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Entrevista a Mário Soares: «A obrigação do PS ser fiel ao acordo da troika chegou ao fim»

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Mário Soares, antigo Presidente da República e fundador do PS, dá hoje uma entrevista ao jornal i onde faz várias afirmações que vão causar 'sururu' em Portugal. Diz ele que, numa Europa em mudança, o PS não se deve sentir obrigado a cumprir o acordo que o país subscreveu com a troika., justamente pelo punho do seu anterior secretário-geral e antigo primeiro-ministro, José Sócrates. «Essa obrigação foi assumida há um ano. Mas chegou ao fim. A austeridade tem limites. Aliás, até já o Presidente da República o disse», é um dos vários argumentos que Soares apresenta.

O movimento de Soares é interessante e prova que fazer política é algo que lhe é completamente inato. São palavras fortes e representam a primeira guinada política frontal de uma figura de peso face aos termos do acordo que Portugal assinou, faz agora um ano.
De certo modo, Soares chega a ser mais radical do que o PCP e o BE que, apesar da oposição assumida ao memorando, têm guardado algum cuidado nas palavras, colocando as críticas no plano de uma renegociação, ou de um rescalonamento, e evitando ao máximo usar expressões de ruptura com o documento, como Soares utilizou.
Apesar de se afirmar como «um simples cidadão socialista», é mais uma vez Soares a empurrar Seguro para uma posição afirmativa do partido. Quando lembra que o líder dos socialistas viajou para França e se colocou ao lado de Hollande, Soares não está apenas a aplaudir-lhe a solidariedade, está acima de tudo a cobrar-lhe lealdade e coerência com a viagem e a dizer-lhe que não basta, que é preciso agora que defenda com igual vigor os estandartes que o francês ergueu durante a campanha.
O histórico do PS está a mostrar um caminho possível para a oposição ao memorando sem que, necessariamente, se crie uma incompatibilidade extrema com a troika: explorando a própria divergência entre o FMI, o BCE e a CE. Pelo meio, Soares arrola ainda o presidente Cavaco como álibi, por conta do que já disse sobre os sacrifícios dos portugueses, e passa um atestado de menoridade a Passos Coelho. Quando lembra que crescem na Europa e no seio da troika as vozes que desacreditam da eficácia de tanta austeridade, aquilo que Soares deixa exposto é a insistência do primeiro-ministro na fórmula inversa que, ainda por cima, tanto se orgulha de ter reforçado por iniciativa própria.

A questão que, todavia, se coloca é a de que este sentido de oportunidade de Soares vai necessariamente esbarrar no caos à solta na Grécia, especialmente desde que, ontem, a direita fracassou na tentativa de formar governo e passou a bola à esquerda radical do Syriza.
Apanhar a boleia do entusiasmo europeu com a vitória de Hollande e formar bloco por uma política de crescimento económico, em detrimento da lógica de austeridade, poderia ser uma jogada conveniente. O problema é que os tais mercados 'nervosos' já vieram dar sinal de não gostar nada de gente que ameaça rasgar a dívida, como hoje fez Alexis Tsipras. As bolsas acusaram a declaração de intenções e, com isso, farão seguramente regressar o tal pavor português de uma comparação à Grécia. Passos Coelho, o cumpridor, vai tremer à simples ideia de ver manchada a reputação que tantas medidas cruéis lhe tem exigido. Mas o problema é que não é o único com síndrome de 'bom aluno'. Seguro bem o pode mandar seguir sozinho, mas no fundo, no fundo, padece do mesmo mal.




Mário Soares: «A obrigação do PS ser fiel ao acordo da troika chegou ao fim»

O fundador do PS e ex-Presidente da República indica o caminho pós-Hollande: a ruptura do PS com o memorando da troika.
Ao contrário de muitos, Mário Soares sempre confiou na eleição de François Hollande. O fundador do PS defende que a vitória do presidente socialista é um acontecimento que pode impulsionar uma mudança que na Europa já iniciou o seu curso. Em Portugal, Soares também já prevê mudanças. Na sua opinião, se já se provou que a receita não funciona, o PS deve romper com o acordo da troika. Soares não acredita que o governo consiga chegar ao fim do mandato: “Não creio que isto possa subsistir tanto tempo”

[ENTREVISTA]

Ficou muito satisfeito com a eleição de François Hollande. Em que medida é que um presidente socialista francês pode mudar o actual rumo da Europa?
A Europa já está a mudar. Já estava antes desta vitória que é, realmente, muito importante. A eleição de um socialista pode acentuar a marcha de mudança que está em curso. Esta mudança é, efectivamente, importante porque está a ocorrer de baixo para cima, do povo de esquerda europeu para os dirigentes europeus.

