Boom Festival: livre, mas ecológico por natureza e convicção




A lua cheia está quase a dar o sinal de partida para a nona edição do Festival Boom. Este ano, entre 28 de Julho e 4 de Agosto, em Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, pessoas de todo o mundo voltam a reunir-se para uma semana de “alinhamento com a natureza”.

A criação de uma consciência ambiental tem sido, ao longo das várias edições, uma das fortes premissas do Boom. E este ano, além de não ser excepção, torna-se mais ambicioso ao apresentar o projecto Boom Off the Grid, que tem como objectivo tornar, a curto prazo, a herdade auto-sustentável.

O exemplo é dado já durante o festival com duas das principais áreas - Healing Area e Sacred Fire - a apoiarem-se apenas em energias renováveis, seja através da utilização de painéis solares fotovoltaicos ou do reaproveitamento de óleo usado para alimentar geradores. As restantes áreas continuarão a receber o apoio das estações solares térmicas e eólicas existentes na Herdade desde 2008.

Contudo, esta é só uma das muitas facetas “verdes” do Boom. Existem, pequenas quintas de permacultura, que após mês e meio de terem sido plantadas, já estão bem diferenciadas da paisagem.

Uma fito-etar - estação de tratamento de águas residuais que através de uma vegetação específica, consegue purificar as águas – já construída em 2008, assegura que quase 100% das águas sejam reaproveitadas.

E não esquecer as 200 casas banho de compostagem, em que todos os resíduos produzidos podem ser depois utilizados para adubarem os terrenos. “Trata-se de casas de banho iguais às usadas em outros festivais de verão, mas neste caso sem danos para o ambiente. São construídas com materiais reutilizáveis e não necessitam de químicos no tratamento das fezes”, disse André Santos, responsável pelos projectos de sustentabilidade do Boom Festival.

“Por vezes, acho que as pessoas têm medo destas casas de banho. Chamo a isso fecofobia. No entanto, outros festivais europeus estão interessados em replicar este tipo de casas de banho”, acrescentou.

Alguns dos espaços do festival aproveitam ainda materiais do Rock in Rio. Já em 2010, isto tinha acontecido. Uma equipa de trabalhadores do Boom, coopera na desmontagem do Rock in Rio e em troca, os materiais que iriam para o lixo, são utilizados nas construções do Boom.

Em 2008 e 2010, o Boom foi galardoado com o Greener Festival Award Outstanding. Em 2010, acumulou ainda o prémio Green'n'Clean Festival of the Year nos European Festival Award, além de ter sido convidado pela ONU para fazer parte da United Nations Environmental and Music Stakeholder Initiative, projecto com vista a promover a consciência ambiental junto do grande público.

Fica o filme da edição de 2008. São 54 minutos para assistir na íntegra e entrar no espírito do Boom:


link

09:12 | Posted in , , , | Read More »

FMM 2012: "Torna-te um descobridor em Sines!"

Já conhece o anúncio de televisão da edição 2012 do Festival Músicas do Mundo, que se realiza entre 19 e 28 de Julho, em Sines? Ora veja! O anúncio foi inteiramente produzido com recursos humanos e técnicos da Câmara Municipal de Sines, desde a ideia original à produção executiva, realização, edição e pós-produção. Para dar uma ajuda, contou com a parceria do Teatro do Mar e da Escola das Artes de Sines, bem como com a participação de cerca de 50 voluntários. Ficha técnica: IDEIA ORIGINAL, PRODUÇÃO, CONCEPÇÃO TÉCNICA E REALIZAÇÃO Câmara Municipal de Sines VOLUNTÁRIOS Sarah Santos Rúben Filipe Ana Ferreira Alexandra Tavares Jorge Custódio Rita Matos Andreia Matos Sérgio Santos Patrício Oliveira (Kalu) Nuno Assunção Tânia Estrela André Pacheco (Júnior) Vanessa Mariano David Ribeiro Nuno Landim Beatriz Santos Danilo Abdula Elisabete Parreira André Sousa Mauro Figueira Tatiana Prata Sara Franco Lúcia Fonte Isamara Lopes João Matos Vera Ferreira Inês Vieira Cátia Henriques Fábio Batista Flávio Martins Maria Parada Tamara Antunes Jorge Pina Cristina Fernandes GUARDA-ROUPA, CABELOS E MAQUILHAGEM Teatro do Mar (Maria Matos e Sandra Santos) Patrícia Moiteiro MÚSICA "Taamala Fisa (It's Good to Travel)" - Zita Swoon Group, extraída do disco "Wait for Me" (2012, Crammed Discs) AGRADECIMENTOS Bombeiros Voluntários de Sines Capitania do Porto de Sines Ecoalga (Joaquim Parrinha e João Goucha) Centro de Artes de Sines Casa da Juventude de Sines Escola das Artes de Sines Trinca Espinhas Kalux Escola de Surf do Litoral Alentejano Ana Palma (c) Câmara Municipal de Sines julho 2012

21:10 | Posted in , , , | Read More »

Documentário: "Belo Monte, anúncio de uma Guerra"


Para assistir na íntegra:

 

Documentário independente filmado ao longo de 3 expedições à região do rio Xingu, Altamira (e arredores), São Paulo e Brasília. Apresenta imagens e fatos reveladores sobre a maior e mais polémica obra em andamento no Brasil.

A edição e finalização foram financiados colectiamente por mais de 3.429 pessoas, que apoiam a campanha no site  Catarse.

* versão em inglês: AQUI

19:30 | Posted in , , , | Read More »

Disco | Jamaica - "I Think I Like U 2"


Formerly dubbed Poney Poney, Frenchmen Antoine Hilaire and Flo Lyonnet have taken on the new band name of Jamaica. And to go along with the new moniker, they’ve also given us some new tunes by way of the single "I Think I Like U 2."

The slick, hooky and very European track comes from the popsters’ upcoming, as-yet-untitled debut full-length, which is being produced by Justice's Xavier de Rosnay and Daft Punk sound engineer Peter Franco. The album isn't due out until August, but the sweet-sounding "I Think I Like U 2" can be downloaded over here for the price of an email.

