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Bairro de Aparecida, em Manaus

por Astrid Lima

Cervejaria antiga na cidade de Manaus (Cervejaria Miranda Corrêa ) no Bairro de Aparecida, às margens do igarapé de São Raimundo ,na orla do Rio Negro

As passagens secretas até a Luiz Antony, as velhas casas estreitas, minúsculas, da Bandeira Branca, as enchentes que lambiam as cozinhas com os quintais de rios na Gustavo Sampaio, o seu Aury, que consertava tudo, a dona Pequena fumando cachimbo na cadeira de balanço. As cadeiras de balanço! Todas as cores: amarelas, verdes, azuis, enfeitando as portas
As ruas de pedra crua, o joelho sempre ferido, o primeiro beijo, o seu Ceguinho, a Carmem Doida, o padre Marcos, o português Fernando que nós tínhamos certeza não se afastava nunca do seu bar, o medo do Conêgo Azevedo antes da reforma onde, corria a voz, havia um esqueleto além dos seus muros escuros (muralhas, para nós crianças), as corridas com os cachorros nos nossos calcanhares, os banhos de chuva embaixo das calhas, cachoeiras de detritos, o último andar do colégio Aparecida, onde se dizia era fechado desde que o elevador despencara matando dois estudantes (poucos ousaram ultrapassar as portas fechadas, desafiando as escadas em ruínas que davam na antiga biblioteca), os papagaios enrolados nos fios, a goiabeira de galhos lisos atrás de casa, a família Pacatuba na frente, os Paixões e as brigas memoráveis, os pequenos empurrões entre amigas, o rio, as corridas até a bóia no meio da água, os arraiais na Igreja, a primeira comunhão e o medo de cometer pecado entre a primeira confissão e a ostia sagrada no dia seguinte, a total, absoluta ausência de roubos, a quadra, as passagens secretas até a Luiz Antony, as velhas casas estreitas, minúsculas, da Bandeira Branca, as enchentes que lambiam as cozinhas com os quintais de rios na Gustavo Sampaio, o seu Aury, que consertava tudo, a dona Pequena fumando cachimbo na cadeira de balanço. As cadeiras de balanço! Todas as cores: amarelas, verdes, azuis, enfeitando as portas; o seu Osmar e a sua ternura africana.
Não sei o que existe naquele lugar que nos rende ligados a ele desse modo indissolúvel, não sei o que é capaz de marcar a memória com esse fogo perene, não tenho um nome para explicar o que, desse bairro — pedaço de terra, quase lama de rio — permanece em silêncio no lugar mais remoto da nossa alma e que retorna toda vez que perdemos a estrada, que erramos o caminho, que nos sentimos solitários e vencidos. Retorna, nos sussurra um nome, nos recorda um aniversário.
Aparecida. Aquele lugar nos forja em continuação. Vamos morrer pela mesma causa e, espero, com um meio sorriso nos lábios lembrando do Rubem nos dando uma piscadinha cúmplice.
A Aparecida não é uma doença, é a nossa loucura.

(...)


O bairro de Aparecida, na zona centro-sul adotou em sua origem nomes como Cornetas, Cajazeiras ou bairro dos Tocos. O primeiro por conta do contigente do Exército antes localizado no igarapé que cortava o bairro. O segundo em função da grande quantidade de árvores desta espécie na localidade e o terceiro em virtude da derrubada das árvores para a abertura das ruas, deixando à mostra os troncos serrados. Com a chegada dos primeiros missionários em 1943, o bairro começou sua evolução.
A missão dos religiosos era de instalar uma nova paróquia e iniciar o processo de evangelização. Com o trabalho desenvolvido pelos missionários, o bairro adotou de vez o nome de Aparecida.
Em 1944 foi oficialmente fundada a paróquia do bairro pelo bispo Dom João da Mata Andrade e Amaral recebendo o nome de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Foi pela fé que tudo começou, registra, Roberto Bessa, autor do livro "Memorial: Síntese da História de um Bairro", editora Uirapuru (2001).
A primeira capela segundo relatos do autor funcionou em duas salas, num chalé doado pela família Miranda Corrêa em 1944, funcionando até 1946, quando foi projetada a nova igreja à rua Alexandre Amorim, em frente ao colégio onde atualmente funciona o Clube de Mães.
Com o passar dos anos, o bairro foi crescendo, surgindo à necessidade de um novo templo capaz de abrigar um número maior de fiéis.
Estevam Santos, 72, um dos mais antigos moradores do bairro, afirma que Aparecida é 100% católica, por conta do trabalho de evangelização dos missionários americanos.
Na época da colonização o padre Frederico Stratman esteve à frente da construção da igreja, do colégio e da casa paroquial. Santos lembra que o bairro de Aparecida através da paróquia desenvolvia várias atividades sociais e culturais como oficinas de marcenaria e carpintaria, arraiais, além de atividades esportivas como basquete, boxe entre outras. "Conforme a história de desenvolvimento do bairro, a chegada dos missionários ajudou muito a educar a comunidade", relata.

