In Memoriam: «Frederico Valsassina (1930-2010)»
por José Cutileiro
O presidente do conselho de administração do colégio levava a sério a herança que lhe coubera, mas tal nunca o tornou solene nem lhe fez perder simplicidade e sentido de humor.
Frederico Lúcio de Valsassina Heitor, 'Fifas' como era conhecido por amigos, colegas e discípulos, que morreu de doença súbita no seu gabinete de trabalho na sexta-feira dia 7 e cujo corpo esteve em câmara ardente na Basílica da Estrela e foi cremado no cemitério dos Olivais, era presidente do conselho de administração do Colégio Valsassina, instituição lisboeta de ensino privado que hoje, instalada na Quinta das Teresinhas a caminho do aeroporto da Portela, vai desde o jardim de infância até à preparação do acesso ao ensino superior, passando pelos ciclos, mas começara como uma pequena escola primária na parte antiga da cidade - fundada em 1898 pela professora Susana Duarte, avó de 'Fifas', que casou em 1907 com o professor Frederico Valsassina, tendo ambos estendido a sua pedagogia ao curso dos liceus -, aumentando progressivamente as instalações, tendo a certa altura a Escola (como então se chamava), antes de se fixar de vez na Quinta das Teresinhas, ocupado entre 1934 e 1959 o Palácio Lousã, na António Augusto de Aguiar, magnífico hôtel particulier do século XIX, hoje demolido, onde ensinos infantil, primário e liceal eram ministrados, continuando a família a manter intervenção directa no empreendimento: em 1941, os pais de 'Fifas' passaram a colaborar na direcção da Escola, décadas depois passaram o testemunho ao filho que, por sua vez, a filho seu o veio a passar. Até hoje, através de quatro gerações, tem havido sempre pelo menos um Valsassina a dirigir o Colégio, todos eles sem pretensão nem formalidade e imbuídos de um espírito de missão. 'Fifas' levava o mais a sério possível a herança que lhe coubera, mas tal nunca o tornou solene nem lhe fez perder simplicidade e sentido de humor.
Essa continuidade familiar, natural e assumida, foi importante para manter exigência pedagógica e visão a longo prazo do mister de educador. Quando a D. Susana (a professora Susana Duarte, depois de se reformar, continuara uma figura tutelar da Escola) havia aberto a sua pequena escola na Rua de Santa Marinha em 1898, o chefe de Estado português era o Rei D. Carlos e o presidente do Conselho de Ministros dessa monarquia constitucional José Luciano de Castro. Quando, 112 anos depois, o seu único neto Frederico morre, tinham passado três golpes de Estado que haviam, a 5 de Outubro de 1910, extinto a monarquia e proclamado a república; a 28 de Maio de 1926, substituído esta pelo que viria a ser o Estado Novo; a 25 de Abril de 1974, derrubado o Estado Novo e implantado a democracia com que nos governamos. Se as mudanças políticas foram consideráveis - embora os portugueses tenham continuado a ser os mesmos... -, as mudanças da teoria e prática da educação foram maiores ainda e iam sendo sabiamente plasmadas no Colégio. Por dentro, na substância do ensino - nos programas e métodos oferecidos aos alunos. Por fora, na luta constante de um estabelecimento de ensino particular consciencioso contra, por um lado, a concorrência irresponsável e desprestigiante que chegou a ser preciso denunciar e, por outro, contra um Estado nem sempre receptivo e eivado de preconceitos. "Na administração olham-nos como uma pequena parte do ensino oficial. Consideram que a autonomia pedagógica dos colégios é fazer como o Estado faz", contou Frederico ao Expresso em 2006.
Escola e depois Colégio, Valsassina está há mais de meio século no topo de tabelas de excelência de ensino. Grande instituição, criou um esprit de corps. Quando lá andei, o 'Fifas' estava uns anos à minha frente; fui ao enterro do avô, que venerava: Frederico César Ramos Montecembra de Valsassina (Turn e Taxi) rezava a participação. Os manos Fezas Vital, filhos do lugar-tenente de D. Duarte Nuno, quase todos mais velhos do que eu, espalhavam-se por vários anos do liceu. O dr. Avelino Cunhal, pai de Álvaro, advogado e pintor, ensinou-me História e foi o melhor professor que tive na vida. Citando Fernando Pessoa: "Era eu feliz então? Não sei. Fui-o outrora agora".
* publicado na edição de O Expresso de 22 de Maio de 2010