There’s also a pretty hilarious video for "I Think I Like U 2," which is directed by Ed Banger artist-in-residence dude So-Me. As the press release states, “His brilliant idea was to structure the video relaying the band’s history from A to (fabricated) Z.  The video follows the musicians from their modest beginnings and the formation of the band through JAMAICA becoming an overwhelming international success to their fall into psychedelic trips and eventually jail.”

Check it out below: 




Directed by So-Me and Machine Molle
Jamaica is Antoine Hilaire and Flo Lyonnet.
"I Think I Like U 2" produced by Xavier de Rosnay and Peter J. Franco.
www.jamaicanoproblem.fm
www.myspace.com/ithinkilikejamaica
www.twitter.com/jamaicatwit


via Exclaim Magazine

14:22 | Posted in , , , | Read More »

MPB | O Esquema apresenta "O Violão"


A idéia original era uma mixtape de verão, chamando alguns DJs brasileiros para remixar hits gringos naquele final de 2008 hoje distante. Mas já era verão no Brasil e os DJs estavam soltos pelo país - impossível achar alguém que pudesse dar uma certeza sobre a data de entrega das versões, fora a possibilidade de deixar o projeto banguela caso algum artista remixado se incomodasse com o resultado ou com o fato de estarmos deixando sua faixa para download em MP3. Depois de algumas madrugadas pendurados no Gtalk, trocando emails e um ou outro telefone, eu e o Bruno desvirtuamos completamente o conceito original a partir das limitações: em vez de pedir para mexer em músicas alheias, pedimos versões para músicas próprias; em vez de remixes que inevitavelmente daria ao disco um clima meio esquizofrênico, pedimos versões acústicas, minimalistas, usando apenas o violão. E antes de começarmos a pedir músicas para músicos e artistas que são mais amigos e comadres do que propriamente astros e estrelas (prefiro assim), percebemos que o formato acústico tinha mais a ver com aquele verão que ia acabando do que uma mixtape para dançar. Mais do que isso: à medida em que os artistas demoravam para entregar o material (alguns, houve quem entregasse em fevereiro), percebíamos o quanto a compilação ganhava ares de fim de verão, quase outonal. E, ouvindo as faixas no inverno do ano passado, decidimos lançá-la quase na Páscoa, como se o clima das “Águas de Março” de Tom Jobim pudesse ser espalhado por toda uma compilação.
Decidido o nome, chamamos a querida Caroline Bittencourt para bolar uma capa para a coletânea. Ela foi além: propôs um ensaio na oficina de um luthier conhecido dela, o Murilo. Ao vermos as fotos, nem tivemos dúvida: o instrumento era tão central ao trabalho que não havia outro nome para dar à coletânea, juntando artigo e substantivo só para fazer o paralelo com OEsquema. Pelo meio do segundo semestre do ano passado, OViolão estava completo.
OViolão é o terceiro lançamento dOEsquema. Mas não somos um selo, não nos estranhe. Depois de termos lançado discos de amigos - o Bruno sugeriu o Big Forbidden Dance do João Brasil e eu desenterrei o Alguma Coisinha do Dodô, ambos discos coalhados por samples -, resolvemos ampliar o conceito só pelo prazer do lançamento. E apesar de ser um trabalho de dedicação minha e do Bruno, ele vem sendo acompanhado, de perto, por nossos dois outros sócios, Mini e Arnaldo, que sugeriram nomes, fizeram convites e propuseram soluções.
A forma de distribuição dOViolão é simples: durante os próximos dias, despejaremos, tanto no Trabalho Sujo quanto no Urbe, cada uma das faixas da compilação, numa média quase diária. Elas estarão apresentadas tanto num vídeo embedado do YouTube, sempre com uma foto diferente de Caroline, e num link para download da canção. Ao final, juntamos tudo num arquivo compactado para quem quiser ouvir o disco na ordem que imaginamos. Não ganhamos um tostão para fazer isso - nem nós, nem os artistas envolvidos. Pagamos apenas o custo das fotos de Caroline. É um trabalho coletivo feito principalmente com carinho. E nessa época de volume no talo e enxurrada de informações, estamos propondo algo para ouvir baixinho. Sob o sol, mas baixinho. Não tem release, nem rodada de entrevistas com os artistas, não tem foto de divulgação, nem assessoria de imprensa. Vamos blogar e twittar: linka quem quiser, baixa quem tiver vontade. Pra que pressa, né?
Começo a semana com a inédita de Lulina “Mentirinhas de Verão”, gravada em fevereiro do ano passado. Ela explica: “É uma versão com som de fim de verão da música ‘Mentirinhas’, composta por mim e lançada no final do ano passado (2008), no disco caseiro Aos 28 Anos Dei Reset Na Minha Vida. Quem produziu esta nova versão foi Missionário José, nos estúdios da Jardel Music, tocando todos os instrumentos e fazendo um arranjo tão melancólico quanto voltar para a realidade depois de umas boas férias”. O produtor completa dizendo que a faixa “se destaca pelo aspecto Led Zeppelin do final“. Do outro lado da linha, o Bruno apresenta uma inédita da Ava Rocha, veja lá.
E amanhã tem mais.

por Alexandre Matias


Lulina - “Mentirinhas de Verão

A faixa está no projeto "OViolão", de Bruno Natal e Alexandre Matias (mais detalhes aqui). Vale conferir o que mais entrou na coletânea virtual (ouça aqui e aqui). Tem muita coisa boa.

OEsquema apresenta: “OViolão”


foto: Caroline Bittencourt / design: Dimáquina

O pacote com a coletânea completinha: OEsquema apresenta: “OViolão”.
Pra saber mais detalhes do projeto é só ler os dois textos de apresentação escritos por mim e pelo Matias no dia que as músicas começaram a pingar por aqui.