Ruas e becos guardam memória de importantes personalidades

Aparecida com o tempo foi se modernizando, mas sem perder a identidade. Até hoje possui o mesmo padrão simétrico de ruas, tendo como a principal, a Alexandre Amorim, ilustrada pela igreja, o colégio estadual de Aparecida, a faculdade de Farmácia da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e o Fórum.
As reminiscências que marcam o bairro são as ruelas e becos, muitos deles ainda com a mesma arquitetura das casas coladas uma nas outras. Outra grande referência é a rua Comendador Ventura, ou melhor Bandeira Branca que até os dias de hoje serve de palco para a realização dos principais eventos do bairro.
O nome Bandeira Branca está associado a um antigo morador e comerciante português, que tinha o hábito de colocar à porta de seu estabelecimento uma bandeira branca. O primeiro nome que a rua recebeu foi 1º de maio, mas não caiu no gosto popular, ficando mesmo o nome de Bandeira Branca. Outras ruas que compõem o bairro têm significados históricos como Carolina das Neves, das Flores (por sinal não há flores e nunca houve), Coronel Salgado, Gustavo Sampaio, Xavier Mendonça, Wilkens de Matos e Dr. Aprígio.
De acordo com Roberto Bessa cada rua ou beco tem o nome de um personagem importante e que morou no bairro e desenvolveu alguma atividade em prol da comunidade.

Arraiais e catraias, vivos na tradição do bairro

Na área cultural fizeram parte da comunidade por muitos anos - as festas das Pastorinhas e juninas, dando origem ao boi-bumbá "Coringa". De acordo com o relato de Bessa, o mês de setembro era esperado com ansiedade pelos moradores durante a realização do arraial que tinha como objetivo angariar recursos para as atividades sociais da igreja.
O ponto máximo dos arraiais era o tradicional serviço de alto-falante, comandado pelo Zeca Afonso em parceria com Humberto Bacurau embalados pelas melodias e recadinhos para os namorados que não podiam faltar durante a realização dos festejos.
Estevam Santos lembra que muitos dos moradores do bairro até hoje estão casados a partir dessas brincadeiras. Outro detalhe que faz parte da história eram as disputas acirradas entre os rapazes do bairro com os dos bairros vizinhos como o São Raimundo e Matinha (mais tarde Presidente Vargas).
Conta Santos, que ao flertarem com as moças dos bairros vizinhos muitas vezes tinham que fugir a nado ou sobre as jangadas, já que os donos das catraias (embarcações de transporte entre os dois bairros) se negavam a transportá-los. Os arraiais acabaram ainda na década de 70, com a chegada das novas tendências culturais.

