Marina Silva dará uma palestra em Portugal no dia 21 de Outubro
Aproveitando, agora, para deixar mais detalhes sobre a visita de Marina Silva a Portugal, que o Conexão já aqui havia informado.
A ex-ministra do ambiente, ex-senadora e ex-candidata à presidência brasileira, estará em Lisboa no dia 21 Outubro, sendo oradora no ciclo de debates organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian que, como o Conexão já aqui anunciou, teve início no dia 6 de Maio. O arranque, recorde-se, foi dado com os comentários dos professores Viriato Soromenho-Marques e Isabel Capeloa Gil à obra emblemática de Henry Thoreau, Walden (ou A Vida nos Bosques), publicado em 1854.
A política e activista ambiental participará, mais precisamente, no painel de discussão que o programa de Ambiente da Fundação Gulbenkian reserva ao relatório Brundtland – Our Common Future – lançado em 1987 e considerado precursor do conceito de 'desenvolvimento sustentável'.
Além de Marina, a sessão contará também com a participação de Francisco Ferreira, histórico dirigente da Quercus, e está agendada para o auditório 3 da Fundação Gulbenkian, a partir das 18h.
Verdadeiramente a não perder, esta oportunidade de ouvir Marina ao vivo, a cores e, sobretudo, na primeira pessoa!
Na sequência, segue um texto escrito por Leonardo Boff a 22 de Maio de 2008, por altura da demissão de Marina do 2º Governo Lula, que creio ter todo o cabimento resgatar aqui.
por Leonardo Boff 22/05/2008
A saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente representa uma pesada perda de qualidade política do governo Lula. Por qualidade política entendo a competência do governante de manter a unidade dos contrários, contrários esses, inerentes a todo convívio social e democrático, que confere dinamismo e vida à sociedade. Marina Silva representava um pólo decisivo no governo e fundamental para uma política responsável pelo futuro da vida e da integridade do Planeta: o cuidado com o ambiente inteiro e com as condições ecológicas que garantem a vida em toda sua imensa diversidade. No outro pólo estão outros, em maior número, que perseguem um projeto, que nos remete ao século XIX, de crescimento material acelerado e a todo custo, sem considerar a mutação das consciências ocorrida no Brasil e no mundo face principalmente às perigosas transformações negativas do estado da Terra, ocasionadas, em grande parte, por aquele projeto. Missão do governante é ser um homem de síntese, capaz de articular os pólos e ter a sabedoria suficiente para decisões estratégicas, mesmo difíceis, que garantam o futuro de nossa existência neste pequeno Planeta. O atual presidente mostrou essa capacidade de síntese. Mas desta vez, parece-nos, se operou desastroso desequilíbrio. Com a ausência de Marina Silva, há o risco do pensamento único e da obsessão furiosa pelo crescimento fazendo crescer nossa dívida para com a natureza e as gerações futuras.
A ex-ministra Marina Silva mantinha tenaz coerência com a missão que se propôs de introduzir a partir de seu Ministério a transversalidade do cuidado ecológico em todas as instancias do poder, no esforço de conferir uma direção inovadora e à altura dos desafios contemporâneos ao desenvolvimento sócio-ambiental sustentável. Foi vista como obstáculo ao crescimento e como empecilho à modernização. E efetivamente era e precisava se-lo. Não é possível com tudo o que sabemos da história e da experiência recente continuar com o tipo de crescimento retrógrado que visa a acumulação à custa da devastação da natureza e do aprofundamento das desigualdades sociais. Há que se estigmatizar essa modernização conservadora e socialmente criadora de tantas vitimas no campo e nas cidades. As pressões contra a ministra vindas do interior do próprio governo e do exterior, de grupos poderosos ligados à pecuária e ao agronegócio solaparam a sustentação política e a viabilidade de seu trabalho, especialmente, com referência à preservação da floresta amazônica. Retirou-se do ministério pela porta da frente, com elevado espírito público e ético, protestando lealdade e fidelidade ao presidente.
Marina Silva era uma das reservas éticas do governo, uma referência de credibilidade para o Brasil e para o mundo. Mas ética era pouco para ela. Movia-a uma inspiração espiritual, de serviço à vida e de proteção a todo o Criado. Ela me faz lembrar a frase de um dos grandes pensadores da escola de Frankfurt que foi um rigoroso marxista e materialista: Max Horkheimer. No final de sua vida escreveu um instigante livro:"Saudade do totalmente Outro". Ai, como marxista e não como cristão, diz:"uma política, sem teologia, é puro negocio". E explicava:"teologia significa aqui, a consciência de que o mundo não é a verdade absoluta, que não é o fim; teologia é a esperança de que tudo não se acabe na injustiça que tanto marca o mundo, que a injustiça não detenha a última palavra". Estimo que Marina Silva mostrou em sua vida e prática a verdade desta sentença. Por isso todos lhe somos agradecidos e devedores.
Sobre Marina Silva
Marina Silva é uma dos 11 filhos de um casal de seringueiros dos subúrbios de Rio Branco, na Amazónia. Alfabetizou-se tarde, tornou-se professora, depois vereadora da câmara de Rio Branco e chegou a ministra do Meio Ambiente em 2003. Em 2007, um movimento transversal e espontâneo de origem cívica - o Movimento Marina Silva Presidente - começou a defesa pública pela sua candidatura à Presidência brasileira. Em Maio de 2008, cinco dias depois do lançamento do Plano Amazónia Sustentável, Marina avançou com o pedido de demissão do cargo devido à «falta de sustentação» da política ambiental do 2º Governo Lula. Mais tarde, o Partido Verde Europeu pressionou o Partido Verde do Brasil a convidá-la para os seus quadros, tendo em vista uma futura candidatura à presidência brasileira, o que viria a acontecer a 11 de Junho de 2010. Apesar das limitações da sua máquina de campanha, a sua candidatura surpreende tudo e todos, obrigando à realização de uma 2ª Volta já que, nas eleições de 3 de Outubro, Marina obtém 19.636.359 votos, o que corresponde à fatia impressiva de 19,33% do eleitorado. Ainda que tenha ficado em terceiro lugar, atrás de Dilma Rouseff e José Serra, obteve vitória sobre os outros candidatos em cidades como Brasília (41%), Belo Horizonte (39%) e Vitória (37%).