1. Lulina - “Mentirinhas de Verão”
2. AVA - “Filha da Ira”
3. Lucas Santtana - “Nighttime In The Backyard”
4. Wado - “Frágil”
5. João Brasil - “Orgasmadance”
6. Burro Morto - “Navalha Cega (Violas)”
7. Frank Jorge - “São Tantas Tendências”
8. Momo - “Mas É o Fim”
9. Curumin - “Solidão Gasolina”
10. Kassin - “Pra Lembrar”
11. Nina Becker - “Polyester Tropical”
12. Gabriel Thomaz - “248-6279″
13. CéU - “Cangote”
14. Do Amor - “Mindingo”


sexta-feira, 2 de abril, 2010

OViolão: CéU, “Cangote”


CéU, “Cangote” (OViolão)
Fechando a tampa da coletânea “OViolão”, vem a CéU, se derretendo nessa versão ainda mais intimistas de “Cangote”. Logo vem a coleta inteira em um arquivo só.

quinta-feira, 1 de abril, 2010

OViolão: Gabriel Thomaz, “248-6279″


Gabriel Thomaz, “248-6279″ (OViolão)
Com esse nome esquisito, não teve como não perguntar ao Gabriel Thomaz (do Autoramas) o porquê (Matias, conterrâneo de Brasília, já tinha matado a charada):
“Esse prefixo 248 é o prefixo antigo do Lago Sul, bairro de Brasília que tem as QI (Quadra Interna) e as QL (Quadra do Lago). Poderia ser uma QL, mas o Matias acertou, era QI 5 conjunto 2. Fico feliz em saber que você entendeu tudo agora. :)”
Bem no começo, a idéia do projeto era que os artistas gravassem da maneira mais simples possível, o que valia era o registro. A turma foi se empolgando e quando todas as gravações chegaram, estavam todas tão bem acabadas em termos técnicos que perguntei ao Gabriel se ele queria refazer e a dele. A resposta foi:
“Imaginei que a galera ia caprichar quando vi quem ia entrar, mas eu quis fazer assim mesmo, bem primitivo, sou muito mais Mummies do que Muse. Não sou inseguro. Se você for masterizar, queria que puxasse só volume, pra ficar bem estourado e sujo.”
Rrrrock!

quarta-feira, 31 de março, 2010

OViolão: Kassin, “Pra Lembrar”


Kassin, “Pra Lembrar (OViolão)
Kassin faz uma releitura de uma música que já gravada anteriormente. Sai a guitarra, entra o violão. Ou quase isso.

terça-feira, 30 de março, 2010

OViolão: Frank Jorge, “São Tantas Tendências”


Frank Jorge, “São Tantas Tendências (OViolão)
O rei do Sul, Frank Jorge, desce a lenha nos modismos, produzindo para isso um hit que brinca justamente com “tantas tendências”.

segunda-feira, 29 de março, 2010

OViolão: João Brasil, “Orgasmadance”


João Brasil, “Orgasmadance (OViolão)”
Refazendo o mashup “Orgasmadance” utilzando apenas um violão para produzir todos os ons, João Brasil mostra seu lado acústico.

sexta-feira, 26 de março, 2010

OViolão: Lucas Santtana & Seleção Natural, “Nighttime in the Backyard”


Lucas Santtana & Seleção Natural, “Nighttime in the Backyard
Antes do lançamento oficial do “Sem  Nostalgia”, o Lucas Santtana estava soltando as músicas, uma a uma, no seu próprio saite. Com a coletânea “OViolão” na agulha, pedi pra incluir essa belezura “Nighttime In The Backyard” no disco, o que foi autorizado. Com o atraso da coleta, perdemos a exclusividade. Mas não importa, continua sendo uma alegria ter uma faixa dessas na compilação.

quinta-feira, 25 de março, 2010

OViolão: Lulina, “Mentirinhas de Verão”


Lulina, “Mentirinhas de Verão (OViolão)
Invertendo a mão, começo hoje a postar as músicas que saíram no Trabalho Sujo antes de soltar a coletânea inteira, em um só link. Em clima de fim de verão, Lulina fez uma versão da sua própria “Mentirinhas”, lançada originalmente no disco “Aos 28 Anos Dei Reset Na Minha Vida”, de 2007.

quarta-feira, 24 de março, 2010

OViolão: Do Amor, “Mindingo”


Do Amor, “Mindingo (OViolão)”
Hoje é a vez Do Amor, a super banda formada por Ricardo Dias Gomes, Marcelo Callado, Gustavo Benjão e Gabriel Bubu, e essa versão descontraída de “Mindingo”.
Visite o Trabalho Sujo para baixar a outra música do dia: CéU, “Cangote (OViolão)”.

terça-feira, 23 de março, 2010

OViolão: Nina Becker, “Polyester Tropical”


Nina Becker, “Polyester Tropical” (OViolão)
Composta para o seu disco solo, Nina Becker fez um arranjo totalmente diferente para essa versão de “Polyester Tropical”. Gravada na Fábrica de Monstros, estúdio do Benjão, Bubu e Marcos Thanus. Ficou muito fino.
Visite o Trabalho Sujo para baixar a outra música do dia: Gabriel Thomaz, “248-6279″.

segunda-feira, 22 de março, 2010

OViolão: Curumin, “Solidão Gasolina”


Curumin, “Solidão Gasolina” (OViolão)
Como disse, “OViolão” era para ter sido lançado há um ano atrás. Tendo participado do disco “Sem Nostalgia”, do Lucas Santtana nessa época e estando por dentro desse papo de reconstruir o formato voz e violão, Curumim foi um dos primeiros nomes que pensei pra essa coletânea.
O que o Curumin fez nessa versão de “Solidão Gasolina” só confirma que ele tinha mesmo que estar.  Uma reconstrução musical, onde não faltou disposição pra explorar o violão inteiramente.
Visite o Trabalho Sujo para baixar a outra música do dia: Kassin, “Pra Lembrar” (OViolão).

