Festival Folk Celta 2012: sonoridades que se voltam a cruzar em Ponte da Barca, durante 10 e 11 de Agosto
Está aí e em Agosto a 5ª edição do Festival FolkCelta de Ponte da Barca.
Mais uma vez e com entrada livre apresentam-se artistas em formas de interpretar a Música Popular!
Este festival pretende, à semelhança das edições anteriores, ser o veículo para o cruzamento de sonoridades musicais folk e celtas, contando para o efeito, com a participação de grupos vindos especialmente de Portugal e Espanha.
O cartaz deste ano é prova disso mesmo com a presença de músicos portugueses, polacos e espanhóis, além de uma feira alternativa e de uma série de atividades paralelas aos espetáculos. A decorrer na Praça Terras da Nóbrega (antigo Campo da Nucha), um novo espaço concebido pela autarquia para a realização de espetáculos e outros eventos nas margens do Vade em Ponte da Barca, o festival é uma das apostas do atual executivo barquense justificada pelo Presidente da Câmara, Vassalo Abreu, “na divulgação do património tradicional e cultural do concelho que tem fortes ligações à cultura celta, como já acontece, também, com os Congressos Transfronteiriços de Cultura Celta que levamos a cabo desde 2006”.
O CARTAZ
Sexta-feira | 10 de Agosto
O Festival arranca no dia 10 de Agosto com um espetáculo teatral no Largo do Curro (21h30) seguido do concerto dos portugueses Magmell, cujas raízes passam principalmente pela música Irlandesa, Celta e música da Península Ibérica. Do seu repertório fazem parte temas tradicionais e alguns originais, que criam um ambiente mágico com uma sonoridade muito viva e animada. Os Briganthya, uma das mais representativas bandas do País Basco - Espanha, são o grupo que se segue. Ao longo de mais de uma década de percurso têm cimentado junto do público e da crítica a reputação de grandes concertos com excelentes músicos que promovem um casamento perfeito entre o rock, a pop e a música folk e celta. Em Ponte da barca apresentarão o seu último álbum “Destino: Nuevos Aires” que marca um novo ponto na carreira do grupo com a introdução de uma nova vocalista.
Para encerrar o primeiro dia de festival chegam-nos da Polónia os Beltaine, um dos mais entusiasmantes projetos musicais europeus. O seu som único nasce da apetência natural dos seus membros para a mistura perfeita da música tradicional celta com os sons contemporâneos. Os seus concertos são uma mistura explosiva de improviso, espontaneidade, paixão e uma interação permanente com a audiência.
Sábado | 11 de Agosto
O segundo dia de festival é inaugurado pelos portugueses José Barros e Navegante com Isabel Silvestre, Rui Júnior e José Manuel David. O grupo Navegante nasce em 1993 e funde-se com o percurso do seu fundador José Barros, um dos mais estimulantes dinamizadores da música tradicional portuguesa.
Ponte da Barca acolhe neste festival um alinhamento único, onde os Navegante são acompanhados por três grandes nomes: Isabel Silvestre (Grupo de Cantares de Manhouce), Rui Júnior (Tocá Rufar e Ó que som que tem) e José Manuel David (Gaiteiros de Lisboa), onde o público poderá assistir ao revisitar de grandes temas do cancioneiro tradicional português e outros originais.
De seguida, o palco está reservado para os Quempallou, grupo galego com mais de dez anos de existência, que tem levado a excelência da sua música e da sua herança aos quatro cantos da Europa. Em Ponte da Barca vão apresentar o seu novo álbum “Vellas Novas” que assenta na raiz da tradição musical galega com uma sonoridade característica apoiada nas percussões tradicionais, no acordeão, nas cordas, nas gaitas e claro, na voz.
O encerramento do festival estará a cargo dos portuenses Pé na Terra, que nos visitam após a sua atuação em 2009 em que terminaram o espetáculo fora do palco, a tocar e a dançar com o público. Os Pé na Terra geram sempre atuações e concerto únicos, pela dinâmica da renovação da música tradicional e pela empatia imediata que estabelecem com o público.
Feira Alternativa com diversas actividades
Paralelamente aos espetáculos musicais e após o sucesso dos anos anteriores decorrerá, no mesmo espaço, uma Feira Alternativa, onde o público poderá usufruir de Yoga, Reiki, Massagens Terapêuticas, compra de produtos alternativos, danças orientais e danças do mundo, acupuntura entre muitas outras atividades. A feira funcionará a partir das 15h00, durante os dois dias de festival. Recorde-se que o Festival Folk/Celta de Ponte da Barca tem apostado em novos e consagrados nomes do fenómeno musical das áreas folk e celta, e nas quatro edições anteriores contou com nomes como Uxia, Susana Seivane, Berrogueto, Toques do Caramulo, Galandum Galundaina, Luar na Lubre, Brigada Victor Jara, Adufe, Judith Mateo, entre muitos outros.
22:13 | Posted in festivais, world music | Read More »
Entrevista a António Zambujo: «Minha aproximação com o Brasil é cada vez maior»
António Zambujo: "70% dos portugueses ainda estão com a gravata apertada"
O cantor António Zambujo chega ao disco "Quinto", a ser lançado em abril, em Portugal, não apenas com a guitarra de renovador do fado - na mesma intensidade, notabiliza-se como um aproximador dessa tradição com o repertório da música popular brasileira. Nascido em Beja, no Alentejo, em 1975, Zambujo imprime um cool fado desde o álbum "Outro sentido", o início de sua transição musical. Influenciado por Chet Baker e João Gilberto, ele faz uma arriscada e até há pouco improvável ponte entre a Bossa Nova e um gênero historicamente marcado por suas cantoras viscerais, como Amália Rodrigues.
Nesta entrevista a Terra Magazine, António Zambujo recompõe sua trajetória profissional - estudou clarinete a partir dos 8 anos - e relata seus diálogos com músicos brasileiros, de Rodrigo Maranhão a Ivan Lins, de Moreno Veloso a Marcelo Camelo. Com este último já engatilhou uma parceria e pretende desenvolver um projeto de disco, que reunirá ainda Miguel Araújo Jorge.
- Apaixonei-me pela música brasileira a primeira vez que ouvi o João Gilberto. Quando ouvi João Gilberto, tive vontade de conhecer toda a origem, até um pouco antes da Bossa Nova, os movimentos que a sucederam, a música que vinha lá atrás, com Orlando Silva, Pixinguinha, Cartola, Adoniran Barbosa - Zambujo relata.
Admirador de Vinicius de Moraes, ele já gravou "Apelo", "Quanto tu passas por mim" e "Poema dos olhos da amada". E aprecia imenso uma mensagem do poeta aos portugueses, gravada no disco "Amália/Vinicius", no qual o visitante confessa sua "impressão de tristeza em ver esse povo tão formalizado". "Eu tenho a impressão de que o povo português precisava se desengravatar", declarou o bardo. Quarenta anos depois, Zambujo vibra com esse conselho:
- Eu adoro isso! Eu adoro ele dizer isso! Ele disse em 1969. Nós estamos em 2012 e, não digo todos, mas 70% dos portugueses ainda estão com a gravata apertada!
No começo de sua carreira em Lisboa, o fadista integrou por quatro anos o elenco do musical "Amália", interpretando o papel de Francisco Cruz, o primeiro marido da cantora. Pertencente a uma geração que procura modernizar o fado, António Zambujo reconhece a grandeza da artista:
- A Amália funcionava um pouco como eucalipto. Ela estava lá enquanto tudo à volta secava. Acho que não é propositado. Acho que isso, de fato, aconteceu, mas só aconteceu porque Amália tinha uma dimensão fora do comum. Nem sei se existe alguma coisa que se possa comparar no mundo. Porque ela tinha uma qualidade artística. Ela cantava e escrevia os poemas, fazias músicas, fazia tudo.
Provocado sobre os impactos da internet na indústria fonográfica, principalmente após o alastramento do download de músicas, Zambujo defende o conceito de álbum e acredita que ele não será alterado, na essência, pelas novidades tecnológicas.
- Ah, eu acho que nunca vai acabar. Nesse aspecto, é como eu te digo: como ouvinte, gosto de ouvir o disco, não gosto de uma música como nas tais coletâneas. E, como músico, gosto de imaginar um disco como um todo. Não gosto de imaginar faixa a faixa. Uma disco é um conjunto de músicas. Faz sentido naquela ordem, existe uma razão para isso - expõe.
A entrevista ocorreu no apartamento do fadista no Chiado, em Lisboa, a poucos metros da praça Luis de Camões, no final de janeiro. Risonho e provocador, ele não se esquiva de criticar os "ortodoxos" do fado. "A ideia que eu tenho é que talvez tivessem pensado que a minha ideia era desvirtuar o que já tinha sido feito há 50, 60 anos atrás em Portugal".
Terra Magazine - Nos seus últimos discos, você tem dialogado com a música brasileira, trazendo-a, incorporando-a à tradição do fado...
António Zambujo - Mais ou menos as duas coisas. Para lá e para cá.
Como surgiu essa ideia de aproximar as duas tradições?
Sempre fui muito influenciado pela música brasileira. Aliás, se vocês forem ver os meus discos e os meus filmes, tem muitas coisas. O documentário do Vinicius, um monte de DVDs do Chico (Buarque), concertos do (Gilberto) Gil... Apaixonei-me pela música brasileira a primeira vez que ouvi o João Gilberto. Quando ouvi João Gilberto, tive vontade de conhecer toda a origem, até um pouco antes da Bossa Nova, os movimentos que a sucederam, a música que vinha lá atrás, com Orlando Silva, Pixinguinha, Cartola, Adoniran Barbosa. Uma série de compositores que eu tive curiosidade de conhecer. A partir daí, fui descobrindo. E tem muitos discos de músicos atuais, que fizeram uma série de discos retrospectivos, com novas orquestrações. Me lembro de um disco que eu gostei imenso, de Zé Renato, com orquestrações do Wagner Tiso, que se chamava "Memorial". Tocaram muitas músicas antigas...
Zé Renato se vinculou também ao repertório de Cartola.
Sim, e tinha Cândido das Neves, do princípio do choro, Pixinguinha... A partir daí fui me interessando. E descobri uma coisa. O português, hoje em dia, se nós ouvirmos um disco brasileiro, percebe-se que existe uma diferença maior entre as línguas. Ou seja, para cantar uma coisa de um compositor com que tenho compartilhado coisas, ultimamente - o Ivan Lins, o Rodrigo Maranhão, o Marcelo Camelo, o Pedro Luis - algumas letras que eles me mandam têm que ser feitas algumas retificações, para que seja possível serem cantadas em português de Portugal.
Como assim?
