A mostra, gratuita, fica em cartaz por três meses, de terça a domingo, das 10h às 18h.

Cf. também: Chico Buarque vai vender cotas de disco na internet

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A única vez que vi João Gilberto

por Arnaldo Jabor

João Gilberto fez 80 anos na sexta-feira passada, mas eu só o vi pessoalmente uma vez. Foi 17 anos atrás, no ensaio de um show no Ibirapuera (acho que era aniversário de São Paulo). Eu tinha virado jornalista, depois que o Collor acabou com o cinema em 1991, e me mandaram fazer uma reportagem sobre a preparação do show. E lá fui eu, na noite fria do parque, esperar João Gilberto chegar, enquanto o palco era montado. Já contei isso, na época, mas "vale a pena ler de novo".
Vinte e três horas. Começa um boato de que João não virá para o ensaio nesta noite ventosa, angustiando tietes e organizadores que esperam ver/ouvir aquele "homem-suspense", com seu jeito eclesiástico, seu ar de professor de ética, que, aliás, sempre me provocou uma sensação de culpa: "Estarei errado, comparado ao rigor artístico de João?" De certa forma, todos estamos.
Aí, chega a terrível notícia: João não virá! Mas, mesmo assim, ninguém arreda o pé. João provoca uma espécie de fé nas pessoas, que o esperam ali, entre carpinteiros malhando o cenário e uivos das caixas de som. Espera-se esse homem com a fome de alguma revelação.
Eis que, à meia-noite em ponto, faz-se um grande silêncio no parque: João Gilberto materializa-se no palco! Surgiu do nada. Ao seu lado, o irmão Vavá e o amigo do peito Krikor Tcherkessian, armênio delirante que tem arranques de paixão com a música brasileira.
E aí, percebo que o ensaio e o show do dia seguinte são partes de um fio só, não interrompido. Ninguém fala mais; um carpinteiro sussurra ao diretor Fernando Faro: "Posso bater este prego?" "Pode..." As marteladas vêm aveludadas, tímidas, respeitosas e param. João lança a voz pela noite como os primeiros traços de um quadro numa tela negra. Sua música é a pura modulação do silêncio que se instalou. Ele começa Canta Brasil. Todos se imobilizam - Daniela Thomas, emocionada, pinta cores de Matisse no cenário; a equipe de Walter Salles Jr., que filma o evento, comunica-se por telepatia e as câmeras flutuam como "ETs" mudos. Eu olho João mais de perto e vejo que ele veste calças jeans, paletó marrom e tênis branco marca Pé de Atleta e vejo intrigado que seu irmão Vavá, calvo e ungido como um frade, também usa tênis Pé de Atleta. Sinto que ali estava um indício precioso para desvelar um pouco do seu cotidiano tão misterioso. Por que Pé de Atleta? Terão os irmãos comprado tênis brancos, em doce fraternidade do dia a dia? O tênis branco fazia João mais real.
Subitamente, ele se levanta e, pisando macio no tênis, mergulha na escuridão do parque, para ouvir o teste de som, do outro lado da praça, a mais de cem metros. Corro atrás, como bom repórter principiante.
E aí, começa o mágico momento do encontro: eu, trêmulo, no meio das folhagens do parque, descubro deslumbrado que ele me conhece: "Oh... Arnaldo... Arnaldo... vejo você na televisão..." Só minha mãe me chamava de Arnaldo e, agora, seu filho, mamãe, estava ao lado do mito. Os testes do som vinham do palco e João me pergunta: "Arnaldo... (ele parecia ter prazer em escandir as sílabas meio humorísticas de meu nome), Arnaldo, que você está achando do som?"
Eu arrisco: "Os graves estão reverberando e há um vazio..." João concorda, de estalo: "É isso! Tem um vazio... Falta qualquer coisa! Tens razão, Arnaldo; a frase tem início e fim, mas não tem meio! O som não tem meio. Ouve: "Essa mulata quando dança é luxo só" - a gente ouve "mulata e só"..."
João se vira para os técnicos: "Falta o meio do som..." O chefe arrisca uma explicação tecnopoética de que o vento esgarça o som e que, no dia seguinte, no calor dos corpos da praça cheia, o som ficará denso.
Súbito, João já está no microfone (a memória me vem por cortes bruscos) e começa a cantar Ronda, de Paulo Vanzolini, que vira um gemido clássico sobre a solidão absoluta e eis que surge Rita Lee no escuro da noite ("O que vou cantar não sei... quebrei o braço; foi o tombamento do Ibirapuera... ah ah...") e senta num canto do palco enquanto Krikor soluça em meu ouvido: "Ele é o Pelé da música... o mundo o ouve de joelhos!" Aí, chega o Caetano de um show no Anhangabaú e se junta discretamente a todos que ali se movem, ciciando, com passos camuflados. Tenho vontade de perguntar: "Há perigo?.." Há, sim, há o perigo de se quebrar a fina lâmina do silêncio, de desagradar a João.
Mas, ele está agora eufórico, cantando em falsete caricato o Dobrado de Amor a São Paulo, de Vinicius e Haroldo Tapajós, com o conjunto Quatro por Quatro. Depois, quando João canta Lua Cheia, todos já estão imóveis, como se o João fosse um passarinho que pudesse voar. Alguém me segreda: "Acho que o show já é só isso; amanhã ele nem vem..."
Mas, logo depois Caetano, meio tímido, passa Coração Vagabundo, que João repassa mais lento e mais baixo e Coração Vagabundo vira um réquiem e Rita Lee canta "cola teu rosto no meu rosto" e João emenda com Nada Além e o "além" soa como se João conhecesse o "país não descoberto" que vem depois da morte.
Enquanto isso, eu penso, aflito: "Perguntar o que, ao João?" Mas, só me ocorrem banalidades, toda ideia me parece rasteira, vulgar. Nervoso, decido perguntar algo que me revele mais segredos do cantor misterioso, algo "essencial", de que os tênis brancos Pé de Atleta talvez já fossem uma pista.
De repente, vejo que João está indo embora. Apavorado, corro atrás dele, sem saber o que lhe perguntar: música, vida pessoal, política? Paro ao seu lado: "E aí, João?" Ele sorri, esperando. Atrapalhado, me sai pela boca a tal "pergunta essencial": "E aí, João... ah... ah... para onde vai o Brasil?" Ele faz uma pausa, me olha fundo e diz: "Você sabe, Arnaaaaldo...." e some na noite.
João sabia o rumo do País e, bom sinal, não parecia preocupado.
Quando ele se foi, rompeu-se o silêncio, restaurou-se a realidade e alguém berrou aliviado: "Vamos comer num japonês!?"
Foi a única vez que estive com João Gilberto, em 80 anos.

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