quinta-feira, 18 de março, 2010

OViolão: Momo, “Mas É O Fim”


Momo, “Mas É O Fim”
O Marcelo Frota, do Momo, foi um dos primeiros a responder ao convite para participar da coletânea “OViolão” e foi também o primeiro a enviar a sua faixa. Mais do que ver sua música circulando, ele estava curioso para ouvir as versões dos outros artistas, perguntando sempre. Com nossa demora pra lançar as músicas, a antes inédita “Mas É O Fim” acabou saindo numa compilação da revista +Soma. Como ele era um dos mais entusiasmados não deu nem pra ficar triste. Foi justo.
Visite o Trabalho Sujo para baixar a outra música do dia: Frank Jorge, “São Tantas Tendências”.

quarta-feira, 17 de março, 2010

OViolão: Burro Morto, “Navalha Cega”


Burro Morto, “Navalha Cega” (OViolão)
A psicodelia do Burro Morto corre solta, mesmo longe das tomadas e baseadas no violão. Os paraibanos praticamente inauguram um novo gênero, progressivo caipira, numa música ensaiadinha e ainda assim tão viva que soa como um improviso.
Visite o Trabalho Sujo para baixar a outra música do dia: João Brasil, “Orgasmadance” (OViolão).

terça-feira, 16 de março, 2010

OViolão: Wado, “Frágil”


Wado, “Frágil (OViolão)”
O nome do Wado foi um dos primeiros a serem lembrados para coletânea. Figura totalmente d’OEsquema, sua participação era fundamental. Por isso, foi com muita tristeza que recebemos a negativa do Wado, que estava doente na época, sem poder gravar.
A tristeza foi tão grande que superou o bom senso. Mesmo sabendo que ele não podia, insistimos e insistimos. Até que ele se lembrou que tinha essa versão de “Frágil” ainda inédita e, com os vocais já gravados, era apenas questão de fechar o instrumental.
Felizmente, Wado já está melhor e sua música aqui na coletânea. Deu tudo certo, como sempre acontece com as boas coisas.
Visite o Trabalho Sujo para baixar a outra música do dia, Lucas Santtana,“Nighttime in the Backyard”.

segunda-feira, 15 de março, 2010

OViolão: AVA, “A Filha da Ira”


AVA, “Filha da Ira (OViolão)”
Começamos hoje a soltar as músicas da coletânea “OViolão”, d’OEsquema.
Eu e o Matias simplesmente convidamos alguns artistas que gostamos para produzirem versões cruas (baseado no voz e violão, mas não preso a isso) de uma de suas músicas, suavizando a produção e valorizando a composição. O Mini e o Arnaldo também colaboraram com idéias e contatos. Dá um pulo no Matias fala que ele mais um bocado dessa história.
É tanto uma chance de ouvir músicas com menos elementos quanto é uma boa trilha para esse fim de verão. Muita gente bacana participou, tem bastante música boa vindo por aí.
Chamamos a a Caroline Bittencourt para fazer a foto da capa e ela acabou fazendo um ensaio com um luthier, gerando uma imagem para cada música. A arte da capa e dos vídeos foi feito pelos amigos do estúdio Dimáquina.
Na verdade, o lançamento está atrasado que só. A coleta era pra ter sido lançada nessa mesma época, só que no ano passado. Ficamos esperando o lançamento da nova página inicial do portal (que esse ano finalmente vem!) e o resto é  história.
Vamos soltando as músicas a conta-gotas, de uma em uma, até o final, quando pinta um pacote com todas as músicas.
Abrindo a sequência, Filha da Ira (OViolão)”, da AVA, filha de Glauber Rocha, cantora de timbre muito peculiar, forte, contrastando com essa música delicada.
Visite o Trabalho Sujo para baixar a outra música do dia: Lulina, “Mentirinhas de Verão (OViolão)”.

13:09 | Posted in , , , , | Read More »

Entrevista | Leci Brandão, operária do samba


Uma das primeiras mulheres a entrar para uma ala de compositores no machista universo do samba carioca, Leci Brandão tem muita história para contar sobre a sua trajetória e o samba, que conhece desde que se entende por gente. Filha de servente de escola pública, sempre se orgulhou da vida e da educação que teve. Por outro lado, seu pai escutava em casa, além dos sambistas e chorões clássicos, ópera e jazz. Dançou twist e curtiu Elvis Presley, se encantou com a batida de violão de Jorge Ben, além da bossa nova, sobretudo Elis Regina. 
Mas o samba sempre teve primazia em sua trajetória, que completa 35 anos, com mais de 20 discos lançados. Uma das primeiras cantoras a entoar músicas de protesto, Leci Brandão pagou o preço por isso, quando o pessoal da sua então gravadora, a Poligram, sugeriu que alterasse o repertório do LP que lançaria em 1981. Preferiu romper com a gravadora, e voltaria aos discos cinco anos depois.
Na conversa a seguir, a compositora de "Zé do Caroço" fala sobre essas histórias e outras, que detalham a entrada para a ala de compositores da Mangueira; a parceria com Cartola no programa Ensaio, de Fernando Faro, para a TV Cultura, em 1974; as influências; suas letras e o engajamento social que sempre estiveram vinculado ao seu trabalho. Ou melhor, à sua vida. Uma vida que merece respeito e serve de exemplo como uma trajetória a ser seguida e que ela repetiria novamente.
"Faria tudo de novo, não me arrependo de nada. Pelo contrário, tudo que eu fiz me deu alicerces", sintetiza Leci, em mais de 40 minutos de boa conversa. Acompanhe.