Mas François Hollande tem margem para, tal como prometeu na campanha, boicotar o tratado orçamental europeu?
Não direi boicotar, mas direi que tem margem para transformar um pouco a situação europeia. A senhora Merkel está obrigada a fazê-lo. Em primeiro lugar, porque tem perdido as eleições todas e esta última também não foi um sucesso para ela. Mas há outra razão. Os dirigentes europeus quase todos já perceberam que reduzir a União Europeia à austeridade e aos equilíbrios financeiros para favorecer os mercados usurários e sem ter em conta a recessão económica e o desemprego avassalador que está a crescer, isso implica que a Europa vai de mal a pior. E cada ano que passa vai ser uma desgraça maior. E o povo europeu não quer isso porque tem um sentido da sua própria segurança e quer que os anos de bem estar que teve a Europa e o modelo social europeu continuem. O povo europeu sempre defendeu uma Europa social e não uma Europa liberal.

Mas a senhora Merkel tem sido implacável…
Sim, mas está a arrepender-se, porque começa a não ter espaço, já não tem aliados fortes. Tinha o senhor Sarkozy, que estava de acordo com ela – queriam a mesma coisa os dois. Era um disparate para a França e talvez por isso ele tenha perdido as eleições. E Merkel disse que o apoiava, o que também é significativo. Mas não é só na França e na Alemanha que as coisas estão a mudar. Quando eu digo que a Europa está a mudar também tenho em conta o Reino Unido, que está a mudar e onde os trabalhistas ganharam as eleições municipais. Não ganharam em Londres, mas ganharam-nas por toda a parte e isso conta muito. E veja-se o que se está a passar em Itália, onde já não governa Silvio Berlusconi, mas Mario Monti, que é um tecnocrata, mas um tecnocrata esclarecido. Os democratas italianos (agora os socialistas chamam-se democratas) estão também a favor de uma mudança. E Espanha não pode aguentar-se enquanto país europeu sem uma mudança sensível. E Portugal também não.

E como é que em Portugal se vão reflectir as ondas de choque da eleição de François Hollande?
Acho que François Hollande é um homem de grande cultura. Dizem que é um homem que não tem carisma, mas eu não acho. O carisma é uma coisa que, de repente, aparece. Se começa toda a gente a dizer que Hollande tem muito carisma, passa a ter carisma. Foi o que sucedeu com Mitterrand e com outras pessoas. François Hollande sabe muito bem o que quer. Nós não podemos acabar com o Estado social. Se acabamos com o Estado social e passamos para um Estado liberal, o desenvolvimento da Europa desaparece. Se desaparecer, a democracia entra em crise. Em certos países já está em crise. É preciso ter cuidado com isso. Sem democracia não há Europa. Acho que há uma transformação em curso e a vitória de Hollande dá um grande impulso a essa transformação.

E como é que em Portugal se vai sentir esta transformação?
Toda a gente percebeu tanto em Portugal como na Espanha que só com austeridade não se vai lá.

E o programa da troika?
A troika está dividida. O Fundo Monetário Internacional tem uma posição, o Banco Central Europeu tem outra, a Comissão Europeia tem outra. Esta mudança vai avolumar a necessidade de se entenderem uns com os outros, e acabarem com a austeridade nos termos drásticos em que a exigem. A austeridade cria recessão e desemprego, que são os dois flagelos que temos neste momento na Europa.

E o PS português também vai ser mais activo depois da vitória de Hollande?
Sem dúvida. O líder do Partido Socialista, António José Seguro, acompanhou François Hollande no último comício. Isso é significativo. Ele arriscou estar ali ao lado do líder que podia ganhar ou perder. Os franceses isso não vão esquecer.

Mas o PS vai romper este acordo de cavalheiros que mantém com o governo em torno das medidas do memorando?
Isso é para ser perguntado ao líder do PS. Eu sou um simples cidadão que reflecte sobre as questões, um cidadão socialista. Mas penso que o Partido Socialista não deve ter nenhuma pressa em se substituir ao PSD. Foram eleições legítimas, têm que ser respeitadas, tem de se dar tempo ao tempo. Mas não tenho dúvida que as coisas se encaminham para haver uma mudança também em Portugal.

Eleições a curto prazo?
Não diria eleições a curto prazo. As eleições estão marcadas para 2015, mas não creio que isto possa subsistir tanto tempo, embora o Partido Socialista só tenha vantagem em ficar de fora nos tempos mais próximos.

Acha que a Europa vai agora mesmo avançar pela estratégia de crescimento? Até Angela Merkel fala nisso…
A Europa até agora não tem ido no caminho do crescimento, mas no caminho da recessão e desemprego. O povo português está muito descontente, o governo não dialoga com o país nem com os sindicatos, nem com o maior partido da oposição. O governo está a caminho de ficar cada vez mais isolado.

