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Em Maputo: carga policial contra a revolta da população nas ruas, face ao aumento do custo de vida

foto: Grant Lee Neuenburg

Pelo menos seis pessoas morreram e 42 ficaram feridas nos confrontos entre a polícia e manifestantes que puseram esta manhã a ferro e fogo as ruas de Maputo e os subúrbios, em protestos contra o aumento dos preços, disseram fontes hospitalares à agência Lusa.
O porta-voz da polícia, Arnaldo Chefo, tinha antes informado que duas crianças morreram, citado pela agência Reuters. "Duas crianças foram mortas no subúrbio de Mafalala. Há muitos feridos. A desordem e confusão espalham-se pela cidade", explicou.
Várias pessoas ouvidas pelo Público já tinham chamado a atenção para a presença de crianças nos protestos. "Muitos destes manifestantes são crianças, miúdos pequenos. Isto é terrível", comentou ao PÚBLICO por telefone Teresa Correia Lopes, engenheira. "Na maioria são miúdos", afirmou pelo seu lado Paulinho Gentil, moçambicano ligado a organizações que combatem a sida.
“Há polícias a serem perseguidos pela população perto da Costa do Sol. E noutros lados da cidade a população está a chorar porque a polícia está a disparar contra a população", descreveu Teresa Correia Lopes. "O que está por trás disto é a grande dificuldade de sobreviver para muitas pessoas que vivem em redor de Maputo”, descreveu .
Esta portuguesa vive junto ao Hotel Polana e esta manhã chegou a levar o filho de nove anos, o mais pequeno, à escola portuguesa e a dirigir-se ao seu local de trabalho, antes de confirmar os “zunzuns de que provavelmente iria acontecer alguma coisa”. Os colegas não chegavam – apesar das indicações de que recebia da escola de que “estava tudo calmo”. “Os meus colegas que vivem na periferia já não conseguiram sair. Já havia confrontos.”
Agora, Teresa Correia Lopes está em casa, com toda a família, a ver televisão, como muitos portugueses e moçambicanos em Maputo. “Todos os canais estão a mostrar imagens ou a entrevistar pessoas. Eu trabalho na baixa, numa zona próxima de uma das saídas da cidade, que foi onde tudo começou, exactamente, na Avenida de Moçambique”, continua a engenheira.

“A polícia está a agir à bruta, como tinha prometido”

“Baixei o volume para poder falar consigo, mas estou a ver uma pessoa morta. Baleada. No canal seis”, diz-nos, também ao telefone, Paulinho Gentil. “A polícia está a agir à bruta, como tinha prometido. Os chefes da polícia tinham dito que responderiam assim a novos protestos.”
Da casa de Paulinho Gentil, na zona Polana Cimento, já ninguém saiu nesta manhã. “A minha filha deveria ter ido para a escola, era o início do ano lectivo na escola portuguesa.”
Já Emanuel Gomes da Silva, moçambicano gerente de um supermercado, tentou chegar ao trabalho. "Voltei para trás. Era impossível. Nada funciona, nem autocarros nem táxis. Entretanto percebi que nenhum dos meus colegas tinha conseguido chegar", disse por telefone a partir da casa de um amigo, no centro da cidade, "onde ainda não há problemas, só passam carros da polícia". O supermercado onde trabalha está situado na zona da Coop, perto de uma das saídas da cidade: "Neste momento está uma zona quente".

Todos esperavam protestos

Apesar de impressionados com a violência, nem Teresa Correia Lopes nem Paulinho Gentil estão surpreendidos com os protestos desta manhã.
A portuguesa Cristina Sanches, professora de História e Geografia na Escola Internacional, descreve a zona onde vive, perto da Presidência, na Ponta Vermelha, como estando "numa calmaria, pior do que domingo". Teresa Correia Lopes diz o mesmo: “A baixa parece uma baixa de domingo”.
Sanches lamenta "o vandalismo, as pessoas com fome que assaltam armazéns de quem também trabalha" e a "polícia mal treinada e sob ordens de incompetentes".
“Estávamos avisados de que isto ia acontecer. Por um lado, é um protesto justo naquilo que pretende do Governo, que não toma medidas para estancar o crescimento do custo de vida, não dialoga e esconde-se na crise internacional, ao mesmo tempo que dá sinais de esbanjamento e de vidas faustosas. É pena que, como sempre, degenere em vandalismo, há camiões queimados”, sublinha Paulinho Gentil.
Muitas das estradas de acesso a Maputo estão bloqueadas e o sistema de transportes parado, nada mais do que alguns autocarros a circularem vazios, e a maior parte das lojas fechadas. Mas há muitos polícias em patrulha pela capital, e uma concentração significativa das forças de segurança no aeroporto e no bairro de Magoanine. A polícia declarou ilegal esta manifestação – um protesto contra a subida de preços no país – sustentando que nenhum grupo nem organização pediu a necessária autorização, apesar de há vários dias correrem rumores de que a mesma estava a ser organizada.Ao longo do último ano os preços dos bens de primeira necessidade têm aumentado consideravelmente, com o custo de um pão, por exemplo, a subir em quase 25 por cento. Os combustíveis e a água sofreram igualmente acentuados aumentos de preço.
Protestos semelhantes, contra a subida de preços, há dois anos, escalaram para uma vaga de violência no país, em que morreram seis pessoas alvejadas pela polícia e dezenas ficaram feridas.