Você foi uma das primeiras, senão a primeira mulher, a entrar para a ala de compositores da Mangueira. Como foi isso? 
Leci Brandão. Eu quero começar pelo cordão umbilical. Eu sou neta, filha e afilhada de três mulheres mangueirenses. Minha avó era pastora da Mangueira, minha mãe e minha madrinha também. A gente morava no Morro da Mangueira. Minha afilhada mora lá até hoje. Então, a Mangueira sempre foi uma coisa muito comum na minha família. Tinha um amigo nosso, chamado Zé Branco, que era tesoureiro da ala de compositores. E quem teve a idéia de me levar para a ala foi ele, porque sabia que eu era compositora, que participava de festivais em colégio, e ele resolveu me apresentar lá, isso no ano de 1971. Os compositores se reuniam toda terça-feira numa garagem ali no centro da cidade, na Avenida Passos. Na época, o presidente era o senhor José Bregugério, e ele perguntou o seguinte: “Mas o que essa garota veio fazer aqui?”Aí falei: “Olha, já sou compositora e gostaria de aprender mais nessa universidade”. Já tinha participado de alguns festivais estudantis. “Você faz o seguinte: semana que vem você vem aqui e faz uma carta.” Na terça-feira seguinte eu fui lá com a cartinha. Tinha quase 40 homens nessa reunião, e eles resolveram: “Você vai ficar simbolicamente aqui, vai ter que fazer um estágio. Vai começar a apresentar seu trabalho, seus sambas de terreiro para a gente ver, analisar. E se você passar no final do ano, ano que vem você entra na ala”. Aí entrei na ala em 1972, foi o primeiro ano que desfilei na Mangueira, já na ala de compositores, com a carteira da ala. Passei no teste.

Como foi abrir as portas para as mulheres no universo do samba, tinha muito preconceito? 
Leci Brandão. Na minha época, já tinha Dona Ivone Lara no Império Serrano. E eu não sabia da existência de compositoras em outras escolas. Depois fiquei sabendo da Dona Aidê, que era do Salgueiro, a Giza Nogueira, irmã do João, que foi para a Portela. O que a gente tinha conhecimento eram essas compositoras. Eu cheguei na Mangueira de uma forma muito natural. Fui aceita, cumpria os regulamentos da ala, chegava nos ensaios no horário determinado, ajudava a fazer o livrinho de presença, cantava o samba dos meus companheiros; tinha compositores que faziam sambas belíssimos, mas que não tinham uma voz legal para cantar. Então eu cantava samba de todo mundo lá. Eu era, na verdade, meio crooner na escola. Quando tinha festa, dia de São Sebastião, eu saía uma semana antes, passava nas fábricas de biscoitos, chocolate, para arrumar o café da manhã da nossa festa. Tinha uma grande casa de alimentos na época, onde conseguia feijão, coisas para a feijoada. Então eu estava sempre procurando colaborar como uma integrante da ala de compositores, sem nenhum favorecimento. Tratando todo mundo com muito respeito, muito carinho, mas nunca pedindo que houvesse nenhum comportamento diferenciado pelo fato de ser mulher. Tanto é que eu entro na ala em 1972, e em 1974 eu já estava concorrendo a uma final de samba enredo. Nunca venci samba enredo na Mangueira, mas todas as vezes que concorri fui às finais. Por isso que eu digo que eu sou hexacampeã de vice-campeonato. Porque a maioria dos meus sambas tinha uma conotação política, a maioria voltada para alguma coisa social –acho que a escola de samba também tem que ter esse papel –, mas nunca consegui vencer. Acredito que o fato de eu ter entrado em uma escola tão tradicional, tão antiga, como a Mangueira, evidentemente, deve ter favorecido a entrada de outras mulheres em outras alas de compositores.

Você vai gravar o primeiro LP em 1975, com o Marcus Pereira. Foi o Sergio Cabral que teria te indicado...
Leci Brandão. O Sérgio [Cabral] me viu cantando na Mangueira. A Ligia Santos, filha do Donga, freqüentadora da escola e muita amiga dele, me via cantando nas rodas de samba de lá. Então o Sérgio me conheceu em 1973, cantando lá. Ele me disse o seguinte: “O dia que você quiser gravar, fala para mim”. Mas eu trabalhava, estudava na Gama Filho, enfim. Tanto que, antes do Sérgio, o Jorge Coutinho me convidou para fazer parte da noitada de samba do Teatro Opinião. E aí comecei a entrar no elenco fixo do teatro. Tinha Xangô da Mangueira, conjunto Nosso Samba, um monte de gente cantava lá. E acabei entrando. Depois disso, fui fazer parte de um show que teve em Ipanema, na boate Pujol, o Unidos do Pujol. Tinha Dona Ivone Lara, Roberto Ribeiro, a mãe da Camila Pitanga, Vera Manhãs, um grupo lá de Brás de Pina, chamado Realidade do Samba, e a gente. O show era dirigido pelo Sérgio Cabral e pelo saudoso Albino Pinheiro. E nesse show algumas pessoas prestaram atenção também no meu trabalho. Até que veio o contrato com a Marcus Pereira e, enfim, nós gravamos o primeiro LP em 1975. Mesmo ano em que participo do festival Abertura, da Rede Globo, e fui até as finais. 

Nesse primeiro disco, qual foi o repertório, quem você chamou para gravar? 
Leci Brandão. O primeiro LP teve direção do Zeno Bandeira. Porque, embora o Sérgio Cabral fosse o meu descobridor, na hora que eu fui fazer o LP foi o Zeno. Ele apresentava aquela roda de samba em Vila Isabel, que era uma coisa maravilhosa. E o Zeno chamou o Maestro Ivan Paulo. E nesse LP, me lembro que a base foi feita pelo conjunto Nosso Samba, junto com o Coro das Gatas. E, além das minhas composições, gravei Dedé da Portela, Jorginho Peçanha, do Império Serrano, Suely Costa e Toco, da Mocidade Independente. Me lembro bem desses outros autores, no primeiro LP.