Vocês dizem: "Me leve". Nós dizemos: "Leve-me". Alguns acertos gramaticais, que no vosso caso ficam corretos, mas em Portugal ficam um pouco estranho, pois não temos o hábito de dizer. Em algumas frases fará sentido, mas em geral não dizemos. São pequenas alterações que precisam ser feitas. Mas, as músicas dessa altura (de décadas atrás), serem cantadas no português do Brasil ou português de Portugal, ficam exatamente iguais. Utilizam um português mais arcaico, mais obsoleto, que não se diz mais nem lá nem cá, mas que fazem sentido na música. Daí eu comecei a ter vontade de recriar algumas dessas coisas.
Você se aproximou muito de Vinicius de Moraes. Ele tem algo em comum com a cultura portuguesa, que é uma alma lírica mais aguçada. O Brasil teve um movimento modernista que praticamente reprimiu o lirismo.
Mas tem outros artistas que, ao menos, tentam aproximar-se dessa forma de escrita. O Vinicius é assumidamente influenciado pelo Fernando Pessoa, por Camões, ou seja, fica mais fácil. Há uma música que eu toquei no último disco, o "Apelo". Se calhar, ele conseguiu fazer um fado tradicional, porque depois tirei a música original do Baden Powell daquela letra e colocamos na estrutura de um fado tradicional. Musicamos e encaixa à perfeição. Portanto, ele conseguiu fazer coisas inacreditáveis, com quase tudo que fez. Era inevitável para mim aproximar-me do Vinicius. Aproximar-me da música brasileira e não me aproximar de Vinicius seria impossível.
Sua relação com a Bossa Nova é bastante destacada quando avaliam seus discos...
O João Gilberto... Nem é preciso explicar mais. Eu tento seguir uma estética musical que vem desde o tempo do Chet Baker, desde aqueles cantores...
Do cool.
O cool jazz. A Bossa Nova acaba sendo um cool choro... O que eu faço, eventualmente, será um cool fado. Sempre foi essa linha que me influenciou enquanto cantor. Depois do Chet Baker, veio o João Gilberto, o Caetano Veloso, mais tarde comecei a me interessar mais por jazz e pela música anglo-saxônica. A época dos crooners, o Frank Sinatra, o Tony Benett, Bing Crosby, Nat King Cole. Tudo isso acaba por influenciar muito a música que eu faço, mas interesso-me muito mais pela música cantada em português no Brasil e na África. Sou apaixonado pelas mornas de Cabo Verde.
Em Portugal, como seus discos foram recebidos? Porque você faz um fado muito diferente do que é feito. Houve resistência?
No princípio houve um pouco. Eu acho que houve uma certa resistência porque os ortodoxos do fado devem ter julgado... Não sei o que eles pensaram. Porque eu fiz o meu primeiro disco com fados tradicionais. Ou seja, ainda sem essas influências. Foi um disco bem aceito aqui no mercado interno, mas é um disco que nem sequer foi vendido para fora de Portugal. Internamente, foi muito bem aceito. As críticas foram muito boas e a expectativa para o segundo disco era alta. Só que na altura eu conheci o Chet Baker e conheci o João Gilberto, e o disco já nasceu completamente diferente do que as pessoas esperavam. Foi um choque porque foi um corte radical. O primeiro disco saiu em 2002 e o segundo disco em 2004, já completamente diferente. A ideia que eu tenho é que talvez tivessem pensado que a minha ideia era desvirtuar o que já tinha sido feito há 50, 60 anos atrás em Portugal. E no Brasil acontece muito isso. Vocês falam que são um país muito moderno, mas eu sei o que às vezes acontece quando alguém quer fazer alguma coisa diferente.
João Gilberto mesmo. Até hoje é atacado.
Como acontece com Caetano Veloso, com os últimos discos. Caetano fez o "Cê"... É por isso que o admiro. Caetano sabe que as pessoas gostam de ver um show voz e violão, aquelas coisas, mas eu acho que o artista tem que se autodesafiar de vez em quando, tem que fazer coisas novas.
Em Lisboa, o circuito do fado é purista?
Existe um circuito do fado ortodoxo e existe um circuito do fado, como poderíamos chamar?, pós-modernista. Não sei se será a palavra certa, mas vanguardista sim. Nesse circuito existe uma cantora muito interessante, que se chama Cristina Branco. Não sei se vocês conhecem...
Já se apresentou no Teatro Castro Alves, em Salvador, anos atrás. Fez um show excelente.
Ela faz umas coisas diferentes, com outras influências. Tem muita influência do Brasil, mas também da música do centro da Europa.
E da Amália Rodrigues, no início, não?
Um pouco também. A própria Amália, nos anos 70... Veja o ridículo do país que nós vivíamos na altura, durante a ditadura. Veio um compositor francês para fazer músicas para Amália e que foi determinante para a carreira dela, Alain Oulmain. Influenciou. O fado, inicialmente, é escrito por poetas populares. Não é nada de erudito. É feito por poetas populares que falam da realidade exclusiva de Lisboa, falam da realidade dos bairros típicos, dos personagens como a mulher que vendia o peixe, o ardina que vendia jornais na rua, o cauteleiro que vendia cautela (bilhete de loteria). Era isso. Então, Amália aparece cantando poetas eruditos.
Alexandre O'Neill...
Camões, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Melo, a vossa Cecília Meireles...
E fez um disco com Vinicius.
Com Vinicius. Nessa altura, foi um escândalo em Portugal, porque diziam que cantar Camões, Fernando Pessoa e outros poetas eruditos, era um atentado à cultura de um País.
Um atentado a essa tradição literária ou ao fado?
À tradição literária. Para os poetas eruditos, o fado era considerado uma música inferior, onde era impensável e impossível pôr esses poetas eruditos numa música tão reles.
E foi também o caso de Vinicius de Moraes, que, aos olhos de muitos, se apequenou porque foi para a música popular.
Exato. Quando ele começou, era considerado um poeta erudito de grande potencial, e depois não. A história do Vinicius está no documentário. Ele recebe influência erudita do pai e popular da mãe. Então, ele sempre andou ali meio no limbo. Optou pelo que gostaria de fazer. Aqui em Portugal é assim também. E é cíclico. Sempre que alguém tenta mexer em alguma coisa que está bem aceita, há sempre reação.
Do seu primeiro disco para o último, seu modo de cantar muda bastante.
Completamente. O primeiro disco ("O mesmo fado"), salvo algumas exceções, é aquela vontade de fazer o primeiro disco, não interessa o que vai cantar. Quero ter um registro. Tem medo de morrer e não ficar nada registrado! Então, tem que fazer um disco. Foi mais ou menos assim que aconteceu. Eu estava junto de alguns poetas populares, que escreveram poemas, os músicos com quem tocava foram para o estúdio. Ou seja, foi um disco pouco criterioso. Um disco não é nada mais que isso. É um registro do momento. Aquilo era o meu momento. Em 2004 já era um momento completamente diferente. E agora o último disco, que vai sair em abril. É o registro deste momento. Daqui a um ano ou dois, quando fizer o próximo disco, se calhar já será diferente. Nunca se sabe.
Sai um disco seu agora em abril?
Sim.
Você pode adiantar o repertório?
Os autores, eu normalmente gosto de ter alguma estabilidade no processo criativo. Desde o "Outro sentido", quando comecei a ter uma ligação maior com o Brasil e outros países lusófonos, comecei a conhecer pessoas que me interessavam. No caso do Brasil, o Pedro Luís, o Rodrigo Maranhão, o Marcelo Camelo, o Zé Renato, o Ivan Lins, o Moreno Veloso, a Roberta Sá, a Vanessa da Matta...
Marcelo Camelo outro dia disse que tinha vontade de morar aqui em Lisboa.
(ri) Nesta casa, quem morou antes de eu vir para cá foi o irmão dele, o Thiago (Camelo). Recebeu uma bolsa para escrever um romance em Lisboa. Morou aqui durante quatro ou cinco meses.
Qual foi seu percurso? Você saiu com quantos anos de sua cidade?
Eu saí muito tarde. Morei no Alentejo, em Beja concretamente, desde que nasci até o ano 2000. Vim para Lisboa com 25 anos. Beja tem conservatório, fiz o conservatório lá, fiz os estudos lá e quando vim para Lisboa já estava preparado para entrar no mercado. Vim para Lisboa porque recebi um convite para participar do elenco de uma peça de teatro, que foi preparada sobre a vida de Amália Rodrigues. Convidaram para uma audição. Eu vim, cantei, depois me convidaram para ficar. Tive que permanecer definitivamente em Lisboa. Fui para o teatro, fui conhecendo a realidade dessas casas de fado, as pessoas do meio fadista, essas coisas assim. Fui me dando conhecer, porque ninguém tinha ouvido falar de mim. Pouco tempo depois surgiu o convite para preparar o tal primeiro disco, que foi gravado durante 2001 e foi lançado em 2002. Foi assim. A peça durou até 2004.
Quantos anos em cartaz?
Quatro anos.
E você, permanentemente nela?
Eu não estive durante... Eles fizeram uma pequena digressão pelo centro da Europa, França, Bélgica, Luxemburgo, Suíça, para apresentar à comunidade portuguesa desses países. Nessa altura eu não fui porque coincidiu com o lançamento do meu disco cá. Foi uma peça de teatro que bateu todos os recordes, com o maior número de apresentações, mais de mil apresentações...
Com que frequência?
De terça a domingo, num teatro com 700 lugares. O Teatro Politeama.
No Brasil se fala muito de um reflorescimento do fado, de um momento bom, que rejuvenesceu e tem novos artistas como você. Quando você começou, como andava o fado? Vivia um momento bom?
Estava a começar esse movimento. Já existiam alguns indícios de que alguma coisa iria acontecer. Lisboa foi a capital europeia da cultura em 1994. E já foi dada uma grande relevância ao fado, já com novos intérpretes. Foi quando apareceu Mísia, Camené, Mafalda Arnaulth... Foram os primeiros que começaram a surgir dessa geração. Camené é um pouco mais velho, mas em 1994 começou também a aparecer com mais destaque. Em 2000, aparece a Marisa. Aí muda tudo. Eu acho que ela não gravou em 2000, mas começou a aparecer em 2000 e as pessoas começaram a perceber que era uma coisa diferente, que seria uma coisa com muito peso na história do fado. A Marisa começou a aparecer a conta-gotas. E começaram a aparecer pessoas interessantes. A Ana Moura, uma cantora que eu gosto muito, a Cristina Branco também... Eu, apesar de ter um primeiro disco, a essa altura, não considero que tenha alguma relevância. As coisas começam a ter importância a partir do momento que começam a ser conquistado dos tais puristas e ortodoxos. Só aí que o resto do público começa a querer prestar atenção à música que nós fazíamos. Para além desses todos, começa a aparecer uma série de gente, uns a agradar os tais ortodoxos, outros a agradar aos vanguardistas.
"Seu momento" acontece a partir de "Outro sentido"?
Acho que a afirmação é sim. Apesar de o anterior, "Por meu cante", já começava a ter algumas coisas interessantes. "Outro sentido" foi o que definiu mais, foi o que marcou mais o meu momento de fazer concertos em teatros grandes, de fazer turnês internacionais, essas coisas todas.