Diz que o governo não dialoga com o principal partido da oposição. Mas até aqui têm mantido uma espécie de entente cordiale
Não tem havido uma entente cordiale. A adenda que o Partido Socialista queria acrescentar ao tratado foi completamente ignorada pelo governo. E António José Seguro disse: “Sigam o vosso caminho”. Quem está a seguir o seu caminho e a não olhar sequer para aqueles que poderiam ser seus parceiros são os sociais-democratas e o CDS. Eles que sigam o seu caminho – foi o que disse o líder do Partido Socialista e eu acho que fez muito bem em dizê-lo.

O sr. dr. interpretou essa expressão como um sinal de pré-ruptura…
Sim, sim. O PS sentiu-se durante um tempo obrigado – e bem, porque foi Sócrates que assinou o primeiro acordo – a cumprir. Mas agora que já está toda a gente a falar noutra linguagem, porque é que o Partido Socialista deve continuar a ser fiel a esse acordo?

O sr. dr. está a dizer que o PS já não tem que se sentir obrigado a ser fiel ao acordo da troika?
Exactamente. Tudo evoluiu: o acordo da troika, a troika e o país.

Portanto, o correcto é agora o PS dizer “já não nos sentimos identificados com o acordo da troika”…
Foi o que já disseram. “Sigam o seu caminho” – foi o que disse Seguro e eu concordei com essa expressão.

Isso significa ruptura, significa que o acordo da troika pode ir ao ar?
Pode ir ao ar. Senão for pelo PS, poderá ser pela própria troika que vai ao ar.

A troika pode, ela própria, implodir?
Claro que sim. A troika entrou aqui como se Portugal fosse um protectorado. Mas não é! Isso foi um erro terrível. O primeiro-ministro, com a sua mentalidade neoliberal, disse que era preciso ir além da troika, e isso não faz nenhum sentido, no meu entender. E cada vez faz menos, à medida que a receita se vai desfazendo.

O sr. dr. acha mesmo que a troika está a desfazer-se por causa da guerra entre o FMI e o Banco Central Europeu?
Sim, e por causa das situações que atravessam o resto da Europa.

O caminho certo para o PS e para o socialismo europeu é cortar com o programa da troika?
Acho que esse é o caminho. A austeridade tal como a definem não tem sentido. Pode haver uma certa austeridade, sim, mas devia começar no governo. A austeridade deveria começar no governo e não nas pessoas e, sobretudo, não nos pobres e nos desempregados.

Mas nós estamos obrigados a cumprir o programa da troika…
Essa obrigação foi assumida há um ano. Mas chegou ao fim. A austeridade tem limites. Aliás, até já o Presidente da República o disse.

publicado no jornal i

[ACTUALIZAÇÃO]

Em resumo

Numa entrevista publicada nesta terça-feira pelo jornal i, Mário Soares aprova uma ruptura do PS com o caminho que tem sido seguido até aqui,. condicionado pelo memorando de entendimento assinado com as entidades que lideraram a assistência financeira internacional, isto é o Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e a Comissão Europeia. "O PS sentiu-se durante um tempo obrigado – e bem, porque foi Sócrates que assinou o primeiro acordo – a cumprir [o acordo com a troika]. Mas agora que já está toda a gente a falar noutra linguagem, porque que é que o Partido Socialista deve continuar a ser fiel a esse acordo?", questiona agora o antigo líder socialista.
No actual quadro europeu, marcado por uma mudança que, segundo Soares, já estaria em marcha mesmo antes da vitória eleitoral do socialista François Hollande nas Presidenciais em França, não se pode pôr fim a um modelo social que caracteriza a Europa e, por essa razão, os governantes europeus terão de encontrar uma alternativa à austeridade. "Nós não podemos acabar com o Estado social. Se acabamos com o Estado social e passamos para um Estado liberal, o desenvolvimento da Europa desaparece", afirma Mário Soares, que vê Angela Merkel cada vez mais isolada e a eleição de um socialista em França como um motor que irá acentuar "a mudança que está em marcha".
"A austeridade tal como a definem não tem sentido. Pode haver uma certa austeridade, sim, mas devia começar no governo e não nas pessoas e, sobretudo, não nos pobres e desempregados", sublinha o antigo Presidente da República que também foi primeiro-ministro e foi um dos negociadores da entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia. "O primeiro-ministro [Pedro Passos Coelho], com a sua mentalidade neoliberal, disse que era preciso ir além da troika e isso não faz nenhum sentido (...). E cada vez faz menos, à medida que a receita se vai desfazendo", prossegue Soares, assinalando que a própria troika "está dividida". "O FMI tem uma posição, o BCE tem outra, a CE tem outra", frisa, argumentando que a mudança em curso na Europa irá obrigar estas instituições a rever a receita que tem sido aplicada. "A austeridade cria recessão e desemprego, que são os dois flagelos que temos neste momento na Europa."
Sobre o apoio do PS a este memorando de entendimento, Soares entende que "tudo evoluiu – o acordo da troika, a troika e o país", aplaudindo por isso a posição do actual secretário-geral do PS que já disse ao Governo para seguir o seu caminho sozinho.