A Marcus Pereira estava lançando, por essa época, os primeiros discos de Cartola. Como é que foi, você já conhecia ele? 
Leci Brandão. Eu já conhecia o Cartola de Mangueira. Tanto que, quando teve o lançamento do Antes que eu volte a ser nada, esse primeiro LP, foi na quadra da Mangueira, com sopa de ervilha feita por Dona Zica e quem cantou lá: Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, todo mundo foi a esse lançamento. Então eu já conhecia o Cartola, porque Dona Zica era freqüentadora da casa de minha madrinha, que morava no morro. Então, Dona Zica me conheceu pequena ainda. Eu me lembro que uma vez o Cartola, numa feijoada, essas coisas de comida que tinham l na casa dele, chegou lá o Candeia, já na cadeira de rodas, estava o Ary do Cavaco, o [José Ramos] Tinhorão, um crítico muito rígido do Jornal do Brasil. Aí as pessoas começaram a cantar e rolou um partido alto. E uma coisa que eu tinha aprendido na Mangueira é que, quando alguém cita o seu nome no partido, você tem que responder. Então, o meu primeiro teste foi lá no quintal da casa do Cartola. E quando teve o lançamento do LP do Cartola, nos fizemos shows juntos, em uma casa chamada Jogral. Teve o Sesc lá de São Paulo, que era um teatro pequeno de arena, fizemos o teatro Payol, em Curitiba, e o teatro da Universidade de Belo Horizonte. Era o Cartola cantando as coisas dele. E isso acabou resultando em um programa do Fernando Faro, chamado Ensaio, que agora, recentemente, a Trama transformou em DVD. Naquele DVD eu não tinha nem gravado o disco ainda. Tava só na coisa da Mangueira.

E como era o Cartola, a convivência com ele?  
Leci Brandão. Muito simples, muito calmo. Na verdade, não tive uma convivência de dia-a-dia com ele. Mas fui uma pessoa que ele elogiou, que reconheceu como uma pessoa que iria contribuir para os compositores da Mangueira. Eu só não tive o privilégio de fazer música com ele. Era uma pessoa muito natural, sabe? Não tinha essa coisa de celebridade, não gosto disso, não quero aquilo, não faço. Aliás, o povo do samba, na sua maioria, é assim. As pessoas não têm nada de excepcional. Todo mundo é normal, come feijão com arroz, se quiser tomar uma cervejinha, toma, se quiser ficar descalço, fica, se quiser andar a pé, anda. E o povo mais antigo, inclusive, era bem mais simples que o povo de hoje. O povo de hoje é muito cheio de manias, é muito folclore. Eu não sou muito chegada a essas coisas não.

As suas letras sempre têm um engajamento, uma questão social. Como se deu essa opção? 
Leci Brandão. A minha própria vida. Sou uma pessoa que vem de uma origem humilde. A primeira música que eu fiz foi por causa de um sentimento amoroso. Mas, a partir do momento que eu me descobri compositora, todos os sofrimentos que passei, as lutas, reivindicações, jogava para as minhas músicas. Haja vista que, bem antes de Mangueira, em 1965, entre o pessoal do Colégio Pedro II, eu tinha uma amiga que morava no Leblon, era da mesma turma. Ela tinha uns amigos ligados a Une, ali na Praia do Flamengo. E a gente fez um show na Une só com músicas politizadas. Foi uma coisa muito legal, essa experiência que tive como compositora. Depois vieram festivais de colégios, participei do festival da Gama Filho. Primeiro festival da Gama foi em 1970 e fui a revelação do festival com o samba que está nesse primeiro LP. Um samba chamado “Cadê Marisa?”, que fala da história de uma passista, que se tornou capa de revista e não quis mais saber da escola de samba. Então a minha vida, o meu cotidiano, de moradora de subúrbio, passageira de trem, operária de fábrica, depois eu fui telefonista, carreguei marmita, enfim. E observando a vida das pessoas com as quais eu convivi, foram surgindo as composições. Porque não toco nenhum instrumento de harmonia – não toco violão, cavaquinho, nada. Deus foi tão bom comigo, que ele já manda letra com a música junto. E só tenho um gravador na mão para não perder o fio melódico, se não é complicado.

Poderia falar sobre a rescisão com a Poligram, em 1981. Foi também o momento da composição de “Zé do Caroço”... 
Leci Brandão. “Zé do Caroço” estava no repertório. Estava na época de fazer um novo trabalho, reservei algumas músicas e levei. Aí, depois de uma reunião, eles disseram para que eu voltasse para casa, tentasse fazer um novo som, pois naquele momento não era aquilo que eles queriam. Naquela época era [Sidney] Magal estourado, Lady Zu, era outra coisa que estava na mídia, não sei te explicar. E aí fui pra casa, fiz uma cartinha de demissão e saí da Poligram. Fiquei cinco anos sem gravadora, e sem gravar.

E como foi, para alguém que é compositora, tinha gravado o primeiro disco há cinco, seis anos, tomar essa decisão? 
Leci Brandão. Fui procurar fazer outros projetos, como os do Sesc, fiz o projeto Seis e meia, participação em shows de movimentos sindicais, movimentos das minorias. Tinha um amigo que dizia que em todas as encrencas brasileiras eu estava envolvida, as pessoas sempre me chamavam para participar dos seus shows. Então eu ia, e sobrevivia fazendo show em tudo quanto era canto. E sem ter gravadora. Aí, quando retornei, em 1985, pela gravadora Copacabana, foi muito bom, porque já tinha passado por essa coisa de não ter empresário, não ter estrutura, não ter nada, mas sobreviver artisticamente. Voltei com outra visão. E nessa segunda gravadora, o dono da Copacabana [Adiel de Carvalho], disse o seguinte: “Quero que você faça exatamente tudo que fazia, só que eu quero que você dê um tratamento de acompanhamento musical um pouco mais simples, para o povão poder entender”. O povo mesmo. Porque eu era cultuada mais pelos intelectuais, pelo pessoal mais elitizado, que gostava da música de protesto. Mas o povo, na verdade, não via, na conseguia enxergar isso, talvez até pela forma com que a minha música era apresentada, muita orquestra, mais sofisticada. Então a gente, com o Alceu Maia, parte para um outro caminho, mais só de violão, cavaquinho, mais pagode de mesa, mesmo. Aí eu me torno uma grande vendedora de discos, discos de ouro, e foi muito bom.