E sua presença se aprofunda aí?
Nessa altura. Por uma série de fatores que ajudaram bastante. Por exemplo, eu estava a tocar numa casa de fados, Sr. Vinho, onde começavam a surgir algumas pessoas que vinham do Brasil passar férias em Portugal e que no Brasil já tinham ouvido falar no Zambujo, queriam conhecer. Entre muitas dessas pessoas, apareceu a jornalista Marília Gabriela, que estava cá a apresentar uma peça de teatro e me ouviu lá no Sr. Vinho. Resolveu comprar alguns dos meus discos na Fnac e ofereceu a Caetano Veloso. E o Caetano Veloso escreveu uma crônica, num blog (Obra em Progresso), que foi vista logo por muita gente. O produtor que nos representa lá no Brasil, João Mario Linhares, veio cá com Roberta Sá apresentar o disco dela. Foram lá ao Sr. Vinho, ouviram meu disco também. Ele quis logo editar esse disco no Brasil, quis que eu fosse apresentar o disco. Nosso primeiro concerto foi no espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico. Em 2008. A essa altura, já tinha saído isso do Caetano, depois chegamos ao Brasil e fomos convidados a participar do programa do Jô. Depois, a seguir, fui dar um beijo na boca da Hebe Camargo... (risos)
Um selinho...
Depois eu fui a Marília Gabriela, onde fizemos uma coisa muito interessante, onde eu conheci a Vanessa da Matta, que estava a participar desse programa. Tudo aconteceu nessa altura. Quando eu chego ao Rio de Janeiro, apesar de nunca ter tocado lá, percebi que já havia muita gente que me conhecia. No meu concerto no Rio de Janeiro, estavam assistindo João Bosco, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Roberta Sá participou, tocou Yamandu Costa conosco, o Trio Madeira Brasil... Ou seja, foi uma coisa assim que nem nós esperávamos que pudesse acontecer. A partir daí as coisas começaram a surgir. Depois tocamos em São Paulo, no Bourbon Street, um espaço de jazz. Sempre duas vezes por ano tiramos uma temporada para ir ao Brasil.
Nesse disco que você lançará em abril, qual vai ser a linha? Você vai se aprofundar no que já vem fazendo?
Um pouco. Vão participar todos os autores que gravamos no "Guia", mas não vamos gravar Vinicius desta vez. O objetivo foi fazer mais temas originais. Então, dos brasileiros, tem uma do Rodrigo Maranhão, tem uma do Marcio Faraco, um compositor brasileiro que está morando na França...
Marcelo Camelo?
Não. Trocamos algumas músicas, mas isso ficou para outro projeto que nós temos.
Você pode falar mais um pouco sobre esse projeto ou é embrionário?
Isso foi mais ou menos falado. A ideia era criar a base de um projeto com três vozes e três violões. Seria eu, Marcelo e um músico português que também participa deste disco, é autor, Miguel Araújo Jorge. A ideia era fazer um projeto com temas originais nossos para apresentar num formato diferente daquele que eu tenho, que o Miguel tem... Miguel está numa fase de transição, tem uma banda de pop/rock. Seria um concerto acústico com os três. Isso é interessante. Em função de nossas disponibilidades, nós vamos preparando com calma. Já temos o suficiente para gravar um disco, é só arranjar um tempinho para entrar no estúdio.
Essas trocas aconteceram como? Pela internet? Como você conheceu o Camelo?
Eu já era fã dele. O disco dele "Sou" foi muito importante na altura que nós gravamos o "Outro sentido", o "Guia". O "Sou" era um disco que eu tinha muito na cabeça, que eu adorava. E adoro. Depois, quando eu estava no Brasil, soube que o Marcelo Camelo me conhecia, já tinha ouvido minha música. E ele foi ouvir o primeiro concerto em São Paulo, no Bourbon. Conversamos, trocamos ideias. Nos encontramos no Rio de Janeiro e agora aqui em Lisboa. A ideia é aprofundar essa relação, já que existe uma admiração mútua. É colocá-la em concerto e ao vivo.
Como você pesquisa a música brasileira? Quais são os caminhos?
Olha, eu compro muito disco e, cada vez que vou ao Brasil... Vocês tem uma coisa que é muito interessante. Quando eu termino um concerto no Rio de Janeiro ou em São Paulo, mais no Rio, quando eu vou voltar para o hotel já não tenho espaço para guardar tanto disco! Porque os músicos que vão ao concerto me oferecem os discos! (risos) Aí eu conheci coisas muito interessantes. Por exemplo, agora eu participei do disco de um músico brasileiro, André Mehmari. Foi assim que nos conhecemos. Ele foi a um concerto meu, deu-me um disco dele com Hamilton de Holanda. Depois ele disse que gostaria que eu cantasse no disco dele, é uma música também que eu toco com Hamilton de Holanda. Wagner Tiso, eu também conheci no final de um show. Jaques Morelenbaum, José Miguel Wisnik... E sempre acontece isso: "Aqui o meu disco...". E tem pessoas amigas, o Moreno, o Marcelo, uma série de músicos que vez em quando me mandam um link: "Você vai gostar disso".
Você falou de seus álbuns, dos conceitos dos seus álbuns, mas no Brasil existe uma discussão sobre a desconstrução desssa ideia, com a possibilidade de você baixar as músicas pela internet. Isso lhe afeta?
Eu, ultimamente, é só o que faço. Eu baixo, comprando, como é óbvio, principalmente no iTunes. Comecei a comprar. Já é difícil comprar aqui em Portugal. As lojas já não se oferecem como uma alternativa, porque se tu quiseres um disco de uma coisa diferente é difícil de comprar. Só existe a Fnac, é verdade. É a única loja com relevância. Mas, se você vai à Fnac e voltar seis meses depois, a seção de discos é cada vez mais pequena, mais pequena.
E acabou aquela tradição de o vendedor conhecer o produto, indicar...
Estás a falar daquela lojinha de bairro, pequena e tal? Não há mesmo. Na Fnac eles sabem do que nós falamos. Se você for à Fnac falar de uma cantora que você pensa que eles nunca ouviram falar, uma cantora que cantou num festival de World Music na Suécia... É impossível encontrar. A única hipótese é o iTunes. É o que tenho feito.
Mas essa situação afeta o modo de você conceber seu trabalho?
Não.
Você continua acreditando no formato do álbum?
Mesmo no iTunes o disco está lá todo pra vender. Normalmente é raro você comprar uma música individual. O disco tem um conceito estético. É claro que destaca-se uma música ou outra, mas o disco destaca-se pelo seu todo. É como você comprar um quadro e só comprar um canto do quadro. Ou como se você comprasse um filme e só tivesse um extra. Um disco são as músicas todas. Pelo menos eu acho. As pessoas de quem eu gosto e compro os discos, os discos contam uma história, faz sentido a faixa 3 estar no número 3, porque vem depois da 2, antes da 4. Faz sentido ali. Existe uma sequência lógica. Se comprares a música individual, a música pode ser muito boa, mas não terá tanto força...
Ela sai de um conceito?
Eu acho que sim.
Gilberto Gil tem uma posição bem diferente dessa sua e de outros músicos. Ele acha que os garotos, na hora da audição, não estão mais ligados na ordem do disco ou no conceito do álbum, eles vão ouvindo numa sequência que não é mais a do autor. Esse modelo de álbum...
Ah, eu acho que nunca vai acabar. Nesse aspecto, é como eu te digo: como ouvinte, gosto de ouvir o disco, não gosto de uma música como nas tais coletâneas. E, como músico, gosto de imaginar um disco como um todo. Não gosto de imaginar faixa a faixa. Uma disco é um conjunto de músicas. Faz sentido naquela ordem, existe uma razão para isso. Não sei. Também pode ser por uma ignorância minha. Não estou muito a par do que as outras pessoas fazem, por que elas fazem... Temos ali uma ouvinte de música e podemos perguntar: Raquel, você compra um disco e ouves o disco todo, ou não te importa ouvir faixa a faixa? ("No iTunes?", pergunta Raquel). Sim. ("Posso comprar só aquelas que gosto", responde). (risos) Sou eu que estou errado! (risos) Eu gosto assim, não gosto de imaginar faixa a faixa.
Para o criador, é muito difícil aceitar que a concepção da obra, enfeixada num disco, não é mais vista como tal?
Quer dizer, nós temos que nos adaptar. Se as exigências do mercado forem essas, tem que existir um período de adaptação e, nessa altura, tem que se pensar de outra forma. Não sei. Não me imagino a fazer isso. Sinceramente. Mas, eventualmente, num futuro próximo, as coisas mudam muito. Como a música. A minha música há dez anos atrás era completamente diferente da que faço hoje. Não faço idéia.
António, aquela música "Em quatro Luas" é uma composição sua...
É.
No novo disco, vai ter composição sua?
Umas três inéditas. Poemas do João Monge, Maria do Rosário Pedreira...
E letras, você nunca fez?
Nunca fiz. Talvez por ter parceiros tão bons, nunca senti necessidade de me esforçar para tentar fazer o que quer que seja. O que fazem pra mim é sempre muito bom. É difícil eu fazer melhor que eles.
É uma tradição do fado? De que os poetas e os grandes intérpretes não são a mesma pessoa?
Em algumas canções, tem sim. Mas, em regra geral, quem canta não escreve. E vice-versa. Eu gosto de fazer música.
Como você vê a evolução das relações culturais entre Brasil e Portugal? A impressão que a gente tem, no Brasil, é que o jornalismo e as pessoas de uma maneira geral não acompanham a cultura portuguesa com muita frequência.
É natural, eu acho natural.
Por quê?
Vocês tem tanta coisa pra se preocupar lá! (risos) Tem tanta música, tem tantos músicos... O Brasil tem tudo, a maior parte da música de lá é de boa qualidade. E é natural que o mercado esteja mais virado pra dentro e seja difícil conseguir entrar lá.
Mas não é estranho que a língua portuguesa não integre tanto o mundo lusófono?
Eu estranho um pouco...
Talvez não seja o seu caso, ultimamente.
Sim, no meu caso tem existido uma aproximação e é cada vez maior. Em 2012 temos o ano de Portugal no Brasil. Já estão preparados eventos, as coisas ainda estão muito vagas, não sei o que vai acontecer, mas sei que vai acontecer qualquer coisa já. O que tem que se fazer para que isso resulte em aproximação pela língua e pela cultura é nos tocarmos lá e os de lá tocarem cá.
Mas, da parte de Portugal, há mais interesse pelo Brasil.
(Sinaliza, indicando que não é bem assim).
Mais ou menos?
Mais ou menos. Quem é que vem a Portugal e enche salas? À exceção daquela horrível, aquela música "assim você me pega"...
"Ai se eu te pego!".
