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Da série: 'coisas que nos estragam os dias...'

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fotos: Rita Carmo

Assisti incrédula à transmissão via SIC Mulher do 4º dia de Rock in Rio Lisboa com Miley Cyrus como cabeça de cartaz. Pior era impossível. Foi um concerto quase confrangedor, longe muito longe de se poder sequer benevolentemente considerar sofrível. A Quinta da Bela Vista estava cheia é um facto. A organização avançou 90 mil na assistência. Faço fé nos dados porque não estive lá para ver com os meus próprios olhos. Em vez disso tive, como já disse, a oportunidade única para ensaiar uma experiência psicadélica: colocar o televisor em 'mute' e ficar a assistir à performance. Vista assim quase nos convencíamos – desde que nunca a tivéssemos visto em parte alguma e não soubéssemos nada do som de que verdadeiramente ali se tratava – que estava em palco uma verdadeira mulher do rock, tal o modo como se esfarrapava e encenava 'dar o tudo por tudo'.
Faço um esforço de contenção para não arrasar a prestação da vulgo Hannah Montana. E não tem que ver com o facto de o target se ter focado na infância e pré-adolescência. Ou se calhar até tem: tem tudo a ver e é, sobretudo, por isso. Porque estas idades são o público potencial de palcos futuros e caostumá-los assim, a vibrar e aplaudir flops me perturba profundamente. Porque aquilo que a vedeta milionária da Disney serviu aos seus milhares de fãs foi de total falta de respeito: era tudo muito mau, das canções à voz sem o betume de retoques da pós-produção em estúdio, passando pelos bailarinos farquíssimos que a acompanharam em palco, à piroseira do guarda-roupa e à pobreza grotesca das coreografias, já para não falar na plasticidade do guião mal-ensaiado que papagueou de vez em quando para se dirigir ao público de Lisboa que tinha à sua frente.
Foi um espectáculo confrangedor. De música vi muito pouco, de canto quase nada.
Não sabia se havia de chamar uma equipa de paramédicos para rapdamente lhe aplicarem respiração boca-a-boca quando o fôlego lhe falatva e ameaçava asfixiar-se a qualquer momento, ou se havia de ligar para o piquete de serviço do Hospital Júlio de Matos para lhe aplicarem urgentemente algum sedativo, nos picos mais delirantes em que se sacudia em convulsões pretensamente rockeiras e se esgoelava por um fio de voz que mal saía.
Miley Cyrus foi quase um caso de esquizofrenia ao vivo e a cores a desfilar diante da multidão. Como se a velocidade a que se contorcia e atirava aos pés dos guitarristas a tivessem convencido que é do rock, do rock do bom e da pesada.
Foi muito, mas mesmo muito mau. A voz a sair esganiçada ou a não sair de todo, a faltar-lhe em todas as notas e circunstâncias, a fugir-lhe do tom e do ritmo e a deixar apenas o triste espectáculo de uma gata a querer miar sem êxito. Muito, muito, muito triste.
Que o amanhã chegue rapidamente, é tudo quanto me ocorre dizer. Que é para ver se o peso limpa a imagem que esta noite me deixou do Festival. Que é para ver se a tripla Rammstein, Motorhead e Megadeth restituiu, ao menos, um pouco de dignidade ao palco que esta noite vi tão infantilmente achincalhado.

Posted by por AMC on 01:56. Filed under , . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. Feel free to leave a response

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