Poderia contar a história de “Zé do Caroço”, que é uma música muito emblemática do seu trabalho? 
Leci Brandão.  “Zé do Caroço” foi uma coisa que Deus mandou para mim. Eu sabia da história dele. Um amigo meu, jornalista, Antonio Claudio, que trabalhava no jornal O Dia, morava na Rua Petrocostino. Eu sabia que tinha um serviço de alto-falante do Zé do Caroço lá no Morro do Pau da Bandeira. Ele falou assim: “Agora você vê: tá morando um militar num prédio lá na Petrocostino. E a mulher dele outro dia foi fazer denúncia na polícia, porque ela quer assistir à novela e o serviço de alto-falante do Zé está atrapalhando a novela dela, um absurdo”. E eu fiquei com essa história na cabeça. Que coisa incrível. E você sabe que essa coisa militar, antigamente, tinha muita força. Essa música foi composta em 1978. Apresentei essa música para a Poligram, para o meu disco de 1981, e ela foi vetada. Compus “Zé do Caroço” dirigindo. Vim fazer alguma coisa na Zona Sul, estava de carro – já morava na Tijuca nessa época – e, quando chegou ali no Leme, na Av. Princesa Isabel, entrando no túnel, veio, né?: “Um serviço de alto-falante...” Fiz a música dirigindo. Quando cheguei na Tijuca, a música já estava pronta. Aí botei no gravador – aquele Panasonic grande, tijolão – para não esquecer. Aí chamei o pessoal da minha banda na época, para a gente poder ajeitar a harmonia direitinho. Embora não saiba tocar, eu digo para o músico o que ele tem que fazer. Se ele não fizer aquilo que está no meu ouvido é uma confusão danada. E toda contente, né? Quando fui apresentar o repertório, “Zé do Caroço” estava lá no bolo. E eles: “Não, a gente não vai gravar essa música, não”. Só fui gravar “Zé do Caroço” em 1985; ela foi feita em 1978. Ou seja, demorou sete anos para ser gravada. Aí foi regravada nos anos 1990 pelo grupo Art Popular, em São Paulo. Depois, pelo grupo Revelação, aqui do Rio, em 2000. Depois regravou Seu Jorge, Mariana Aydar, que me convidou para gravar junto com ela. “Zé do Caroço” começou a entrar em vários CDs, DVDs, tem uma série de regravações. Está sendo levado agora para a Europa, tem um povo lá na Espanha, fazendo a tradução da letra. E tive o prazer também de fazer um show no Teatro João Caetano [na Praça Trandentes, Rio de Janeiro] e levar o Zé do Caroço, o próprio, para ficar no palco na hora que estava cantando a música dele.

Quais foram os grandes nomes que te inspiraram e te inspiram? 
Leci Brandão. Ouvi muita coisa, lá em casa meu pai tinha muitos discos de 78 rotações. A gente ouvia Jamelão, Carmen Costa, Ângela Maria, Alaíde Costa, Ademilde Fonseca, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Bienvenido Granda, um cantor cubano, autor de um bolero chamado “Perfume de gardênia”, que meu pai ouvia 20 vezes por dia. Mas tinha dias em que ele queria ouvir uns discos imensos de ópera de Caruso. De repente, ele comprava discos de Louis Armstrong, ouvia Tommy Dorsey, Peter York, Doris Day. Lá em casa se ouvia um pouquinho de tudo. Porque quem tinha vitrola, dançava dentro de casa. Então o que que era o pagode? Era você botar um monte de disco lá, e todo mundo dançava. Você fazia uma festa em casa, um batizado ou um aniversário de alguém, e as pessoas sabiam dançar de tudo, desde chorinho até foxtrote, era uma loucura. O meu ouvido teve várias informações de tudo isso que escutei. Curti o rock n’ roll, Elvis Presley, dancei twist nas festas do colégio, ouvi Little Richard. Depois veio o calipso, essa onda toda. Eu me lembro que teve um ano em que fiquei em segunda época em uma matéria no colégio e meu pai quebrou todos os meus discos de rock. Falou que eu tinha ficado em segunda época porque estava ouvindo rock demais.
Mas o samba, eu ouvia naturalmente, porque a gente ia pros ensaios da Mangueira – ainda não havia o Palácio do Samba, ela lá na cerâmica – Darcy da Mangueira, Zagaia, Geraldo das Neves, esse povo todo. Então o samba na minha vida era uma coisa muito natural, sabe? Acho que é por isso que as minhas primeiras músicas são sambas. E na Mangueira apreendo uma coisa legal. Porque sempre via todo mundo tocar pandeiro, mas na Mangueira eu vi Zagaia e Padeirinho tocarem perto de mim, e um dia peguei um pandeiro e saí tocando, tanto que toco só partido alto, nenhuma outra coisa. A questão de tocar tantan, já é uma coisa espiritual. Minha mãe freqüentava umbanda e eu via lá os ogans tocando aqueles atabaques, desde pequena. A percussão entra na minha vida de maneira natural, pela família. Por isso que a percussão é muito presente no meu trabalho. Sempre gostei de tudo que tem tambor, tumbadora, atabaque. Fiz uma música chamada “Bate tambor”, lá em São Luís do Maranhão, quando vi uma senhora maranhanse, velhinha, tocando. Acaba influência a minha criação. Porque não me preparo para fazer música. “Vou fazer uma música semana que vem.” Não é assim, ela vem quando menos espero. “Essa tal criatura”, uma das letras mais bonitas da minha carreira, foi do Festival MPB, em 1980. Eu estava tomando banho, no chuveiro, e veio aquilo na minha cabeça: “Tira essa bota/ pisa na terra...”. Saí enrolada na toalha e botei no gravador para não perder a melodia. Porque, como não toco, como é que vai fazer? Isso aí é uma espiritualidade, uma coisa de Deus, a quem agradeço todos os dias, por ter me dado esse dom.
Voltando à sua pergunta. Influências: Jorge Ben foi uma influência, porque me lembro que, em 1965, quando ouvi a batida de violão dele tocando “Mas que nada” eu pirei. Fui pra rua comprar o disco, porque eu falei “O que é isso?”. Foi uma coisa que mexeu muito com a minha emoção, aquele balanço, a forma de fazer música, de cantar. Outro compositor que gosto bastante é Ivan Lins. E quando ouvi essa coisa da bossa nova, a primeira vez que ouvi Elis Regina, também me emocionei, ouço, gosto, cantei muitas músicas do repertório dela, como canto até hoje. Sou muito eclética, estaria sendo hipócrita se dissesse que só ouvia Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola. Eu gostava dos partidos do Padeirinho, de ver o Zagaia versar, de ver a Velha Guarda do Império Serrano quando encontrava a Velha Guarda da Portela. Vi quando Paulinho da Viola lançou “Foi um rio que passou em minha vida”, na quadra da Portela. Eu já rodava no meio das escolas, sempre gostei e assisti os desfiles das escolas de samba, desde pequeninha, quando era na Avenida Presidente Vargas, com corda. Não tinha nem arquibancada. Depois inventaram os cavalos da Polícia Militar para empurrar a gente, mas como nós éramos pequeninhas, ficávamos ali abaixadas. Minha mãe fazia sanduíches, levava laranja descascada na bolsa, para termos o que comer durante a madrugada, mas era maravilhoso. E só fui desfilar em escola de samba, como te falei, em 1972. Mas acompanho esse negócio aí desde pequena, quando as escolas não tinham esse dinheirão todo. Era outra coisa, muito sadia e muito inocente. Cada um fazia sua fantasia, as alas faziam suas festas, piqueniques em Paquetá para arrecadar dinheiro.