Vai fazer concerto aqui, está em primeiro lugar nas vendas. É uma loucura! Porque Cristiano Ronaldo dançou aí num jogo de futebol... Mas, tirando essas exceções, em Portugal, seguro de casa cheia é Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gilberto Gil.
E Maria Bethânia.
Bethânia também. Gal (Costa), Simone... Mas são os consagrados. Por exemplo, o Marcelo Camelo, que é um músico incrível, sei que muita gente adora, tocou aqui em Lisboa para uma sala de 200 pessoas. Ou seja, ainda são nichos no mercado. São coisas muito pequenas. É um número de público muito reduzido que vai aos concertos. Tirando os consagrados... É incomparavelmente mais caro do que lá (no Brasil).
E é uma aproximação mais da cultura de massa, das telenovelas?
É muito isso, as músicas que passam na novela, alguns artistas que atingem uma notoriedade por algum motivo. Por exemplo, a Maria Gadú fez esse disco com Caetano e já vai fazer show em algumas salas com dimensão. Ela vendeu bastante cá. Vanessa da Matta tem bastante público em Portugal desde aquele dueto com Ben Harper...
Chato aquilo, né? (risos)
São pequenas exceções. No geral, se você vai fazer o circuito no Bairro Alto, em algumas salas, tem músicos brasileiros a tocar. Certeza absoluta.
Mesmo o fado, em suas diferentes ramificações, tem diferentes tipos de público. O fado tradicional tem penetração entre o público jovem?
Agora já vai tendo, sabe? Imagina, no caso da Marisa, da Cristina Branco... O disco de Marisa de maior sucesso aqui em Portugal é o disco que ela fez com Jaques Morelenbaum, o "Transparente", que é um disco incrível. Nessa altura ela fez um concerto cá. Um grande concerto. Um concerto de fado para 40 mil pessoas, junto à Torre de Belém, nos jardins dali. Eu acho que a partir dali... Apesar de não ser tradicional, as pessoas ouvem e dizem: "Isso é interessante, como será o tradicional?". E sentem vontade de ouvir. Camené é um fadista tradicional, tem um imenso público, já enche o Coliseu. Carminho é uma fadista tradicional e já enche o Coliseu. Ela tem um timbre assim rouco...
Ela canta com muita paixão, né?
O Ricardo Ribeiro, já ouviste? Fisicamente, e com a voz, é muito parecido com... Como se chama aquele cantor brasileiro? Enorme...
Tim Maia?
Tim Maia! (risos) Tem um vozeirão incrível.
E as cantoras de fado? Quais as que você ouve e que estão próximas de seu trabalho?
Próximas não estão, mas eu gosto muito dos projetos da Cristina Branco, da Ana Moura, da Carminho e, depois, gosto muito do Camané e do Ricardo Ribeiro. São os cinco que eu gosto mais de ouvir. E que eu acho que têm os projetos mais interessantes.
Numa tasca em Alfama, tinha a Carminho e outras cantoras de fado, super-desimpedidas, cantando ali... É "Fado da Bela", uma casa de dois anos. Uma coisa improvisada. Carminho parecia como qualquer outra cantora que estava ali. Não tem uma rigidez. Ainda há muita liberdade desse universo do fado, não?
Começou a ser criado esse universo paralelo das casas, alternativo, para escutar fado. Porque antigamente tudo era resumido às casas de fado. E, hoje em dia, as casas de fado não têm qualidade artística. Como posso explicar isso, de maneira que os puristas do fado não... (risos) Quem canta nas casas de fado são fadistas já velhos, que veem aquilo como um trabalho - e uma arte não pode nunca ser pensada como um trabalho, aí começa errado - e depois as casas de fado querem manter...
Um folclore?
Um folclore, que é de uma decadência horrível. Mas querem manter um glamour que existia nos anos sessenta. Esse glamour, hoje, parece decadente. Já não faz sentido você ficar num restaurante fino a ouvir fados com um empregado de gravata. É tudo muito caro. Tu pagas muito caro. Se queres ir a uma casa de fado, aqui no Bairro Alto, regra geral, pois há sempre exceções à regra... Se eu sair de minha casa agora para ir a uma casa de fado, não saio de lá satisfeito. Ouves má música, músicos maus e com pouca vontade de tocar. Ouves fadistas maus e com pouca vontade de cantar. Tens um mau serviço de restaurante. E, no final, paga cento e tais euros por cada refeição. Ou seja, é tudo muito caro e o serviço não é bom. Há exceções! Há casas de fado muito boas, com bom elenco que se renova. Por exemplo, o Clube do Fado, em Alfama, uma casa em que pagas caro, mas que tem qualidade. "Sr. Vinho" também... Agora já não tem mais tanta qualidade, porque não estou lá a cantar! (risos) São casas que fazem questão de ter uma certa qualidade artística e também como restaurante, com uma boa cozinha.
Essa geração que renovou o fado nasceu desse outro movimento, de fado vadio?
Na verdade, quando eu vim para Lisboa, o sítio que eu ia mais vezes era uma casa desse gênero: o Bacalhau de Molho. Era assim. Os fadistas mais novos, da minha idade, que já cantavam em casas de fado tradicionais, quando terminavam de cantar nessas casas tradicionais, iam lá e lá então eles se divertiam, bebiam, conversavam... Aprendia-se muito da história dos fados tradicionais. Foi nesse ambiente que comecei a tocar no violão os fados, porque via como é que eles tocavam. E havia disponibilidade deles para ensinar.
Você vê isso como uma geração? É algo fechado? Você se integra a uma geração?
Eu acho que é um trabalho individual que, no fim, todos sairão a ganhar com isso. Mas não existe, acho eu, um trabalho de equipe, pensado...
Um movimento?
Não existe um movimento, uma Tropicália. Não existe nada disso. O que existe, sim, é uma série de pessoas que, com muita qualidade musical, cada um vai criando o seu público... Se calhar, quando o público ouve a mim, vai se interessar por Camené, Ricardo Ribeiro, Ana Moura, Carminho... E vice-versa. Os públicos vão se cruzando. É claro que há coisas pontuais que vão surgindo. Nas festas de Lisboa, vou cantar com Ana Moura ou com Carminho, vamos fazer concertos juntos e com Milton Nascimento, no final de junho. As festas de Lisboa são no mês de junho. Vamos fazer o concerto do encerramento.
Tem a ver com o São João, como no Brasil?
Em Lisboa é Santo Antonio. O dia de Santo Antônio é 13 de junho. São Pedro é 27. Mas tem, tem a ver com os santos de Portugal... Vai ter muitas festividade, concertos no Castelo São Jorge, shows no Museu do Fado, arraiais para as pessoas dançarem em vários sitios, principalmente nos bairros típicos.
A Amália, durante muito tempo, ajudou a afirmar o fado mundialmente. Mas, durante décadas, ela não projetou uma sombra sobre os novos fadistas?
Confesso que não sei. Mas a ideia que eu tenho, coincidência ou não, a Amália funcionava um pouco como eucalipto. Ela estava lá enquanto tudo à volta secava. Acho que não é propositado. Acho que isso, de fato, aconteceu, mas só aconteceu porque Amália tinha uma dimensão fora do comum. Nem sei se existe alguma coisa que se possa comparar no mundo. Porque ela tinha uma qualidade artística. Ela cantava e escrevia os poemas, fazias músicas, fazia tudo. Não fazia tudo em todos os discos. Mais pro fim da vida, até fez um disco só com os poemas dela.
Ela era aberta aos outros fadistas? Fazia saraus...
Era mais com poetas. Há um disco gravado dela com Vinicius. Com David Mourão-Ferreira, Ary dos Santos... Tenho esse disco aí.
Vinicius gravou nele o "Poema dos olhos da amada", que você regravou.
Nesse disco ele gravou uma música feita para Amália, "Saudades do Brasil em Portugal".
Linda música. Vinicius diz numa das gravações que o português precisava tirar a gravata...
Eu adoro isso! Eu adoro ele dizer isso! Ele disse em 1969. Nós estamos em 2012 e, não digo todos, mas 70% dos portugueses ainda estão com a gravata apertada! (risos)
Em Portugal, só se fala em crise econômica. Nas TVs, nas ruas, nos jornais... Você acompanha essas questões políticas?
Claro que, como cidadão, me interesso. O que sei é através dos jornais e do que vejo na televisão, nas notícias. O que está a acontecer, hoje em dia, é claro que a culpa é de quem gere. Mas, neste momento, não há nada a fazer, não adianta culpar quem lá está, porque as medidas são inevitáveis. Portugal tem aquela coisa: desde o 25 de abril, apesar de existirem outros partidos, parece que o poder é bola de ping-pong: quatro anos no PSD, quatro anos no PS, quatro anos no PSD... É assim o tempo todo. Eu acho que as coisas precisam ter tempo para amadurecer. O que esse governo está a fazer, qualquer governo que lá estivesse, fosse o PS, a esquerda, a extrema esquerda, a extrema direita, teria que tomar essas medidas. São erros do passado. Erros graves.
Foi um deslumbramento grande quando Portugal entrou para a União Europeia e começou a receber aqueles subsídios todos. Achavam que recebiam esses subsídios e não precisavam trabalhar para produzir. Mas o dinheiro acaba. É o que está a acontecer agora. Há o endividamento das famílias, há uma série de fatores. Estava aqui a ver a greve dos transportes públicos... Não é esta a solução. Em vez de as pessoas estarem sempre a responsabilizar o poder, nós é que temos que assumir nossa responsabilidade individual. Os fadistas trabalham individualmente, mas, no fim, acaba sendo igual para todos, porque todos tentam durar em termos de qualidade. Isso faz com que o público se interesse mais. Cada um tem que assumir a sua responsabilidade e tentar produzir um pouco mais, tentar fazer um pouco mais, tentar fazer com que o País enriqueça. É esta a solução.
Literariamente, do que você se nutre para seu trabalho? Lê poesia, romance?
Eu leio muita coisa. Sei lá. O último livro que eu li foi o "Milagrário Pessoal", de José Eduardo Agualusa. Leio muita coisa, não tenho assim autores de eleição. Gosto muito de ler poesia, não só poetas de língua portuguesa, mas também Pablo Neruda, coisas assim.
Você chegou primeiro ao Vinicius da poesia ou da música?
Logo na altura em que conheci o Vinicius, alguém me ofereceu, ou eu comprei, já não lembro, um livro de crônicas dele, "Para viver um grande amor". Esse foi o primeiro contato mais intenso com Vinicius. A música, eu já conhecia. Já conhecia o João Gilberto, o "Chega de Saudade", aquelas coisas todas. Como escritor, foi esse livro. Depois, o Chico Buarque, gostei muito de "Budapeste". Enfim, literatura é o que vai surgindo, vou lendo. Em Portugal, há uma voga de autores novos: Pedro Paixão, que eu gosto imenso, Gonçalo M. Tavares, valter hugo mãe, Pedro Mexia, Maria do Rosário Pedreira, que escreve também poemas para eu cantar, o Agualusa, o Mia Couto... É um pouco por aí.