Aberto corredor em Maputo para tripulação da TAP chegar ao aeroporto 

A situação no aeroporto de Maputo, Moçambique, tende a normalizar porque foi aberto um corredor para permitir que a tripulação da TAP que está retida no hotel aceda ao local, disse fonte do Governo.
“Foi aberto um corredor para que a tripulação da TAP que chegou hoje possa sair e a que a vai substituir possa chegar ao aeroporto”, disse fonte do gabinete do secretário do Estado das Comunidades.
Um avião da TAP está retido em Maputo porque a tripulação não conseguia chegar ao aeroporto devido aos protestos que decorrem hoje nas ruas moçambicanas. A mesma fonte disse ainda que a situação no aeroporto “tende a normalizar” e que todos os portugueses que estão no local “estão bem”. “Não há motivos nenhuns para alarme em relação aos portugueses”, reiterou.
O protesto de hoje, que começou de madrugada com a “greve” dos transportes públicos (chapas), deve-se ao aumento do custo de vida. Hoje aumentam os preços da água e da luz. Há relatos de estradas cortadas e lojas vandalizadas, a polícia está a disparar contra os manifestantes e há um número não determinado de feridos. No centro da cidade de Maputo não há praticamente trânsito e as lojas foram fechando ao longo da manhã, com as pessoas a tentar agora regressar a casa.
Também o embaixador de Portugal na capital moçambicana confirmou que o avião da TAP que chegou hoje de manhã a Maputo continua retido naquela cidade porque a tripulação não consegue chegar ao aeroporto. “O avião aterrou mas, por causa dos distúrbios, a tripulação que deveria fazer o voo de regresso não consegue chegar ao aeroporto e a que chegou também não consegue sair”, disse Mário Godinho de Matos.

Ambiente tranquilo no aeroporto

O diplomata não tem ideia de quantos portugueses estarão no aeroporto à espera de regressar a Portugal. “Muito provavelmente, muitos não terão conseguido chegar ainda ao aeroporto”, afirmou. No aeroporto, estão também retidos os passageiros que chegaram hoje a Maputo. O embaixador Mário Godinho de Matos disse ainda que estão também turistas portugueses no país e lembrou que está a decorrer uma feira comercial, que levou muitos empresários e homens de negócios a Maputo.
Um dos portugueses que está no aeroporto à espera de ir para a cidade garantiu que estão todos bem e que reina um ambiente de tranquilidade. “Sabemos que há distúrbios na cidade, mas aqui está tudo tranquilo. As pessoas estão calmas e a aguardar”, disse João Corte Real. De acordo com o português que reside em Moçambique, quando desembarcaram, oriundos de Lisboa, os passageiros não puderam sair do aeroporto e foram informados que teriam de ficar à espera de mais indicações.
Residem na região da grande Maputo dez mil portugueses, segundo dados da embaixada de Portugal. Contudo, O Governo português não tem conhecimento de quaisquer portugueses envolvidos nos protestos.

publicado em O Público





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A legenda que acompanha:
Manifestação popular em Maputo contra o elevado custo de vida. O preço do arroz, pão, combustível e outros irão subir, deixando a população revoltada. Resultado: população atirando pedras nos carros, queimando pneus e polícia tentando controlar a bagunça atirando para cima. A gravação está bem ruim, pois gravei com maquina digital, as imagens da TV.

Posted by por AMC on 12:57. Filed under , , , . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. Feel free to leave a response

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