Esse ano completa 35 anos da gravação do primeiro LP, mais de 20 álbuns lançados. Como é olhar para trás, rever a trajetória? 
Leci Brandão. Fico muito feliz, porque percebo que nesses últimos dez anos acaba acontecendo o reconhecimento. Já fui chamada até de xiita, as pessoas diziam que eu era muito briguenta, muito contestadora, que só vivia falando da negritude, do pobre, do suburbano, do nordestino, do indígena. Porque eu talvez tenha sido a compositora precursora de protesto nesse país. Falo isso bem tranquilamente, porque comprei muito barulho lá atrás, nos anos 1970. Falei da Amazônia, quando estavam dizimando os índios lá, bem antes, quando ninguém falava em meio ambienta, não tinha o Partido Verde. Do negro, sempre falei, do povo da escola de samba, também. Em 1975, no meu primeiro LP, falo do enriquecimento das escolas de samba, em “Grêmio Recreativo Escola de Samba”, onde já acendo a luz amarela do que poderia acontecer com elas. Talvez tenha sido a primeira pessoa a falar dos gays, em “Ombro amigo”, de uma forma tranqüila, digna. Falei da mulher, dos professores, defendendo a educação. Enfim, peguei vários assuntos polêmicos que me sensibilizaram para fazer música. Mas, na época em que fiz as músicas, muita gente também fechou as portas para mim. Diziam: “Não chama a Leci que vem encrenca. A música dela é muito forte, muito pesada”. Aí, quando encontro o Adiel de Carvalho [dono da gravadora Copacabana], depois de cinco anos sem gravadora, e ele me diz: “Olha, continua cantando as mesmas coisas, mas muda o acompanhamento, os arranjos”, onde coloco os mesmos assuntos com arranjos mais simples, eu começo a ser entendida de uma forma mais ampla. A coisa estava muito gueto. Aí passo a ser aceita pelo Brasil todo e pelo povo mesmo, o povo da favela, do morro. Porque, até então, eram jornalistas, críticos de música, o pessoal que ia para o Teatro Opinião que me cultuavam. E, de repente, a coisa mudou. Nessa mudança, acabo também simplificando um pouco a forma de falar, de compor, e acabo levando um pouco de pancada da turma antiga, que dizia: “Poxa, mas agora a Leci está cantando umas coisas assim, mais simplesinhas”. Só que as pessoas não entendem a minha vida. Elas têm que entender como é a minha sobrevivência, onde é que eu atuo. Porque essa minha música mais simples acaba me dando condições de correr o Brasil, começo a conhecer o país de ponta a ponta e a gravá-lo. Gravo gente do Amazonas, do Pará, do Maranhão, do Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Minas Gerais. Gravei todas regiões, porque me encantei por compositores destes estados.

Faria tudo de novo da maneira que fez, se arrepende de algo? 
Leci Brandão. Não, eu faria tudo de novo, não me arrependo de nada. Pelo contrário, tudo que eu fiz me deu alicerces. Por exemplo, eu não quis saber o que você ia me perguntar. Confio em você, tenho que respeitar a sua profissão, as suas idéias. Porque não tenho rabo preso com ninguém, não tenho medo de responder nada. Ando na rua de cabeça erguida. Eu nunca roubei, cara. Matar, eu não sei. A gente nunca sabe, né?, depende das circunstâncias. Tenho uma vida construída com dignidade, tenho a maior honra de ser filha de uma servente de escola pública, de ter morado em fundos de escola pública, de ter varrido sala de aula, de ter lavado dezenas de banheiros de escola, ter sido operária da fábrica do Realengo, ter carregado marmita. Tudo isso me fortalece, a minha história é de fortalecimento. É uma história de conquistas, mas com dignidade. Nunca passei rasteira em ninguém para subir. Se não puder ajudar um artista, um colega, eu também não atrapalho.


Confira o site da compositora e sambista
Leci Brandão na Saraiva.com.br

Assista à entrevista exclusiva de Leci Brandão ao SaraivaConteúdo



Confira dois momentos do programa Ensaio com Cartola e Leci Brandão, gravado em 1974.
E ainda a compositora com Mariana Aydar, no Circo do Edgar, em 2008, cantando "Zé do Caroço"






12:33 | Posted in , , , , | Read More »