Para finalizar, uma informação a mais: qual o nome do disco novo?
Quinto.
Por causa do Quinto Império?
Não, não! (risos) É "Quinto" só. Por uma série de coisas. Tocamos em quinteto, é o meu quinto disco e... Como eu sou António, não sei como funciona lá, mas na escola nós todos temos uma numeração. Eu, por ser Antonio, estava sempre ali no número cinco (risos). Quintilhas é uma forma poética que não é usual, mas, por coincidência, a maior parte dos poetas me mandaram quintilhas. Foi assim pensado e decidiu-se ficar como "Quinto". Também por uma falta de paciência para imaginar nomes para o disco!
O resultado ficou bacana?
Sim, acho que está muito interessante. É um disco com muitos temas originais.
Os fadistas novos estão com essa preocupação de lançar novos compositores?
Sim. Agora sim. De algum tempo pra cá não tanto. Mas, nos últimos três anos, tem acontecido isso. Inclusive os autores têm se aproximado dos fadistas para fazer. O José Luis Peixoto, o valter hugo mãe, o Pedro Paixão... Sei lá, tanta gente. Existe esse interesse em colaborar com a música. O Agualusa escreveu para o meu disco, o "Guia", e escreveu para este. Há uma série de escritores com essa vontade.
* com Claudio Leal e Rodrigo Sombra, em Lisboa
publicado no Terra Magazine (1ª parte e 2ª parte) em 01.03.2012
09:14 | Posted in cultura, made in portugal, mpb, world music | Read More »
Sugestão de TV | "Choro é Samba!"
Quarta-feira de Cinzas: para desabrandar do ritmo frenético da Avenida, proponho puxar uma cadeira, sentar na mesa do botequim e continuar no samba, mas com mais calma. Ficar no choro – porque choro é samba! –, na inspiração de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Pixinguinha, alguns dos grandes representantes desse género, criado no Brasil há mais de 130 anos. Ao contrário do que o nome sugere, o choro é alegre. Mais do que ritmo, é musica popular, instrumental, sofisticada e, acima de tudo, abusada de improvisos.
No vídeo, as honras da casa ficam por conta do francês de nascimento e carioca por convicção, Nicolas Krassik, e de Amélia Rabello, que carrega um sobrenome que é sinónimo de craques da música brasileira. Os dois cantam (e como!) e falam sobre o tema, no programa Samba na Garoa da TV Brasil. Delicioso!
20:03 | Posted in coisas do brasil, cultura, gente que vale a pena, mpb, MUSICA, SONS, vídeos, world music | Read More »
Carnaval do Rio 2012... em segundos!
Realmente, parece que esses dois dias passaram voando!... Agora, quase sete e meia da manhã no Rio: os holofotes se apagando, as baterias recuando aos barracões, junto com fantasias e alegorias e os integrantes dispersando. Logo, logo, de volta ao Conexão com os principais detalhes dos desfiles e bastidores da Sapucaí, onde o Norte esteve em força, com muitos amazónidas em destaque e os temas e a história da região do Amazonas a valer a homenagem na grande avenida do samba.
09:26 | Posted in ASTERISCOS, cadernos da amazónia, coisas do brasil, cultura, vídeos, world music | Read More »
Sugestão de palco: Gilberto Gil, hoje à noite no 'CCB Fora de Si'
O xote, o maxixe e o baião, ritmos do nordeste brasileiro, são recuperados hoje pelo cantor Gilberto Gil num concerto no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no âmbito do evento CCB Fora de Si.
O músico e ex-ministro da Cultura do Brasil regressa a Lisboa com o espetáculo "Fé na Festa", que adota o nome do álbum que editou em 2010 inspirado nos ritmos nordestinos e nas Festas Joaninas.
Com mais de meia centena de álbuns editados e oito prémios Grammy, Gilberto Gil junta-se ao cartaz do "CCB Fora de Si", que tem estado a decorrer nos espaços do Centro Cultural de Belém em julho e agosto.
10:06 | Posted in cultura, mpb, world music | Read More »
Brasília inaugura semana de homenagem a Amália Rodrigues
O Tributo a Amália Rodrigues aberto hoje para o público na Embaixada portuguesa de Brasília mostrará a estreita relação que a fadista possuía com o Brasil.
"Pouca gente sabe, mas os primeiros discos da Amália foram todos gravados no Brasil. Em 1945, ela se apresentou no Rio de Janeiro e o concerto teve uma repercussão muito grande", contou o curador da exposição Jorge Rodrigues.
Fã confesso da cantora, Rodrigues é ele próprio dono da coleção que esta semana compartilha com o público brasileiro."Desde os 13 anos faço duas coleções: uma sobre a Amália e outra sobre cantores de ópera", explica o organizador, ao contar que a ideia de realizar o tributo surgiu após o grande sucesso registado durante outro evento cultural, relacionado com Amália, no ano passado, também em Brasília.
Entrevista à TV Tupi, conduzida pela actriz brasileira Mariza Urban, a momentos de Amália dar inicio a um espectáculo em São Paulo, no ano de 1979: PARA VER AQUI.
O Centro Cultural da Embaixada de Portugal em Brasília abre as portas, esta semana, para um conjunto de eventos em homenagem à memória da fadista Amália Rodrigues.
De acordo com nota da Embaixada de Portugal, os eventos têm a coordenação do radialista português Jorge Rodrigues, que tem assiduamente colaborado com o Instituto Camões/Brasília.
Confira o programa divulgado pela Embaixada:
Dia 2 de Agosto, terça-feira
Projeção do filme de Bruno Almeida “The Art of Amalia", um documentário exaustivo sobre a carreira de Amália Rodrigues
Dia 3 de Agosto, quarta-feira
Projeção de um concerto de Amália Rodrigues na Roménia
Lançamento do Dicionário Ilustrado do Vinho do Porto, do brasileiro Carlos Cabral e do português Manuel Pintão
Dia 4 de Agosto, quinta-feira
Inauguração de exposição sobre Amália Rodrigues
Projeção de DVD gravado pela RTP - televisão pública portuguesa - sobre Amália
Jantar da Academia do Bacalhau em homenagem a Ana Paula Zacarias, embaixadora da União Europeia no Brasil.
Morada:
INSTITUTO CAMÕES - EMBAIXADA DE PORTUGAL
SES Av. das Nações, Quadra 801, Lote 02 - CEP 70402-900 Brasília-DF
Tel: (0xx61) 3032.9600 - Fax: (0xx61) 3032.9634
Site oficial
E-mail: geral@institutocamoes.org.br
Quem foi Amália?
Amália da Piedade Rodrigues (Lisboa, 23 de Julho de 1920 — Lisboa, 6 de Outubro de 1999) foi uma fadista, cantora e actriz portuguesa, considerada o exemplo máximo do fado, comummente aclamada como a voz de Portugal e uma das mais brilhantes cantoras do século XX. Está sepultada no Panteão Nacional, entre os portugueses ilustres.
Tornou-se conhecida mundialmente como a Rainha do Fado e, por consequência, devido ao simbolismo que este género musical tem na cultura portuguesa, foi considerada por muitos como uma das suas melhores embaixadoras no mundo.
Aparecia em vários programas de televisão pelo mundo fora, onde não só cantava fados e outras músicas de tradição popular portuguesa, como ainda canções contemporâneas (iniciando o chamado fado-canção) e mesmo alguma música de origem estrangeira (francesa, americana, espanhola, italiana, brasileira).
Marcante contribuição sua para a história do Fado, foi a novidade que introduziu de cantar poemas de grandes autores portugueses consagrados, depois de musicados. Teve ainda ao serviço da sua voz a pena de alguns dos maiores poetas e letristas seus contemporâneos, como David Mourão Ferreira, Pedro Homem de Mello, Ary dos Santos, Manuel Alegre, Alexandre O’Neill.
via Portugal Digital
O filme relata os principais momentos da carreira da fadista, com excertos dos espectáculos mais marcantes da sua carreira.
via Correio da Manhã
10:40 | Posted in coisas do brasil, cultura, gente que vale a pena, made in portugal, mire-se naquelas mulheres, world music | Read More »
Entretanto, em Goiás: XI Encontro de Culturas Tradicionais de 22 a 31 de Julho
Mais uma vez a Vila de São Jorge se prepara para receber o XI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. A produção envolve inúmeras pessoas que correm contra o tempo para que tudo aconteça como planejado.
Desde o ano de 2003 o Encontro é organizado pela Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge em parceria com a Associação Comunitária da Vila de São Jorge (ASJOR) e recebe o patrocinio da Petrobras. Agora tambem tem o apoio do SESI para o Encontro de Culturas Gastronomicas da Chapada dos Veadeiros.
No cartaz do evento a arte do Moacir desenhou São Jorge lá do alto em seu cavalo convidando para a festa. Como num passe de mágica nascem as ocas, os ranchinhos, o palco, a ornamentação que vão redefinindo o clima festivo.
Misturam-se as línguas, a arte, os desenhos e as cores formando a Babel cultural.
A tradição é revivida a cada ano com maior intensidade com as apresentações em shows, oficinas, rodas de prosa, encontro de capoeira, aldeia multiétnica, mostra de cinema, sem contar com a enorme diversidade física e intelectual que compõem o espaço.
A novidade é a inclusão do Festival Gastronômico do Cerrado que tem como objetivo divulgar os sabores do cerrado, a iniciativa é uma proposta para valorização cultural da gastronomia regional. Os produtos do Cerrado são difundidos na culinaria regional destacando pratos exóticos, a cerveja artesanal e a aromatização de vinhos.
A nova Aldeia Multiétnica surge às margens do rio São Miguel; a grande Oca é confeccionada pelos indígenas Yawalapiti seguindo a tradição desses povos indígenas do Alto Xingu liderados pelo cacique Anuia Ikaut Yawalapiti. Segundo ele, em sua aldeia existem 15 ocas que abrigam 300 pessoas. O arquiteto responsável é seu pai o cacique Aiupu Kamayura.
A movimentação na pequena vila de São Jorge de artistas e turistas de varios lugares consolidam o Encontro de Culturas Tradicionais Chapada dos Veadeiros como um dos maiores eventos culturais do Brasil.
(por Sinvaline Pinheiro)
O XI Encontro de Culturas
V Aldeia Multiétnica
A presença indígena tem sido marcante no Encontro de Culturas desde a sua criação. Criada em 2007, a Aldeia surgiu como uma forma de colocar o público em contato direto com os costumes, tradições e modos de vida das etnias indígenas, tendo a vivência como meio de ação.
