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A propósito do Brasil que, na deriva, Portugal ainda se encontra a milhas de conseguir sequer avistar

Existem detalhes que podem parecer apontamentos de menor, mas que quando olhados com atenção se revelam excelentes indicadores. Este por exemplo, que diz respeito à cobertura informativa da X Cimeira Luso-Brasileira. O programa oficial já previa que a passagem do presidente Lula por Lisboa fosse breve. O avião aterrou ao fim da tarde e voltou a descolar, rumo a Brasília, depois do jantar. Foram quase nenhumas as notícias sobre a cimeira. Durante a noite e a madrugada ainda se encontrava um ou outro apontamento no alinhamento dos telejornais e nos sites online da imprensa portuguesa. Mas mal passava das 11h da manhã e já todas as referências à cimeira tinham desaparecido, relegadas para a invisibilidade do scroll das notícias em arquivo. Parece-me cedo demais. Tão cedo que quem acordou mais tarde, dificilmente se dará conta de que Lula esteve em Portugal e fez reparos importantes, quer no que se refere às relações bilaterais entre os dois países em Cimeira, quer em relação à Europa, nomeadamente à crise da zona Euro e ao tempo excessivo da União Europeia na resposta ao desaire da Grécia.
Este descaso, esta facilidade de tudo reduzir a poeira passageira são sintomáticos de muita coisa. A começar da inconsequência e do autismo nacional, da absoluta tábua rasa que se faz ao que, pelo contrário, nos deveria dar que pensar e faríamos bem melhor em explorar, aproveitar e reflectir.
Penso na importância crescente da voz de Lula e no modo como o Mundo – Estados Unidos de Barack Obama e Hillary Clinton incluídos – lhe é cada vez mais atento e não consigo deixar de pasmar com a indiferença portuguesa. É certo que Lula não é o guru do Planeta, mas o extraordinário índice de popularidade e credibilidade que firmou dentro e fora de portas não são gratuitos e deveriam merecer a Portugal, no mínimo, curiosidade bastante para o ouvir e prestar alguma atenção às leituras, interpretações e propostas que traz consigo.
Em face da situação gravíssima que se vive no país e da necessidade crucial de revitalizar o mercado das exportações para que o crescimento económico sustente oportunidades reais que permitam enfrentar a crise com outra robustez, é espantoso como Portugal continua a desprezar a posição de interlocutor privilegiado junto de uma das potências emergentes mais promissoras e bem sucedidas. É espantoso e é preocupante. Revela um Portugal distraído, anestesiado com o buraco sem saída que a cada dia vai cavando mais ao umbigo, incapaz de erguer a vista e se dar conta de que há uma nova ordem mundial no horizonte e de que não só as respostas e soluções a buscar fariam bem em considerá-la, como estarão inevitavelmente condenadas ao fracasso se o ignorarem.
Não sei se é arrogância, se é ainda o estigma subcutâneo de antigo colonizador a minar-nos o entendimento e o diálogo, se é o cromossoma pesado e anacrónico que nos condena a retina e o encéfalo ao eixo viciado do centralismo da 'Velha Europa' de que fazemos cauda, ou se é simplesmente ignorância e tacanhez, tique provinciano de fidalguia falida. Sei e pressinto, contudo, que esta gritante ausência de lucidez não augura grande perspectiva de remédio à doença que nos consome. Já nos sugou as forças e nos chegou ao osso. Faminta como por nos anda, não é de crer que se prepare para roer devagar. Mais depressa do que imaginamos é bem provável que cedo nos chegue ao miolo. Temo bem que seja preciso que nos devore por inteiro a 'alma lusitana' para nos tornarmos, enfim, capazes de buscar alimento nesse 'outro civilizacional' que cedo descortinámos e mais cedo ainda nos acostumámos a subestimar e desvalorizar.

Posted by por AMC on 12:05. Filed under , , , . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. Feel free to leave a response

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