Carta de demissão de Marina Silva a Lula
Caro Presidente Lula,
Venho, por meio desta, comunicar minha decisão em caráter pessoal e
irrevogável, de deixar a honrosa função de Ministra de Estado do Meio
Ambiente, a mim confiada por V. Excia desde janeiro de 2003. Esta
difícil decisão, Sr, Presidente, decorre das dificuldades que tenho
enfrentado há algum tempo para dar prosseguimento à agenda ambiental
federal.
Quero agradecer a oportunidade de ter feito parte de sua equipe. Nesse
período de quase cinco anos e meio esforcei-me para concretizar sua
recomendação inicial de fazer da política ambiental uma política de
governo, quebrando o tradicional isolamento da área.
Agradeço também o apoio decisivo, por meio de atitudes corajosas e
emblemáticas, a exemplo de quando, em 2003, V. Excia chamou a si a
responsabilidade sobre as ações de combate ao desmatamento na
Amazônia, ao criar grupo de trabalho composto por 13 ministérios e
coordenado pela Casa Civil. Esse espaço de transversalidade de
governo, vital para a existência de uma verdadeira política ambiental,
deu início à série de ações que apontou o rumo da mudança que o País
exigia de nós, ou seja, fazer da conservação ambiental o eixo de uma
agenda de desenvolvimento cuja implementação é hoje o maior desafio
global.
Fizemos muito: a criação de quase 24 milhões de hectares de novas
áreas de conservação federais, a definição de áreas prioritárias para
conservação da biodiversidade em todos os nossos biomas, a aprovação
do Plano Nacional de Recursos Hídricos, do novo Programa Nacional de
Florestas, do Plano Nacional de Combate à Desertificação e temos em
curso o Plano Nacional de Mudanças Climáticas.
Reestruturamos o Ministério do Meio Ambiente, com a criação da
Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental, da
Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental, do Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal
Brasileiro; com melhoria salarial e realização de concursos públicos
que deram estabilidade e qualidade à equipe; com a completa
reestruturação das equipes de licenciamento e o aperfeiçoamento
técnico e gerencial do processo. Abrimos debate amplo sobre as
políticas socioambientais, por meio da revitalização e criação de
espaços de controle social e das conferências nacionais de Meio
Ambiente, efetivando a participação social na elaboração e
implementação dos programas que executamos.
Em negociações junto ao Congresso Nacional ou em decretos,
estabelecemos ou encaminhamos marcos regulatórios importantes, a
exemplo da Lei de Gestão de Florestas Públicas, da criação da área sob
limitação administrativa provisória, da regulamentação do art. 23 da
Constituição, da Política Nacional de Resíduos Sólidos, da Política
Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais. Contribuímos
decisivamente para a aprovação da Lei da Mata Atlântica.
Em dezembro último, com a edição do Decreto que cria instrumentos
poderosos para o combate ao desmatamento ilegal e com a Resolução do
Conselho Monetário Nacional, que vincula o crédito agropecuário à
comprovação da regularidade ambiental e fundiária, alcançamos um
patamar histórico na luta para garantir à Amazônia exploração
equilibrada e sustentável. É esse nosso maior desafio. O que se fizer
da Amazônia será, ouso dizer, o padrão de convivência futura da
humanidade com os recursos naturais, a diversidade cultural e o desejo
de crescimento. Sua importância extrapola os cuidados merecidos pela
região em si, e revela potencial de gerar alternativas de reposta
inovadora ao desafio de integrar as dimensões social, econômica e
ambiental do desenvolvimento.
Hoje, as medidas adotadas tornam claro e irreversível o caminho de
fazer da política socioambiental e da economia uma única agenda, capaz
de posicionar o Brasil de maneira consistente para operar as mudanças
profundas que, cada vez mais, apontam o desenvolvimento sustentável
como a opção inexorável de todas as nações.
Durante essa trajetória, V. Excia é testemunha das crescentes
resistências encontradas por nossa equipe junto a setores importantes
do governo e da sociedade. Ao mesmo tempo, de outros setores tivemos
parceria e solidariedade. Em muitos momentos, só conseguimos avançar
devido ao seu acolhimento direto e pessoal. No entanto, as difíceis
tarefas que o governo ainda tem pela frente sinalizam que é necessária
a reconstrução da sustentação política para a agenda ambiental.
Tenho o sentimento de estar fechando um ciclo cujos resultados foram
significativos, apesar das dificuldades. Entendo que a melhor maneira
de continuar contribuindo com a sociedade brasileira e o governo é
buscando, no Congresso Nacional, o apoio político fundamental para a
consolidação de tudo o que conseguimos construir e para a continuidade
da implementação da política ambiental.
Nosso trabalho à frente do MMA incorporou conquistas de gestões
anteriores e procurou dar continuidade àquelas políticas que apontavam
para a opção do desenvolvimento sustentável. Certamente, os próximos
dirigentes farão o mesmo com a contribuição deixada por esta gestão.
Deixo seu governo com a consciência tranqüila e certa de, nesses anos
de profícuo relacionamento, termos feito algo de relevante para o
Brasil.
Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos.
Marina Silva
bbbbbb