Espaço de integração cultural, a Aldeia Multiétnica desenvolve atividades que visam promover a interatividade dos grupos indígenas entre si e com o público. Rodas de prosa, oficinas de artesanato e pinturas corporais, exposições fotográficas e exibição de vídeos produzidos pelos próprios índios ganharam seu espaço cativo. Questões relacionadas a território, à participação dos índios no ambiente urbano, ao patrimônio estético e cultural destes povos, suas reminiscências na cultura popular e a educação especializada passaram a ter um espaço cativo com debates direcionados.
Novo formato
De 2007 a 2010, as atividades da Aldeia ocorriam na Pousada Aldeia da Lua, nas proximidades da Vila de São Jorge. Em 2011, no entanto, surgiu a oportunidade de realizar a Aldeia Multiétnica de maneira mais intimista, tendo como mote a construção de uma oca xiguana, espaço que será destinado às próximas edições do evento.
Entre os dias 15 e 25 de julho, a Aldeia Multiétnica renasce. Os Yawalapiti, que são os anfitriões da festa, são também os responsáveis pelo início da construção da oca. A partir do dia 20 de julho, as etnias Kayapó, Kaxinawá, Parecí, Fulni-ô e Krahô chegam ao local para colaborar com a finalização da oca e dar início ao grande diálogo multicultural proposto. Desta forma, a partir desse ano, cada edição da Aldeia terá uma etnia anfitriã, que será responsável por comandar a vivência e receber as etnias convidadas.
A Aldeia receberá também a reunião do Colegiado Indígena, órgão que faz parte do Conselho Nacional de Política Cultural - CNPC, desenvolvido pelo Ministério da Cultura (MinC).Na tentativa de legitimar esta experiência intimista, o espaço da Aldeia Multiétnica apresentará mudanças também na visitação. Assim, entre os dias 15 e 21 de julho, as visitas poderão ser feitas apenas no final da tarde. A partir do dia 21, até o dia 25, o local estará liberado para visitação durante todo o dia.
Conceito
O conceito em torno dessa nova dinâmica sugerida pela V Aldeia Multiétnica parte dos costumes de etnias do Alto Xingu. Para elas, tudo tem um dono, seja ele um xinguano ou um espírito da floresta. Assim, os rituais são vistos como manifestações dos espíritos da floresta, aqueles alimentados e cuidados pelos seus donos humanos. O mesmo acontece com as festas. Quando há a construção da casa do dono de uma festa, toda a comunidade realiza um mutirão.
Em troca do serviço coletivo, o dono da casa dá uma festa e patrocina um ritual, que ocorre simultaneamente ao trabalho, provendo os instrumentos e a alimentação dos participantes e dos espíritos. A construção da oca da V Aldeia Multiétnica representa, portanto, a construção da casa do dono da festa.
Os índios Yawalapiti serão conduzidos pelo líder Anuiá, que aprendeu o ofício com o mestre Maniy'pWarakáKamayurá, conhecido como Maniwa, da etnia Kamayurá. Maniwa tem 63 anos, é natural do Parque Indígena do Xingu e mestre de referência na organização e realização das festas tradicionais na comunidade Yawalapiti.
PROGRAMAÇÃO
24 a 30 de julho
Na Praça do Artesão, ao lado da Casa Kalunga
Exposição “No Ciclo da Fé: vivenciando a romaria dos carreiros do Divino Pai Eterno”
Exposição fotográfica, exposição dos instrumentos usados na construção e lida do carro de boi, apresentação do filme-memória homônimo e diálogos com os visitantes e comunidade.22 de julho, sexta
Na Aldeia
16h |Abertura oficial com Povos Indígenas – rituais com cantos e danças
18h |Alvorada da Folia de São Sebastião - Comunidade Quilombola do Sítio Histórico Kalunga GO
Na Lona do Circo
19h |Circo Lahetô GO
No Palco
21h |Catirandê: uma mistura de ritmos, com Genésio Tocantins, Braguinha Barroso, Família Braga e os Catireiros de Natividade TO23 de julho, sábado
Nas ruas de São Jorge
16h |Giro da Folia de São Sebastião pela Vila de São Jorge – Visita e Bênção nas casas da vila
16h |XI Festival Internacional de Piadas, no Bar do Seu Claro
Na Igreja
18h |Arremate da Folia de São Sebastião - Comunidade Quilombola do Sítio Histórico KalungaGO
18h30 |Reza Tradicional da Comunidade Quilombola do Sítio Histórico KalungaGO
19h |Levantamento do Mastro do Divino Espírito SantoGO
19h30 |Sussa (pé do mastro) - Comunidade Quilombola do Sítio Histórico KalungaGO
20h |Procissão até o Palco com candeias
No Palco
20h |Folia de Crixás e Comunidade Quilombola do Sítio Histórico Kalunga GO
22h |Pé de Cerrado DF24 de julho, domingo
Nas ruas de São Jorge
12h |Império do Divino Espírito Santo da Comunidade Quilombola do Sítio Histórico Kalunga GO
17h30 |Cortejo “Viva a Diversidade Cultural” - Kalunga, Etnias Indígenas, Circo Laheto e artistas
No Palco
18h |Boi do Seu Teodoro DF
19h30 |Catira de São João da Aliança GO
20h |João Roque e Terezinha - Coco DF
21h |Dona Gracinha DF25 de julho, segunda
No Palco
19h |Batuque da Caçada da Rainha GO
20h |Junior Tana GO
21h |Filhos do Segredo GO
22h |Kleuton e Karen DF
23h |Viajarte GO26 de julho, terça
Na praça do artesão
14h |Rodada de leitura – “Maria da Catira”, com Nilva Bello
Nas ruas da Vila de São Jorge
18h30 |As Pastorinhas MG
19h |Grupo de Cultura Tradicional Serra da Mesa GO
No palco
20h |Zé do Pife e As Juvelinas DF
21h |Côco Maranhense – Comunidade Quilombola de Santa Rosa dos Pretos MA27 de julho, quarta
No Palco
20h |Mariana Carizzo ARGENTINA
20h40 |Terecô de Caixas, Caixeiras do Divino MA
22h40 | Tambores do Tocantins TO28 de julho, quinta
Na Praça do Artesão
14h30 |Narração de histórias – “Maria Preta Antônia dos Olhos d’Água”, com Nilva Bello
Nas ruas da Vila de São Jorge
17h30 |Cortejo com Zé do Pife e as Juvelinas DF
Na lona do Circo
19h |Espetáculo “O Circo quase só”, da Cia Itinerante Tem Sim Sinhô GO
No Palco
20h |Encontro de Violeiros “A reuni”: Dércio Marques, Pereira da Viola, Paulo Freire, João Arruda, Noel Andrade
23h |Tambor de Crioula do Quilombo de Santa Rosa dos Pretos MA29 de julho, sexta
Na Praça do Artesão
14h30 |Rodada de leitura – “Emília”, com Nilva Bello
No Palco
21h30 |Opereta A Véia e a Anta - Doroty Marques e Turma que Faz GO30 de julho, sábado
Na Praça do Artesão
15h |Narração de histórias para crianças, com Companhia Duberrô e Nilva Bello
No Palco
18h |Congo de Niquelândia GO e Moçambique de Fagundes (Cap. Júlio Antônio) MG
19h |Congada de Nossa Senhora do Rosário de Catalão GO
20h |Congada de Monte Alegre GO
21h |Samba de Côco Raízes do Arcoverde PE
22h30 | Towara Benin AFRICA
A Vila de São Jorge
É um povoado com cerca de 500 habitantes, a 35 km da cidade de Alto Paraíso (GO), no norte do estado. Criada por garimpeiros, a vila é a porta de entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.
Pequena e charmosa, São Jorge é cheia de atrativos. Além das belas cachoeiras e trilhas dentro do parque, há bons restaurantes e pousadas.
Como chegar
O acesso é por estrada de terra a partir de Alto Paraíso. Chega-se de carro, moto, ônibus ou bicicleta.
De Carro / Moto / Bicicleta
Partindo de Brasília, siga para a saída norte, sentido Planaltina. Dirigindo em frente, cerca de 10 km depois de Planaltina, você deverá pegar uma saída à direita seguindo a indicação de Alto Paraíso. Siga em frente, passando por São Gabriel e São João D'Aliança. Chegando em Alto Paraíso, há uma placa indicando a entrada para São Jorge (você deverá fazer a rotatória no portal que está em construção). São 37 km de estrada: 20 de asfalto e 17 de terra. Verifique seu combustível, e caso necessário, abasteça em Alto Paraíso. Em São Jorge não há posto de gasolina. Vá com cuidado e devagar.De ônibus
Real ExpressoTel.: (61) 2106-7100
Brasília - Alto Paraiso diariamente - 10h / 21h
Alto Paraiso - Brasilia diariamente 13h15 / 01h30
Santo Antonio
Tel.: (61) 3234-3997
Brasília - São Jorge, única linha direta: diariamente às 11h (saídas na Rodoviária do Plano Piloto)
Brasilia - Alto Paraiso diariamente - 07h / 11h / 15h
São Jorge - Brasília, única linha direta: diariamente entre 09h30 e 10h
Alto Paraiso - Brasília, diariamente - 07h10 / 10h / 15h
Sao José
Tel.: (62) 3224-8330
Goiania - Alto Paraiso diariamente às 20h / Terça, quinta e sábado às 12h
Alto Paraíso - Brasília diariamente às 23h / Segunda, quarta e sexta-feira às 14h
OBS.: Os horários estão sujeitos a alteração. Recomenda-se entrar em contato direto com as empresas responsáveis.