publicado no Público

Reacções às afirmações de Mário Soares:

Líder parlamentar garante que socialistas cumprirão metas do acordo da troika
"O PS cumpre sempre os seus compromissos e, portanto, nós cumpriremos as metas do memorando a que estamos associados", afirmou Carlos Zorrinho, em declarações aos jornalistas no Parlamento, a propósito da entrevista ao antigo Presidente da República Mário Soares publicada hoje no i.

Louçã. Declarações de Mário Soares demonstram como "é preciso acabar com os programas de austeridade"
O coordenador do BE, Francisco Louçã, considerou hoje tratar-se de "um sinal muito importante" Mário Soares defender agora que o PS deve romper com o acordo da 'troika', porque "é preciso acabar com os programas de austeridade".
Francisco Louçã, em declarações aos jornalistas, à margem de um encontro com trabalhadores da Carpan, na Maia, considerou que o fundador do PS e antigo Presidente da República "vem dizer que o BE tinha razão há um ano".

PCP espera "mais do que palavras" e diz que trabalhadores querem "ruptura"
A dirigente do PCP Fernanda Mateus afirmou hoje que os "trabalhadores esperam mais do que palavras", numa reação à proposta do ex-Presidente da República Mário Soares para que o PS rompa com a `troika´.
"Registamos as palavras, mas o que os trabalhadores, os reformados e todos aqueles que são duramente atingidos nos seus direitos e condições de vida esperam são atitudes e uma verdadeira rotura de facto com a política e com o pacto de agressão", afirmou Fernanda Mateus, da Comissão Política do PCP.

PSD. Ruptura com troika defendida por Soares é um exagero e só serve para incendiar
O vice-presidente da bancada social-democrata considerou hoje que a proposta de ruptura do acordo com a 'troika' defendida pelo fundador do PS Mário Soares é "um exagero" e só serve para "incendiar a estabilidade" do país.

CDS-PP. Mário Soares "teria que estar à altura" da situação do país e ter "outra responsabilidade"
O porta-voz do CDS-PP, João Almeida, considerou hoje que as afirmações de Mário Soares defendendo o rompimento do acordo não é "construtiva", defendendo que um antigo Chefe de Estado "teria que estar à altura" da situação do país e ter "outra responsabilidade".

Cf. também:


Ler mais: AQUI.

Imprensa europeia destaca entrevista de
Mário Soares ao i

A imprensa europeia destaca hoje a entrevista de Mário Soares ao i, apontando-o como mais uma das vozes, depois de Hollande, que apela a uma política comunitária mais virada para o crescimento económico e menos austeridade.
Num artigo intitulado “Quando Hollande fala em crescimento a Europa está a ouvir?”, a Radio France Internationale (RFI) refere Mário Soares como um dos políticos que apoia a política pró-crescimento do recém-eleito presidente francês. O site da RFI sublinha a opinião de Soares face à posição do PS, quando diz que o partido devia deixar de apoiar as medidas de austeridade do governo de Passos Coelho.
“Essa obrigação foi assumida há um ano. Mas chegou ao fim. A austeridade tem limites”, cita o jornal.
Também o espanhol  El Economista refere num artigo, com base na entrevista dada por Mário Soares ao i, que o ex- Presidente da República português “ pede aos socialistas que deixem de apoiar mais austeridade”, estabelecendo a ligação entre as declarações do antigo estadista e a eleição de Hollande” .
“A Europa já está a mudar. Já estava antes desta vitória que é, realmente, muito importante. A eleição de um socialista pode acentuar a marcha de mudança que está em curso. Esta mudança é, efectivamente, importante porque está a ocorrer de baixo para cima, do povo de esquerda europeu para os dirigentes europeus”, destaca o “El Economista”.
Passando para a política interna portuguesa, a publicação espanhola salienta a opinião de Soares em relação à posição que o PS deve assumir face às medidas de austeridade apresentadas pelo governo.
“Mas agora que já está toda a gente a falar noutra linguagem, porque é que o Partido Socialista deve continuar a ser fiel a esse acordo? (…) A austeridade tem limites”, cita o jornal espanhol. link

Posted by por AMC on 11:28. Filed under , , . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. Feel free to leave a response

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