"Sócrates e Passos, a mesma luta!"
por Daniel Oliveira
Hoje discute-se no Parlamento o “tributo social”, uma ideia apresentada pelo PSD que nem Paulo Portas se atreveria a propor. Um nome bonito para a mais pornográfica das demagogias. Uma punição social para os desempregados, tratados como pedintes ou pessoas sobre as quais recai a suspeita de se limitarem “a viver de expedientes” (a expressão é da exposição de motivos do projecto do PSD), e não como trabalhadores que recebem um subsídio que pagaram antecipadamente com os seus descontos. O dinheiro da segurança social é dos trabalhadores. Serve para isto mesmo. Não é uma esmola ou um favor. Coisa que um eterno jotinha, que quer mão de obra gratuita em vez de dignidade, nunca perceberá.
O silêncio de José Sócrates e os insultos de Passos Coelho mostram bem para onde estamos a caminhar. Graças ao acordo cozinhado pelos dois o desemprego vai aumentar ainda mais. Mas a preocupação destes senhores não é encontrar soluções para minorar o sofrimento daqueles que serão as maiores vítimas da crise. Um dá sinais de os querer ignorar (e até acha que diminuir o subsídio de desemprego é um incentivo para estes preguiçosos trabalharem), o outro tenciona usá-los para fazer populismo fácil, tratando-os como aldrabões e parasitas.
Têm estes dois fanfarrões coragem para pôr a banca a pagar o mesmo de IRC que as outras empresas? Ou para taxar a sério os prémios absurdos de gestores que sugam uma parte significativa das despesas em trabalho? Claro que não. Já se percebeu que os suspeitos desta temporada serão os do costume. E assim, talvez os portugueses se entretenham a culpar os desempregados pela sua desgraça e outros, também do costume, se escapem entre os pingos da chuva.
Na Islândia, ex-ministros e directores de bancos são investigados, detidos e arriscam-se a penas de prisão pesadas pelas suas responsabilidades criminais na crise que aquele país atravessa . Em Portugal também haverá condenados. Serão, como sempre, os mais desgraçados entre os desgraçados. É a sina deste país. Não é por acaso que é o mais desigual da Europa. Também o será na factura que vamos pagar nesta crise.