Rodoviária Alto Paraíso - 62 3455 1359
Centro de Atendimento ao Turista (CAT) / São Jorge - 62 3455 1090
Centro de Atendimento ao Turista (CAT) / Alto Paraíso - 62 3446 1159
Pousadas, chalés e campings |
Pousadas:
Pousada Luz do Sol - 62 9805 2439
Pousada Toá Rosa - 62 3455 1043
Pousada Recanto da Paz - 62 3455 1030 / 62 9669 4046
Pousada Nova Aliança - 62 9677 0675/ 61 9839 7009
Pousada Chalé do Cerrado - 61 9677 5575 / 62 9295 7968
Pousada Novo amanhecer - 62 9941 3922
Pousada Shamballa - 62 3455 1140
Pousada Baguá - 62 8233 3816 / 62 3455-1046
Pousada Trilha Violeta - 62 3455 1088 / 61 9985-6544
Pousada Casa Grande - 62 3455 1064 / 62 3446 1388 / 61 9623 5515
Pousada Água da Esperança - 61 9971 6314
Pousada Café Bambu Brasil - 61 9554 5686 / 62 3455 1004
Pousada Águas de Março - 61 9962 2082
Pousada Mundo dha Lua - 61 9983 8577
Pousada Cristal da Terra - 62 3455 1052
Pousada Refúgio - 62 9672 7929
Pousada Caminho das Cachoeiras - 62 3455 1045
Pousada Da Nenzinha - 62 3455-1023
Pousada Alecrim do Campo - 62 3455 118
Pousada Flor do Cerrado - 62 3455 1138
Shan Pousada e Terapias Naturais - 61 9602 8220 / 61 9691 9680
Albergues
Casa da Sucupira - 62 3455 1139
Maloca da Maluca - 61 8111 2947
Chalés
Chalés Luar da Chapada - 62 8418 0932 / 62 9981 4404 / 61 9807 8908
Pousada Chalé do Cerrado - 61 9677 5575 / 62 9295 7968
Chalés Céu Azul - 62 9232 0373 / 62 9966 4050 / 62 3455 1102
Campings:
Camping Dourado - 62 9987 1443 – Em frente a Pousada Cristal da Terra
Camping Alegre – Ao lado da Pizzaria Lua de São Jorge
Caminho do Parque - 62 3455 1046 – Sentido Parque Nacional
Camping dos Sonhos - 62 9969 3524 – Ao lado do Restaurante Buritis
Camping Kalabura - 62 3455 1047 - Descendo na Rua da Pousada Trilha Violeta
Camping do Pelé - 62 3455 1107 - Na Praça Principal
Camping da Chapada – Ao lado da Pousada Luz do Sol (Centro de São Jorge)
Camping Quarto Crescente - 62 8119 9227 – Subindo na Rua do CAT
Camping Casa da Jia - 62 3455 1001
Camping Mangabeira - 62 9966 3669 - na Rua da Pousada Flor do Cerrado
Restaurantes, pizzarias e lanchonetes |
Restaurante da Nenzinha – 62 3455 1023
Restaurante Sabor do Cerrado – 62 3455 1062
Restaurante da Téia – 62 3455 1068
Restaurante Buritis – 62 3455 1044
Restaurante Casa das Flores – 62 3455 1049
Pizzaria Massas de Jorge – 62 3455 1022
Pizzaria Chapadoccia – 62 3455-1068
Pizzaria Luar com Pimenta (Bar do Bodinho) - 62 3455 1048
Pizzaria Lua de São Jorge – 62 3455-1054
Papa Lua Delícias – 62 3455 1085
Tapiocaria Buritis – 62 3455 1044
# Site oficial | Facebook | Twitter
12:59 | Posted in cadernos da amazónia, coisas do brasil, cultura, essa coisa de viver em sociedade, navegações na rede, world music | Read More »
15 mil pessoas viram ao vivo Chico Buarque a cantar na Internet
Quinze mil pessoas assistiram à apresentação que Chico Buarque acabou de fazer na Internet do seu novo disco "Chico". A apresentação em directo a partir do site Chico: Bastidores durou trinta minutos e foi feita a partir da casa do compositor e cantor no Rio de Janeiro.
Na imagem, antes das oito da noite em Portugal aparecia um relógio a marcar o tempo de espera. Ao lado, num chat ao vivo os internautas iam mandando mensagens. Pouco depois Chico apareceu, sentado numa cadeira e com o violão nas mãos agradeceu aos produtores, ao João Bosco e aos internautas que ao longo deste mês compraram o disco na pré-venda no site Chico: Bastidores e ganharam uma senha para assistir ao que se passou na gravação do disco. "Já estou começando a ficar esperto nisto, mas se vocês não me perguntarem coisas eu não vou saber o que falar", disse. "É legal isso das músicas terem ido pingando através da Internet" e isso "favorece o entendimento das canções".
Nessa altura, a imagem estava boa mas o som estava aos soluços. Chamou depois João Bosco ("João, vamos trabalhar!") e como o som continuava a dar problemas Bruno Natal, um dos responsáveis pelo site e realizador e produtor do documentário sobre as gravações, explicou que iam sair do ar para que fosse possível resolver o problema do som. Foi necessário desligar o chat e isso fez com que os problemas de som ficassem resolvidos. "Já entrei ou preciso de entrar de novo?", perguntava baralhado João Bosco. E começaram a assobiar os dois. Os músicos cantaram ao vivo "Sinhá", que faz parte do disco e que foi feita em parceria pelos dois, e conversaram sobre diversos assuntos.
Falaram de futebol, de amigos da praia (do cantor Mário Sérgio), das pesquisas que fizeram na Internet nomeadamente para a letra desta canção. Chico explicou a João Bosco o que é um "meme" ("os caras pegam uma frase sua e aplicam isso a um filminho") e outras coisas da Internet como os comentários que as pessoas fazem. "Eu sei que não sou amado há muito tempo, desde o começo. Há gente que entra nesse site, paga, só para detestar, 'Ah deixa eu detestar mais um bocadinho'. Mas o que é que eu estava dizendo mesmo?", diz Chico. Quase no final a produção pediu ao cantor que repetisse aquilo que tinha dito no início para aqueles que não tinham conseguido apanhar por causa dos problemas de som. “Vão pensar... O velho está com problemas, repetindo as falas todas (risos)", brincou o músico.
A determinada altura avisaram o músico que as quinze mil pessoas que estavam a assistir à transmissão ao vivo estavam a enviar mensagens a pedir "bis". Foi então que Chico optou por cantar mais uma canção, "Nina", e explicou que a sua amiga portuguesa, a cineasta Teresa Villaverde lhe tinha pedido uma canção para o seu próximo filme, "Cisne", a estrear em Setembro, e ele deu-lhe mesmo com medo de ficar com menos uma inédita do seu disco. Mas como o filme atrasou, a canção será lançada no disco como inédita.
NOTA do Conexão: se perdeu na hora, vá até lá agora. Chico e a Biscoito Fino têm um entendimento generoso da liberdade no ciberespaço e o registo em vídeo do momento está online: acessível a todos. O endereço segue em baixo.
# Site oficial: AQUI.
22:43 | Posted in coisas do brasil, cultura, mpb, MUSICA, navegações na rede, SONS, world music | Read More »
Elba Ramalho festeja 30 anos de carreira com CD e DVD novos
via Estúdio i
A grandiosa 'Rainha do Forró' que a Ópera do Malandro revelou relembra momentos da vida e de uma carreira que soma 30 discos e mais de 300 shows. Para assinalar os 30 anos de estrada que entretanto se passaram, Elba Ramalho acrescenta ao acervo um novo CD e DVD gravado ao vivo no recife: Marco Zero.
22:27 | Posted in cultura, mire-se naquelas mulheres, mpb, vídeos, world music | Read More »
Entrevista a Márcio Debellian: «Um brasileiro pode estar na Amazónia, mas vai ter um radiozinho de pilhas»
Palavra (En)Cantada, passa logo à tarde na RTP2, quando forem 15h e é imperdoável não ver [PARA ASSISTIR AQUI]. É um documentário delicioso acerca do papel íntimo que a palavra desempenha na música brasileira, onde participam Adriana Calcanhotto, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, BNegão, Chico Buarque, Ferréz, Jorge Mautner, José Celso Martinez Correa, José Miguel Wisnik, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Lenine, Luiz Tatit, Maria Bethânia, Martinho da Vila, Paulo César Pinheiro, Tom Zé e Zélia Duncan. Tem ainda a particularidade de resgatar imagens de arquivo sublimes de Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Tom Jobim.
Sinopse:
É um documentário de longa-metragem (86min), que percorre uma viagem na história do cancioneiro brasileiro com um olhar especial para a relação entre poesia e música. Dos poetas provençais ao rap, do carnaval de rua aos poetas do morro, da bossa nova ao tropicalismo, Palavra (En)cantada passeia pela música brasileira até os dias de hoje, costurando depoimentos de grandes nomes da nossa cultura, performances musicais e surpreendente pesquisa de imagens.
A maioria das entrevistas foi realizada na casa dos entrevistados, em atmosfera intimista, com o registro de declamações e canções especialmente para o documentário. Poemas de Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Hilda Hilst e pérolas de nossos grandes compositores conduzem o roteiro do Palavra (En)Cantada. Entre as músicas do filme estão Choro Bandido (Chico Buarque/Edu Lobo), Alegria, Alegria (Caetano Veloso), Alvorada (Cartola), História do Brasil (Lamartine Babo), Inclassificáveis (Arnaldo Antunes), Fábrica do Poema (Adriana Calcanhotto/Waly Salomão), 2001(Tom Zé/Rita Lee) e O Mar (Dorival Caymmi).
O documentário, dirigido por Helena Solberg, estreou nas salas brasileiras a 13 de Março de 2009 e, nesse ano, foi o 4º documentário mais visto no país, tendo vencido o prémio 'Melhor Documentário' no Festival de Cinema do Rio de Janeiro do ano passado.
O Hugo Gonçalves conversou com Márcio Debellian, o autor da ideia, guionista e produtor, acerca dessa viagem pelo cancioneiro brasileiro, na tentativa de ajudar a «perceber porque é a MPB tão gostosa, safada e bem cantada».
Segue a entrevista, via Skype, com o economista carioca que, quando deu por si, estava no cinema. Tudo «por causa da música». E de Maria Bethânia. Para ler na íntegra clicando no link a baixo, juntamente com a review do documentário, publicada por altura da sua estreia no Brasil, em Abril de 2009.
Um dos mistérios da música brasileira é a sua qualidade e a forma como letra e música encontram tantas vezes o namoro perfeito. Descobriste qual era esse mistério com o teu documentário?
Essa não era a pretensão inicial do filme. Mas fomos chegando próximo desse mistério. Uma das frases que escolhemos para abertura do filme é de um poema de Augusto de Campos: "Estou pensando no mistério das letras de música tão frágeis quando escritas, tão fortes quando cantadas." Só lá chegámos durante o processo, não pensei, "vou mergulhar nesse mistério", foi algo mais afectivo, a paixão pela música e poesia, a soma de afectos dos entrevistados, da directora [Helena Solberg], dos pesquisadores. Fui parar no cinema por causa do afecto pela música. E foi ela que também me aproximou do universo literário.
No filme há um lado mais académico, através dos especialistas entrevistados, e outro mais emocional, trazido pelas palavras dos músicos. Qual é a diferença?
Fomos enlaçando todos os depoimentos e percebendo que cada músico se aproximara da literatura e da música de forma diferente, cada um tem a sua história pessoal. Lirinha, por exemplo, fala do sítio do avô dele, que era cantador. Com os artistas tínhamos o universo pessoal de cada um deles pulsando nas palavras. E mesmo os académicos com quem falámos são todos poetas ou compositores ou músicos. Foram eles que deram uma forma, que enlaçaram tudo, foram os pilares de entendimento do filme.
Um desses académicos, José Miguel Wisnick, que também é músico, defende que a falta de formação de muitos brasileiros fez com que a música fosse o maior veículo de informação e de transmissão de histórias e de arte, muito mais que a literatura.