Novena é tradição

O que restou da tradição da década de 60, foi a tradicional novena da terça-feira na igreja de Nossa Senhora de Aparecida, freqüentada por devotos dos quatro cantos da cidade. Associada a novena foi instalada a feirinha municipal, antes na rua Bandeira Branca e sendo transferida posteriormente para Coronel Salgado entre Ramos Ferreira e Alexandre Amorim devido ao grande contigente de pessoas.
Aparecida ficou conhecida também pelo serviço das catraias que saiam do porto da antiga serraria Hore, transportando trabalhadores das indústrias instaladas no bairro para os bairros vizinhos.
Com a construção da ponte ligando ao São Raimundo (conhecido antigamente como Bucheiros). O serviço custava quinhentos réis no itinerário que levava em média um tempo entre dez e quinze minutos de travessia. As catraias, assim como os famosos catraieiros perderam desta forma o sentido de existir ficando apenas nas lembranças da história deste bairro.

Independência marcou o futebol

O bairro também teve seus momentos de glória no esporte. Introduzido pelos padres americanos, surge na década de 50 a agremiação do Independência Futebol Clube.
A equipe formada pela rapaziada do bairro chegou a enfrentar clubes de grande porte entre eles, o Nacional e o Fast Clube. O Independência reunia todos os domingos, segundo relato de Bessa, uma gama de torcedores no antigo campo da serraria do Hore (local de concentração da equipe) ao som de batucada.
Durante o decorrer dos anos 60, o clube decide pendurar a chuteira. Seus jogadores se dispersaram e, era o fim de um sonho chamado Independência. Outra tradição mantida até hoje no bairro era a concentração de pequenos botecos com a venda dos mais variados tipos de cachaça.
Boa parte destes botecos era tinha como proprietários os portugueses, já que a história do bairro está ligada diretamente com a imigração lusitana que por ali chegaram e instalaram diferentes atividades comerciais.
Por exemplo, o bar do Armando português que antes funcionava na entrada da rua Carolina Neves, esquina com Xavier de Mendonça. Aparecida ao longo de sua existência viu nascer e crescer figuras ilustres e que hoje fazem parte da memória expressiva da sociedade manauense.
Moacir Andrade, uma das maiores expressões das artes plásticas do Amazonas, com menções em vários países; Paulo Feitosa, desembargador, Lauro Chibé, artesão, Mário Ipiranga Monteiro, historiador (morto em 2004). Em 1950, Antônio Dias Loureiro Ventura, conhecido popularmente como "Comandante Ventura" funda no bairro o Corpo de Bombeiros Voluntários de Manaus.
Um idealista nascido em Concêlho de Porto, em Portugal, funda a entidade em um terreno de sua propriedade juntamente com voluntários do bairro.
A entidade funcionava onde está instalada o Fórum de Justiça. No dia 4 de dezembro de 1961, ao retornar de uma de suas missões, na estrada BR-319, no quilômetro 28, a viatura que conduzia ele e seus companheiros capotou e caiu em um abismo lhe tirando a vida.

Definição do perímetro

O perímetro do bairro começa no igarapé de São Vicente com o Rio Negro até o igarapé de São Raimundo, seguindo até o igarapé da Castelhana; deste até a rua Luiz Antony indo até a rua José Clemente retornando ao igarapé de São Vicente até o Rio Negro.

fonte: Portal da Amazônia





O livro A Belle Époque Amazônia, de Ana Maria Dou, cita A Cervejaria Miranda Corrêa "...inaugurada em 1909, em estilo art nouveau, contribuía para a "vida alegre da cidade", abastecendo Manaus com a famosa cerveja XPTO, refrigerates e gelo. A cervejaria também realizava bailes inesquecívies para a alta socieade. O chope e a cerveja aninamam a sociebilidade masculina, quando ao final do dia se reuniam nos clubes ou nos bares os recebedores da borracha, fiscais de Alfândega, representantes das firmas seguradoras e das companhias de navegação, responsáveis pela saída da contrapartida amazônica na tonelagem dos navios que tornavam o Atlântico em dreção à Europa, aos Estados Unidos ou ainda para o Rio de Janeiro. Refrescados pelo chope gelado ou pela cerveja, realizam os últimos acertos nos negócios, atentos à cotação da borracha..."

Posted by por AMC on 11:04. Filed under , . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. Feel free to leave a response

1 comentários for "Bairro de Aparecida, em Manaus"

  1. Oi moça,

    ao que parece também voce quer encontrar o caminho das pedras :)

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