A música nunca substituirá a importância do livro, mas o Brasil tem uma tradição oral muito forte. A música é uma arte acessível a todos. Um brasileiro pode estar lá no meio da Amazónia, mas vai ter um radiozinho de pilhas. É a arte mais democrática. E como dialoga muito com a literatura e a poesia, os grandes poetas acabam chegando às pessoas. Muitas vezes elas nem sabem que estão ouvindo João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade ou Fernando Pessoa. Estudei em boas escolas, tive uma educação privilegiada, mas a literatura não me chegou pela escola. Apaixonei-me por Pessoa ouvindo Maria Bethânia. Se você tem 11 anos e está na escola e alguém lhe diz, "O poeta é um fingidor/ finge tão completamente...", aí você quer ir para o recreio, está preocupado com a bagunça que quer aprontar. Mas se é um pouco mais velho e vai num show da Bethânia, no qual ela costura todas as músicas com a poesia de Fernando Pessoa, você é tomado por um arrebatamento que te obriga a sair dali para ir ler Pessoa e mergulhar nesse universo. Há muitos poetas que só descobri em livro depois de ouvi-los em canções. A música abre caminho, não soluciona o problema da educação.
O Lenine diz no filme que a tradição musical brasileira tem base nos trovadores provençais. Vai assim tão longe?
Penso que o Lenine se referia à ideia de andar de cidade em cidade cantando, carregando os instrumentos, que é típica no Nordeste do Brasil, tal como acontecia com os trovadores. Os trovadores eram cronistas, fofoqueiros, contavam histórias, usavam a sátira.
Em Portugal a Amália conseguiu trazer os grandes poetas para o fado, cantou Camões, o que por alguns foi considerado uma heresia. A bossa nova fez a mesma coisa no Brasil?
Sem dúvida que a bossa nova rompeu esse caminho e abriu fronteiras. O Vinicius de Moraes era um poeta sofisticado, um diplomata, e começou a fazer letras para canções. Depois dele houve uma sucessão de grandes poetas trabalhando com música - o Waly Salomão, o Arnaldo Antunes, o António Cícero. Vinicius aproximou a poesia e a música.
No entanto, o Chico Buarque insiste no filme que não é poeta.
Por causa da forma como trabalha. Aquelas palavras que ele escreve acontecem por conta de uma música que pré-existe, são feitas para encaixar com aquela melodia e formar uma canção, esse nó muito subtil da harmonia e da letra. É também uma forma de se resguardar, porque os poetas têm muita inveja, ficam falando dele. Os artistas brasileiros acabam virando pensadores e porta-vozes de questões nacionais. O Caetano Veloso é chamado a dar opinião sobre todos os assuntos importantes. Os estudiosos, os especialistas, os poetas ficam incomodados porque o Chico escreve romances, é um compositor popular e ainda vai ganhar o título de poeta? Se a gente for pensar na coisa mais sublime que a poesia pode nos causar, naquilo que as suas palavras provocam, na sua beleza, então o Chico é um poeta.
Há um lado de divindade nalguns músicos brasileiros, há quase uma idolatria mística. É mais que ser famoso. Como foi lidar com eles durante as entrevistas?
No caso da Bethânia só tínhamos vinte minutos e nessa hora baixa o santo e você tem que trabalhar. O Chico Buarque foi muito generoso, nos convidou para ir na casa dele, e fez umas piadas, disse: "Se é para cantarolar sai mais caro". No momento me pareceu uma situação muito tensa, mas quando vi as imagens era a coisa mais engraçada e simpática. Com estas entrevistas, aprendi a deixar o ídolo no canto dele, a não me aproximar de mais. É trabalho. O fã fica em casa.
Quantas vezes já viste a Maria Bethânia em concerto?
Não tenho noção, no primeiro show que fui, repeti muitas vezes. Concerto de Bethânia passou a ser programinha, se estava um show dela em cartaz, ia lá no domingo, tomar um drink. Se tem, eu estou indo.
E esse teu fascínio pela música da Bethânia também está na origem deste documentário.
Se não houvesse Bethânia não haveria "Palavra (En)cantada". Ela abriu clarões na minha vida. Para o filme foi fundamental. Toda essa paixão, todo esse interesse pela poesia que aprendi com ela, desembocou no filme.
No processo de pesquisa, encontraram imagens importantes e desconhecidas.
Foi fundamental para a construção do filme, que precisava de respirar. Buscámos imagens muito antigas de Carnaval, que não existem aqui. Encontrámos na BBC e na CBS. Conseguimos coisas em França. Quando chegavam essas imagens eu chorava de alegria.
Qual é o fascínio dos brasileiros, dos mais ricos aos mais pobres, pelo Roberto Carlos, e por que não aparece ele no filme?
O Roberto Carlos é o Rei. Aquelas melodias, aquelas letras... É o sentimento do povo brasileiro. Desde que me lembro como gente que Roberto Carlos tem um Especial de fim de ano na TV Globo. Não tem como explicar o amor das pessoas por ele. E só não está no filme porque não topou - a gente convidou. Também não daria para ir lá e fazer uma coisa pequena, ele é muito maior.
Cá ouve-se muita música brasileira. Aí não se ouve música portuguesa.
Não sei porquê. Não sei se é o ritmo, se é o sotaque da língua falada. Não entendo, porque o inglês não tem ligação com a nossa língua e toda a gente sai cantando. Não entendo, nós falamos a mesma língua e soa tão diferente. A televisão abre muito caminho, vocês vêem programas brasileiros há muitos anos, o ouvido fica habituado. Nós não estamos tão acostumados ao vosso português. Mas fico muito feliz que o filme passe aí.
Houve, nos últimos anos, uma explosão de documentários no Brasil, e o cinema brasileiro é bem visto no exterior, realizadores como Fernando Meirelles, Walter Salles ou José Padilha são convidados por Hollywood.
No ano passado, vários filmes passaram da marca de um milhão de espectadores, "Tropa de Elite 2", um filme sobre Chico Xavier, e há muita comédia. O brasileiro procura cada vez mais filmes nacionais. O país está crescendo e a indústria está acompanhando, as políticas de incentivo ao cinema são mais consistentes, há pessoas a trabalhar continuamente, melhoram, os directores podem fazer vários filmes. Começa a haver indústria. E os documentários musicais viraram uma febre. Quando o "Palavra (En)cantada" foi lançado no festival do Rio, competia com sete documentários musicais. E a febre continua, quase sempre focada numa figura musical: Elza Soares, Raul Seixas, Vinicius de Moraes, Maria Bethânia, Caetano Veloso. Nesse aspecto, este filme é diferente, não se centra apenas numa personagem, é sobre um sentimento, um afecto.
Tim Maia, Cazuza, Elis Regina, Raul Seixas e uns quantos mais morreram cedo. Não há demasiados músicos brasileiros a partir de forma trágica e precoce?
Isso é no mundo inteiro. Há artistas cuja matéria-prima do seu trabalho é o sentimento, as suas entranhas, escavam mais fundo para criar, no coração, no estômago, entrando em regiões que muitas pessoas não se arriscariam. E para lidar com isso metem muito bebida, muita droga, depois o corpinho não aguenta.
O filme fecha com esta frase de Adriana Calcanhotto: "Minha música não quer ser útil, minha música só quer ser música, minha música não quer pouco." Porquê?
É uma música com a qual namorei durante muito tempo e, quando fui entrevistar a Adriana, foi o primeiro tema que pedi para ela tocar, não sabendo bem porquê. Nunca imaginei que fecharia o filme, mas encaixou porque a conclusão, no final, não é minha, é de quem vê o filme, foi uma forma de dizer "tem muita gente falando neste filme, muita coisa dita, mas é você que decide o que sente e o que fica com você. É uma forma de retirar qualquer pretensão ao filme. E também porque é uma música muito feliz.
publicado no jornal i
Palavra Encantada: um filme de Helena Solberg
A poesia é a maior das artes, sendo capaz de tangenciar todas as outras e mantendo, ainda assim, suas próprias normas, formas e sons. Existe sozinha, dispensa acompanhamentos. O documentário Palavra Encantada faz a poesia dançar pela voz de grandes músicos e poetas brasileiros e nos faz descobrir que nenhum conceito por essas terras consegue ser tão simples.
Para alguns estudiosos e observadores da literatura, a poesia se caracteriza por uma criação artística que existe sozinha: tem suas regras, suas formas, seus sons próprios e estes a fazem plena unicamente em si, podendo dispensar acompanhamentos. É comum que numa roda, reunindo esses mesmos estudiosos e observadores da literatura, lá pelas tantas, pelo quarto copo de vinho, alguém declare a sentença: Chico Buarque, por exemplo, não é poeta, é músico. A partir daí a conversa, antes consenso, vai virar uma discussão sem fim e depois de meses, dois ou três daqueles amantes das letras ainda estarão se odiando mortalmente. Fatalmente vão produzir alguns tratados que não nos tocarão em nada.
Palavra [En]cantada é um filme que ronda o mistério das palavras ditas e entoadas sem chegar perto desse tipo de debate onde um bom e velho veneno da vaidade academicista sempre mata um pouco mais a gente. Dirigido por Helena Solberg, com argumento de Marcio Debellian, o documentário segue uma reflexão a respeito dos momentos em que música brasileira e poesia convergiram.
Através do depoimento de grandes nomes da música nacional, Sodenberg nos leva a fogo brando pela história e escolas da música brasileira; dos morros cariocas à periferia de São Paulo, passando pela Bahia e pelo mangue pernambucano. O documentário parte da idílica existência dos trovadores, aqueles artistas medievais que inventaram a poesia musicada e a espalharam de tal forma que são considerados o marco zero da literatura como hoje a conhecemos. A partir daí nomes como Tom Zé, Lenine, Maria Betânia, Martinho da Vila, Lirinha do Cordel do Fogo Encantado, BNegão e o próprio Chico Buarque, vão falar sobre a presença da poesia em suas canções e dão versões sobre o porque e do como esses encontros acontecem.
O filme traz ainda imagens de arquivo recuperadas, algumas nunca vistas, como as de carnavais na Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro e encenações de Morte e Vida Severina pelo grupo de teatro da PUC (o primeiro a montar a peça, em 1965), além de raridades como a entrevista de Caetano Veloso, falando sobre porque combinou na sua música Coca-Cola e Brigite Bardot, e apresentações de repentistas do Nordeste em meados do século passado.
Na junção de todos os seus segundos e coisas ditas, Palavra [En]cantada nos faz descobrir muito mais sobre música, poesia e brasilidade do que muitos foram capazes de fazer. A contribuição é enorme: enfrentar a particularidade do caso nacional, onde a palavra escrita não conseguiu até hoje criar raízes fortes e onde a literatura só pôde se expandir através da oralidade - o que nos torna indivisíveis da maior parte da África - e abre um novo leque de possibilidades para entendermos a absurda riqueza de formas e sons da nossa língua e da nossa música. Solberg e Debellian pariram um filme essencial para quem ainda acredita que a beleza salvará o mundo.
publicado na Obvious Magazine
Cf. também
11:50 | Posted in coisas do brasil, cultura, FOTOGRAFIA, gente que vale a pena, mpb, vídeos, world music | Read More »








